Um negociador do Acordo de Paris conta o quão fodidos estamos

Paul Bodnar diz que estamos bem fodidos com a saída dos EUA, sim. Mas há esperança.

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jun 6 2017, 1:59pm

Imagem: Shutterstock.

Paul Bodnar passou grande parte dos últimos anos negociando detalhes do Acordo de Paris na Casa Branca com o presidente Barack Obama. Na Conferência para o Clima de Paris, ele trabalhou junto a Todd Stern, o líder para a negociação da parte dos EUA. Foram anos de esforço e incontáveis horas de discussão. Agora, como muitos cientistas e estudiosos americanos, ele sente que todo seu trabalho foi em vão depois do presidente Donald Trump anunciar a saída do tratado que visa diminuir os efeitos devastadores das mudanças climáticas.

Bodnar é, atualmente, o diretor de gestão da think tank Instituto Rocky Mountain, onde trabalha com finanças sustentáveis. Liguei para ele para tentar compreender a decisão de Trump e para discutir o quão fodidos estamos atualmente.

MOTHERBOARD: Quando soube que os EUA estavam saindo de algo no que você se dedicou tantos anos da vida, o que passou pela sua cabeça?

Paul Bodnar: O que me veio à cabeça foi a frase "dar um tiro no próprio pé". O fato é que 195 países decidiram fazer a transição para a economia de energia limpa, não só porque é importante impedir os piores efeitos das mudanças climáticas, mas também por outros benefícios. Agora estamos afirmando que não queremos fazer parte disso, o que significa que vamos perder uma oportunidade de se apoiar em um mercado global de 8 trilhões de dólares em tecnologias e serviços de energia limpa. Se você aprecia a competitividade econômica, saiba que isso é uma decepção independentemente de suas opiniões sobre mudanças climáticas.

Quando conversamos, você afirmou que o acordo era mais um ganho diplomático do que para o meio ambiente. Como isso afetará a reputação global dos EUA?

Nossa reputação no mundo e habilidade de exercitar liderança quando quisermos ficarão abaladas – talvez permanentemente, porque não estamos nos projetando como um país confiável. Isso impactará negativamente nossa habilidade de liderar em casos de terrorismo e outras questões de vários níveis que exigem interesses equilibrados.

Foi um dia muito triste para a política internacional dos EUA. Há muitas iniciativas que operam sobre o processo multilateral do clima, das quais os EUA podem ficar de fora. Mesmo se se tratar de uma colaboração para pesquisa e desenvolvimento de energia limpa, ou outras soluções que beneficiem exportadores norte-americanos, não seremos sequer cogitados.

O Acordo de Paris envolve muita negociação pelo Departamento de Estado. Esse departamento com o Trump tem muitas vagas em aberto agora . Você acha que a retirada teria acontecido se o departamento de estado estivesse totalmente preenchido?

Acredito que esse fator contribuiu para que toda a alta administração do aparato do Departamento de Estado esteja faltando. O secretário Tillerson pode ter ouvido mais alarmes de outros líderes que não estão lá para conversar sobre as ramificações diplomáticas de uma retirada, e o quão sério isso pode ser. Coube a ele se defender, ele que era um defensor da permanência no acordo, mas, sim – o Departamento de Estado é uma instituição enfraquecida sem seu núcleo de diplomatas seniores por lá.

Emmanuel Macron afirmou que os pesquisadores do clima norte-americanos são bem-vindos na França. A fuga de cérebros é uma preocupação real?

Nossa parte das patentes para energia limpa já está em declínio, o que é um grande indicador de onde a pesquisa importante está acontecendo. Com os cortares de fundos para laboratórios nacionais responsáveis por tecnologias de ponta e a nossa retirada do acordo, isso não beneficiará a economia dos EUA, e não vai ajudar a manter os melhores pesquisadores no país.

Tem algum motivo – não necessariamente esperança, mas que não seja só ladeira abaixo? Alguns estados e cidades afirmaram que vão honrar com o acordo de Paris após a retirada dos EUA. É o caso de ser otimista?

Sim. Estados, cidades e empresários deixaram claro que seguirão em frente, independentemente da decisão. É importante que a comunidade internacional entenda que os EUA não são um buraco negro das ações sobre o clima, mas sim um lugar contestado. O governo federal está retrocedendo, mas uma onda de protagonistas os quais não estão envolvidos com ele seguem adiante.

Você usou a expressão "espaço contestado" sobre os EUA – mas as mudanças climáticas não são controversas em outros lugares. Isso implica que estamos sozinhos?

Bem, não estamos sozinhos, temos a Nicarágua e a Síria como companheiros. Mas é verdade que em outros grandes países há um consenso político abrangente e oportunidades para lidar com as mudanças climáticas. Usando uma analogia, penso que a discussão é se o cavalo, a carroça ou o automóvel são o futuro do transporte. O resto do mundo está construindo carros, enquanto ainda estamos discutindo sobre o cavalo e a carroça. Corremos o risco de ficarmos para trás se insistirmos em passar as próximas décadas tornando o carvão grande novamente.

Você trabalhou nisso durante muitos anos de sua vida. Você está, em um nível pessoal, muito decepcionado?

Somos um pouco como o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde. Temos nossa fase Dr. Jekyll, em que trabalhamos com a comunidade internacional para construir estruturas que nos amparem para quando nos transformamos em Mr. Hyde. Estou bastante confiante que as estruturas do Acordo de Paris permanecerão. Por fim, é bom saber que criamos um esquema internacional para as ações do clima, o qual pode sobreviver quando um dos países maiores e mais poderosos resolva sair por alguns anos depois de assinado.