feminismo

O “Universo Desconstruído” e a Ficção Científica Feminista Brasileira

​Aline Valek e ​Lady Sybylla organizaram a primeira obra com contos de ficção científica feminista do país.

Letícia Naísa

Letícia Naísa

​Crédito: Felipe Larozza/VICE

​​Já falamos por aqui sobre o quanto a ​ficção científica feminista é bom demais. Agora, é hora de falar sobre o quanto ficção científica feminista brasileira também é muito fera. Semana passada, encontrei na rede por acaso o livro ​Universo Desconstruído, o primeiro livro de contos de ficção científica feminista no Brasil, escrito em 2013.

Comecei a ler um pouco desconfiada, confesso: livro de graça, na internet, a gente fica com um pé atrás, né? Mas já conhecia o trabalho da ​Aline Valek, uma das organizadoras do livro, então dei um crédito e segui em frente. De autoria da ​Lady Sybylla, que também é organizadora da coletânea, o primeiro conto recebe o nome de "Electra". É simplesmente um tapa imenso: trata-se de uma personagem complexa e mulher, lutando uma guerra entre duas civilizações inimigas de dois planetas diferentes: klatenanos e magojins, com culturas muito diferentes e valores extremamento opostos, sendo cada uma um grande mistério para outra. O final é tão surpreendente que o resto do livro acaba prendendo a atenção até o fim.

Aline e Sybylla contaram que o projeto começou porque elas não se sentiam representadas nas histórias clássicas de ficção científica. "Tem pouca coisa nesse segmento da literatura e o que tem não nos representa. É uma panelinha de autores homens, brancos e eles escrevem sobre as mesmas coisas, representam as mulheres da mesma forma, e a gente gosta de ficção científica, e a gente acha que pode ter coisas diferentes", diz Aline.

Crédito: Felipe Larozza/VICE

Cada conto apresenta uma realidade distópica diferente, mas todos apresentam mulheres protagonistas, sejam elas guerreiras, cientistas ou engenheiras. E todos questionam o papel da mulher na sociedade. No caso, nas sociedades construídas nas histórias, mas alguns conceitos podem muito bem ser trazidos para a nossa realidade, afinal a ficção científica pode nos dizer mais sobre o presente do que sobre o futuro. Um grande exemplo é o conto Eu, Incubadora, de autoria da Aline. Ela disse que se inspirou na história do Estatuto do Nascituro e escreveu como seria a realidade se ele tivesse sido aprovado. É ficção, mas infelizmente pode ser trazida para a realidade das ​mulheres que tentam abortar no Brasil.

Além desse questionamento sobre o papel da mulher, os contos também tratam com muita sensibilidade a questão da mulher trans e da mulher negra – porque representatividade importa.

"Você ter uma trans no papel principal é representar e representatividade empodera, mostra para a pessoa que ela pode ser representada com dignidade sem estereótipo negativo. Eu queria tanto ver uma mulher guerreira nesse papel [de protagonista] e o fato de ela ser trans não desqualifica. Não desqualifica ninguém ser negro, ser gay, ser trans", afirma Sybylla.

Um fato interessante que as duas escritoras notaram no Universo Desconstruído é que muita gente leu porque era ficção científica, mas também muita gente leu porque era feminista. A ficção científica feminista é um subgênero de fato do nicho de ficção científica, assim como a distopia e as óperas espaciais. Além do Universo Desconstruído, Aline e Sybylla trabalharam na tradução de um conto do gênero escrito em 1905, O Sonho da Sultana, da escritora indiana Roquia Sakhawat Hussain. Ou seja, "muita gente achou que a gente estava inventando a roda, mas não é novidade, a gente quis resgatar para mostrar para as pessoas há quanto tempo isso existe. E outra coisa, é uma autora que ninguém ouve falar, então a gente tem que trazer essa visibilidade", diz Aline.

