Créditos: Liam Young/Unknown Fields Division

Por Dentro da Nova Shenzen, a Fábrica de 90% dos Eletrônicos do Mundo

Visitamos as fábricas e as casas dos trabalhadores do ponto de partida da rota da tecnologia.

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ago 23 2015, 11:17am

Créditos: Liam Young/Unknown Fields Division

Mencione Shenzhen em qualquer conversa e as pessoas imaginarão a enorme fábrica da Foxconn que produz celulares, tablets, laptops e consoles de ponta para empresas como Apple, Microsoft, Dell e Sony.

Não à toa: a fábrica da Foxconn situada em Shenzhen, no sul da China, é do tamanho de uma cidadezinha — tem cerca de meio milhão de funcionários — e recebe atenção da mídia por causa dos clientes de alto escalão e dos numerosos relatos de condições atrozes de trabalho, histórias de suicídios, protestos e até mesmo motins de funcionários entre os muros do campus.

Embora seja a maior e mais conhecida, a Foxconn é apenas uma entre centenas de fábricas ao redor de Shenzhen. A megacidade é responsável por produzir em torno de 90 por cento dos aparelhos eletrônicos para consumo no mundo – a vasta maioria muito menos glamourosa do que iPhones e PlayStations.

"É de lá que vem toda a porcaria eletrônica que compramos", me diz Kate Davies, acadêmica e arquiteta que estuda lugares extremos, enquanto caminha pelas ruas de Shenzen iluminadas por LEDs. "Os brinquedos baratinhos, aquela caixa de carregadores e adaptadores que você tem mas já não faz mais ideia para que serve, o cemitério de celulares velhos na gaveta da cozinha...", ela listava, de pé no marco zero. "Shenzhen é um desses lugares do planeta onde o mundo se condensa, em alta densidade, em apenas um ponto, é um artefato da rede de distribuição global contemporânea, que tece materiais e desloca a terra do planeta."

Davies foca grande parte do seu trabalho na maneira como as cidades ocidentais dependem cada vez mais de redes globais extensas para sobreviver. Ela trouxe um pequeno grupo de jornalistas e pesquisadores — sou um deles — a Shenzhen como parte de uma expedição para rastrear a cadeia de distribuição global de trás para frente, até a fonte. Viemos à cidade de navio porta-contêineres e, após duas semanas de viagem, chegaremos às terras raras e refinarias no interior da Mongólia, para ver em primeira mão como toda a porcaria eletrônica é escavada.

Em muitos aspectos, Shenzhen é o ponto de partida da rota da tecnologia. Como Zona Econômica Especial (ZEE) pioneira na China, foi o experimento que forneceu à nação o primeiro milagre econômico. O local provou que investimentos estrangeiros e produção terceirizada poderiam ser atraídos em larga escala, caso os impostos e custos de mão-de-obra fossem baixos o bastante; provou também que um estado comunista antidemocrático poderia conter e controlar zonas de hipercapitalismo dentro das próprias fronteiras e, também, que cidades inteiras poderiam ser construídas do zero para preencher uma lacuna no mercado de produção global.

Créditos: Liam Young/Unknown Fields Division

Recentemente, Shenzhen foi considerada a terceira maior cidade da China, depois de Xangai e Pequim. Mas antes de receber o status de ZEE, em 1979, era um porto de pesca com 300 mil habitantes. Agora, abriga mais de 15 milhões — quase o dobro da população de Nova York — e continua a inchar devido à migração de trabalhadores do interior da China: filhos de agricultores de subsistência com a esperança de cultivar um futuro melhor na cidade.

Quando têm sorte, os migrantes vão parar em lugares como o Parque Industrial TCL LCD, uma das maiores fábricas de televisão do mundo. O caminho daqui até o centro financeiro de Shenzhen leva mais ou menos uma hora e é um lembrete de que o horizonte de arranha-céus não representa a cidade como um todo. Torres iluminadas em neon, lojas de tecnologia de última ponta e shoppings repletos de marcas dão lugar a conjuntos habitacionais e unidades industriais genéricas, de baixo custo. Aqui, no subúrbio fabril, é mais provável ver placas de fábricas desconhecidas do que as marcas globais familiares; roupas estendidas em varandas e caixotes de ar condicionado substituem as fachadas lustrosas dos famosos prédios de vidro.