A receptividade da coletânea foi bastante variada. Aline e Sybylla contaram que a publicação atingiu um público em sua maioria jovem que, em alguns casos, acabou entrando em contato com o feminismo pela primeira vez. Mas também teve muita gente que duvidou que mulheres foram capazes de escrever contos tão envolventes, com uma narrativa tão complexa. "Por ser mulher, a gente é questionada sobre tudo, o tempo inteiro", diz Sybylla. Elas disseram que ressaltar a palavra "feminista" logo na capa do livro aproximou muita gente, mas ao mesmo tempo também afastou. Elas não se preocuparam com isso.

Para elas, o feminismo incomoda porque mexe no status quo e questiona as coisas, "pisa no calo das pessoas", diz Aline. Principalmente se tratando de ficção científica, que parece ser o lugar dos homens no mundo da ficção. "A gente mexeu no playground dos meninos e teve gente que não curtiu", brinca Sybylla.

Crédito: Felipe Larozza/VICE

Elas frisaram a importância de se afirmar feminista logo de cara: "A gente quis marcar nosso espaço, se afirmar, para não ter propaganda enganosa", explica Aline. No passado, muitas autoras usaram pseudônimos masculinos e ainda hoje algumas assinam apenas com as iniciais ou o sobrenome para não ficar evidente que são mulheres, como no caso da J. K. Rowling, que foi aconselhada por seus editores a não transparecer que seus livros foram escritos por uma mulher. Mas "é uma escolha que chega a ser política de você não abrir mão do seu nome, se mostrar mulher", diz Aline.

No caso da ficção científica feminista das autoras, o que mais inspira é a indignação. "É o que me dá sangue nos olhos", diz Aline. E assim foi mesmo na confecção da coletânea. "A gente chamou pessoas que também gostam de ficção científica, que escrevem, e perguntou como seria sua visão de uma ficção científica feminista", conta Aline. Elas também frisaram em tom de brincadeira que nenhum homem foi castrado, machucado ou torturado no processo de confecção dos contos. "Muito pelo contrário, a gente desconstruiu vários estereótipos, até do homem machão que salva a galáxia antes do almoço, a gente não teve isso", diz Sybylla.

Uma das autoras mais conhecidas de ficção científica feminista Ursula K. Le Guin, ​recentemente ganhou uma menção honrosa no National Book Award nos EUA. Seu único trabalho traduzido recentemente para o português aqui no Brasil é A Mão Esquerda da Escuridão – outras obras, como Os Despossuídos e Mago de Terramar foram traduzidos nos anos 70, mas estão fora de catálogo há tempos. Por aqui, segundo as autoras, a ficção científica ainda engatinha e recebe poucas apostas de editoras, que preferem se manter em uma zona de segurança, publicando apenas os clássicos. "É um gênero muito incipiente. Numa livraria, a seção de ficção científica vai estar em outra seção, em uma só prateleira e só os clássicos. Não tem coisa nova", diz Aline.

As outras grandes inspirações e referências de ficção e fantasia ainda vêm de fora e ainda são dominadas por homens, tanto em leituras quanto em casos de séries, filmes e games. Uma leitura quase obrigatória, e que quase todo mundo que curte ficção científica lê, são as obras de Asimov e Clarke. As leis da robótica de Asimov são muito presentes nas histórias do Universo Desconstruído. Mesmo assim, as autoras e autores dos contos querem mostrar que uma ficção científica diferente existe e é possível.

Crédito: Felipe Larozza/VICE

Uma saída de ouro principalmente para as mulheres escritoras é o uso das ferramentas de autopublicação. O Universo Desconstruído foi publicado dessa forma independente e por isso está disponível gratuitamente (e nem mesmo o livro impresso gera lucro para os autores). O jornal britânico The Guardian ​fez uma reportagem em que aponta que 67% dos títulos mais populares de ferramentas de autopublicação como Wattpad, Blurb, CreateSpace, SmashWords e FicShelf são escritos por mulheres, contra 61% dos 100 livros mais vendidos da Amazon que são escritos por homens e recebem apoio de editoras. Ou seja, tem muita mina escrevendo ficção de qualidade, inclusive no Brasil.

O trabalho do Universo Desconstruído está aí para provar isso. Inclusive, Aline e Sybylla planejam lançar uma nova coletânea com o selo Universo Desconstruído ainda esse ano, com mais contos e mais histórias incríveis, além de mais traduções de mais minas feras.