O Parque Industrial TCL LCD é uma fração do tamanho da Foxconn, mas, ainda assim, produz numa escala que nem faz sentido para nós, do Ocidente. Esta planta possui nada menos do que 10 mil funcionários, dos quais 3 mil moram em alojamentos locais. O TCL talvez seja mais conhecido nos Estados Unidos como o fabricante dos reprodutores de mídia Roku, muito poupulares, mas a empresa também produz mais de 18 milhões de televisores por ano, bem como geladeiras, máquinas de lavar, máquinas de secar, aparelhos de ar condicionado e Blu-ray, cada um para uma marca diferente.

Aqui, no Parque Industrial LCD, eles montam televisores em um ritmo de 160 por hora, com componentes feitos em outras fábricas de Shenzhen — como, por exemplo, a fábrica de painéis de LCD China Star, avaliada em 4 bilhões de dólares, cujo site americano declara, com orgulho, que a empresa "custa 75 vezes mais do que o castelo francês de 35 dormitórios do casal Brangelina".

Créditos: Liam Young/Unknown Fields Division

O centro de visitação do Parque Industrial LCD — uma das poucas locações que pudemos visitar — consiste de um museu branco, no estilo dos filmes de Kubrick, iluminado por uma luz neon azul, dedicado à história dos televisores. "Em 2004, a TCL comprou a Thompson", a porta-voz chinesa da TCL, que atende apenas por Katherine, explicou de peito estufado, enquanto nos guiava entre as vitrines de TVs antigas, "e a Thompson era dona da primeira companhia televisiva dos Estados Unidos, a RCA. Ou seja, a TCL agora é dona da história da televisão".

Conseguimos espiar o chão de fábrica enquanto passávamos pelos painéis de vidro e observávamos as linhas de produção lá embaixo. É estritamente proibido tirar fotos. "Se pegarem você fotografando, capaz que seja punido", disse Katherine. É difícil entender o que está acontecendo de fato, mas a linha de produção parece semi-automatizada: há cerca de uma dúzia de trabalhadores vestindo camisetas com QR codes nas costas e interagindo com várias máquinas.

Esteiras rolantes verticais, futurísticas, suspendem aparelhos televisores de um lugar oculto sob o piso. É um lugar limpo, bem iluminado. Os trabalhadores recebem pelo menos dois meses de treinamento antes de começarem, dependendo de onde são posicionados. Trabalham pelo menos oito horas por dia, mas podem realizar um segundo expediente, se quiserem — Katherine garante que é opcional —, seis dias por semana. Em contrapartida, recebem um salário, em média, de 3 mil yuans por mês, isto é, de aproximadamente 485 dólares.

"Quando os trabalhadores da linha de produção dão duro", conta Katherine, "eles podem ser promovidos para trabalhar em cargos mais altos da empresa".

"Foi assim que você começou aqui?", perguntou Davies. "Na linha de produção?"

Katherine ajeitou a postura altiva, equilibrada sobre um salto-agulha branco de couro que combinava com a jaqueta branca que ela vestia sobre o vestido rosa de lycra. Ela se voltou para a xará com um semblante que de início aparentou surpresa e nojinho e logo abriu um sorriso torto.

"Não", riu. "Claro que não."

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Os salários subiram recentemente, segundo nos contaram, para encorajar os trabalhadores a permanecer em Shenzhen. É difícil conseguir figuras confiáveis na China, mas segundo um relatório de 2014, do Instituto de Desenvolvimento Ultramarino, um grupo britânico de pesquisa, a média salarial de trabalhadores rurais mais do que dobrou entre 1997 e 2007, aumentando de 3,02 a 7 dólares por dia — números que ainda espantam de tão baixos que são em oposição aos Estados Unidos e Europa. Ainda assim, é um lembrete importante de que áreas rurais são tão vitais quanto cidades e que a explosão industrial da China é um exercício complexo de equilíbrio entre ambos; as proporções astronômicas de crescimento são abastecidas por comida assim como por investimentos estrangeiros e mão-de-obra barata.

Deparamo-nos com mais evidências disso quando fomos convidados pra almoçar em uma das três cantinas da fábrica: uma praça de alimentação gigantesca de três andares. Cada cantina serve 3 mil funcionários por dia. Observadas por câmeras de segurança, hordas de funcionários adolescentes com uniformes de mangas curtas — divididas por cor, dependendo da linha em que trabalham — sentam em mesas típicas de lanchonetes de fast food, comem carê e arroz, e bebem sucos de cores berrantes. Todo mundo tem mais de 16 anos; muitos aparentam ter 20 e poucos, mas é difícil não imaginar o refeitório escolar enquanto eles conversam, riem e fofocam. Mas não é uma escola — a maioria da garotada passou por uma formação pífia antes de chegar aqui; é o motor por trás da explosão econômica da China, a força de trabalho que mantém o chão da fábrica do mundo em funcionamento.

E cada vez mais o chão dessa fábrica se expande para além das fronteiras da China. Ao passo que o governo batalha para preservar o equilíbrio entre a cidade e o interior, também precisa balancear aspirações e lucros. A promessa de uma qualidade de vida melhor é o que atrai trabalhadores para Shenzhen, mas o preço disso é o aumento do custo de mão-de-obra, outrora baixo, que conferiu à cidade uma capacidade competitiva incisiva.

Muitas empresas como a TCL agora estão terceirizando a produção em outras nações. Quando deixamos o centro de visitação, Katharine nos mostrou um banco de telas de TV que transmitiam imagens de outras linhas de produção ao redor da China, da Ásia e, para minha surpresa, de uma nova fábrica na Polônia. Como cidadão europeu, fiquei chocado ao descobrir que uma fábrica chinesa de televisores está terceirizando trabalho em um país da Zona Euro, mas a TCL não é a única. Por incrível que pareça, a Polônia tem 14 ZEEs, e muitas abrigam produções chinesas.

Relatórios apontam que trabalhadores não ganham mais do que 350 euros por mês, isto é, muito menos do que o salário médio europeu, de 1.916 euros. E não é só a Polônia. A Bielorrússia possui uma ZEE enorme, o parque industrial chinês-bielorrusso, e, recentemente, líderes industriais alemães deram a entender que a Grécia deveria abrir uma ZEE de portas abertas para a China para melhorar a crise financeira.

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Nem todas as fábricas de Shenzhen são como a Foxconn e nem todas são como a TCL. Para cada fábrica do tamanho da LCD Industrial, há dezenas de pequenas operações em Shenzhen, pequenas unidades encardidas de startups, encolhidinhas em armazéns surrados ou propriedades suburbanas. A Shenzhen Yuwei Information and Technology Development Co., Ltd. é uma delas, uma pequena fábrica com menos de 200 funcionários, especializada em dispositivos GPS para veículos motorizados.

Seus principais produtos são módulos do tamanho de rádios de carro, que se encaixam em painéis de ônibus. Combinando câmeras de segurança e sensores com os dados de GPS, as tecnologias podem ser usadas para reequipar veículos para a gloriosa nova era de cidades inteligentes. Sei de tudo isso porque assisti aos longos vídeos promocionais e explicativos da empresa, repletos de explosões previsíveis e enfadonhas, com paisagens urbanas em CGI e efeitos de flare e gráficos fora de contexto anunciando crescimentos descomunais.

Não é de surpreender que o chão de fábrica não reflita esses futuros pristinos, gerados por computadores. A linha de produção de Yuwei é extremamente quente, apesar dos esforços dos aparelhos de ar condicionado em escala industrial, que preenchem o salão com um ar frio, cheirando a mofo. Também é escura em comparação à TCL.

Diversos jovens trabalhadores — a maioria com aparência adolescente — se sentam alinhados ao lado de esteiras rolantes vagarosas. Todos vestem camisas azuis iguais e possuem semblantes pálidos, destacados pela faixa de luz fluorescente suspensa sobre eles. A função deles consiste em testar componentes e produtos. Retiram em silêncio os eletrônicos das esteiras e plugam as peças em equipamentos sobre suas mesas para verificar se está tudo conectado. Unidades boas retornam à esteira para novos testes à frente enquanto as defeituosas são jogadas em caixotes plásticos, no chão. O trabalho parece monótono e a atmosfera, opressiva. O ar estava denso por conta do cheiro de suor e solda. Aqui os trabalhadores também trabalham um ou dois expedientes de oito horas por dia, mas o salário é ainda mais baixo; a maioria ganha 2 mil yuans (323 dólares) por mês.

Yuwei é uma dessas fábricas — e Shenzhen está cheia delas — que se especializa em componentes em vez de produtos finalizados para consumo. Ano passado, Joi Ito, do laboratório de mídia do MIT, visitou Shenzhen e enviou de volta um relatório quentíssimo sobre o que ele viu lá, e sobre como a cidade estava possibilitando a cultura americana de startups e idealizadores.

Depois de visitar Yuwei, imagino que tenham estendido mais tapetes vermelhos para Ito do que pára nós — o que testemunhamos não foi tão alegre. Existe uma crença na comunidade internacional de idealizadoes de que a abordagem feito-em-casa e faça-você-mesmo de eletrônicos oferece uma alternativa ética a grandes fabricantes, como Apple ou Samsung, mas a verdade inconveniente é que o verdadeiro custo dos componentes baratos, sobre os quais esses idealizadores se apoiam, são condições de trabalho notavelmente piores — sem contar o salário mais baixo — do que o ambiente das fábricas de grandes marcas.

Crédito: Kate Davies/ Unknown Fields Division

Às cinco da tarde, toca um sino e a esteira rolante pára. Pausa para o jantar. Os trabalhadores formam filas únicas organizadas, à espera da liberação dos gerentes para poderem ir embora. Quando saem, passam por detectores de metal e param à porta para ter o rosto escaneado por um sistema de reconhecimento facial. Só quando o scanner emite um bipe é que são liberados.

Seguimos os trabalhadores de saída, caminhando entre os fundos de armazéns gigantescos, cobertos de canos industriais e saídas de ventilação. A cantina não chega aos pés das instalações multiníveis do TCL. É uma bodega cheia de mesas e bancos de madeira com tinta descascando das paredes.

A apenas dois minutos de caminhada do chão da fábrica mora a maioria dos trabalhadores de Yuwei, em conjuntos habitacionais de quatro andares que lembram os projetos municipais brutos dos Estados Unidos e da Europa. Lá dentro, os dormitórios são inexpressivos e não possuem nada além de beliches básicos de metal. Mesmo Davies, que já visitou diversas fábricas em Shenzhen, ficou surpresa com as condições.

"Depois de tudo que produzem para enviarem às nossas casas", disse ela, "sem as coisas de que tanto reclamamos por não termos onde guardar, a severidade destes alojamentos é um balde de água fria... não têm nada além de um pôster, um par de sapatos, uma garrafa de água, uma cadeira de plástico e um beliche sem colchão."

Quando deixamos os alojamentos, os trabalhadores haviam terminado a refeição e estavam alinhados ao lado de um duto longo e baixo para lavar as cumbucas com água de torneiras de bronze esverdeado; grãos de arroz fluíam pelos canos. Ao observar os jovens trabalhadores tão disciplinados, pela idade deles e uniformes, é impossível não se lembrar da escola.

Crédito: Kate Davies/Unknown Fields Division

Talvez por isso seja chocante: não estamos acostumados a observar as fábricas no Ocidente. A visão desse tipo de produção, de exploração, que era comum a qualquer grande cidade a menos de duas gerações atrás, parece horrível para nós, uma coisa de outro mundo. É impossível digerir que os jovens trabalhadores daqui não têm senso de controle, determinação e uma inocência despreocupada que muitos semelhantes ocidentais não valorizam.

E talvez essa seja uma maneira de descrever Shenzhen: a perda de inocência da China. Este berço de uma revolução industrial acelerada também deu luz a uma nova classe urbana que — conforme fica aparente quando você dá uma volta nos shoppings e mercados noturnos de eletrônicos — busca as mesmas bugigangas tecnológicas que exporta para o restante do mundo. É uma perda de inocência que demanda uma ascensão em padrões de vida e desafia os padrões da mão-de-obra barata da cidade.

"Presumo que as fábricas seguirão rumo, ao passo que os preços dos imóveis subirão na cidade e os milhões de trabalhadores migrantes se mudarão para o interior, para novas fábricas. E Shenzhen virará um território ligeiramente diferente, um rumo que a cidade já começou a tomar", diz Davies.

Para ela, o futuro da cidade está mais na flexibilidade oferecida pelas pequenas empresas, como a Yuwei, do que nas indústrias TCL e Foxconn da vida, isto é, o futuro está nas empresas que fortalecem a nova cultutra econômica de startups, em que, a cada dia útil, registram-se 100 novas companhias.

Parece que a demanda global por eletrônicos para consumo não vai desacelerar tão cedo — especialmente com os investimentos chineses encorajando novos mercados na África e no sul da Ásia —, mas o desafio de Shenzhen está mudando. Não se trata mais tanto de produção barata, e sim de inovação tecnológica, de esforços para se tornar uma megacidade global, e não uma extensão de espeluncas de trabalho sujo; trata-se de melhorar os padrões de vida da população e, ao mesmo tempo, reter a flexibilidade.

O futuro de Shenzhen "está no empreendedorismo", diz Davies. "A cidade viveu um crescimento parasitório por conta da produção local, mas está se tornando algo mais. É um faroeste de inovações tecnológicas e resume bem o poder do coletivo, dos pequenos ágeis."

Tradução: Stephanie Fernandes