Crédito: Nest

​A Internet das Coisas Não Está Preparada para Lidar com Bebês

O apagão das câmeras domésticas da Nest mostrou ao mundo que precisamos nos preparar melhor para tarefas urgentes à distância – como cuidar de crianças pequenas.

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15 setembro 2015, 7:56pm

Crédito: Nest

No última semana, a empresa de internet das coisas Nest, pertencente ao Google desde janeiro do ano passado, sofreu uma queda de rede. Seus termostatos, detectores de fumaça e câmeras de vigilância domésticas pararam de funcionar por pelo menos quatro horas.

Tal interrupção no serviço é inconveniente se o produto Nest de sua preferência for um termostato, um pouco preocupante se tratar de um detector de fumaça e muito grave caso seja uma babá eletrônica.

Nest Cam, a versão repaginada da Dropcam, uma empresa comprada pela Nest em junho de 2014, é uma câmera conectada à internet. A Nest a vende como uma solução para segurança doméstica. Serve, diz a companhia, como dispositivo para vigilância da garagem, da cozinha ou como "babá eletrônica ou para vigiar seu bichinho de estimação".

A possibilidade de usar a Nest Cam para verificar como estão seus filhos por meio do celular tornou a babá eletrônica bastante popular nos Estados Unidos. Não é difícil concluir que uma queda na rede às 21h de segunda-feira – quando grande parte das crianças está dormindo – causou enorme preocupação.

Às 21h27 da segunda-feira, o Twitter de suporte técnico oficial da Nest reconheceu o problema, mas a queda, disseram os pais, havia começado pelo menos 20 minutos antes. O mesmo perfil tinha um conselho para seus usuários: "Recomendamos tentar novamente mais tarde ou amanhã, mais tardar". Os pais se sentiram traídos e raivosos.

Os termostatos e demais produtos da Nest funcionam ao se conectar ao wi-fi de sua casa e ao sincronizar com o serviço na nuvem da empresa. São controlados nos aparelhos em si e, no caso dos termostatos, também via aplicativo móvel. Tenho alguns destes em minha casa há quase um ano. Na maior parte do tempo, funcionam como o anunciado. Permitem-me alterar a temperatura de diversas áreas com meu iPhone. Às vezes, porém, rolam problemas de conexão: o aplicativo não sincroniza com o aparelho e não consigo mudar a temperatura.

No pior dos casos, não passa de uma chateação. Os aparelhos têm uma espécie de backup que permite controlar a temperatura de casa mesmo que o aplicativo no seu celular não esteja funcionando.

As Nest Cams, no entanto, só funcionam quando o serviço na nuvem da empresa funciona. Ou seja: os pais não tinham o que fazer além de esperar.

Uma interrupção na babá eletrônica, por menor que seja, sem backup – especialmente se você estiver longe de casa e seu filho estiver com uma baby-sitter – pode ser bastante preocupante.

Babás eletrônicas comuns – como as fabricadas pela Motorola – funcionam ao criar sua própria rede sem fio. Elas tem uma unidade delicada que você liga, carrega e leva com você pela casa enquanto o bebê dorme.

Seu funcionamento não é afetado por um erro na Motorola ou queda na rede da sua casa: ao usar uma dessas por quase dois anos, perdi o sinal pouquíssimas vezes e, mesmo assim, por um minuto ou menos, porque, na maioria das vezes, saí do alcance do aparelho. É algo confiável, mas com desvantagens: não posso ver como está meu filho no celular. Quando o deixo sob os cuidados de outra pessoa, confio que esta me avisará quando o bebê acordar, já que está ali em casa com a babá eletrônica.

Há alguns meses tentamos usar uma Dropcam no lugar da velha babá Motorola. Queremos o futuro, afinal. Queremos estar conectados. Dentro de alguns segundos, ela perdeu o sinal algumas vezes: dependia de nossa conexão com a operadora (Verizon) para funcionar, além de depender da nuvem da Nest. Desistimos e voltamos para a Motorola.

Na noite de ontem, não importasse o quão bombante estivesse a internet, a queda na nuvem da Nest tornaria seu aparelho inútil.

A queda na Nest não é sinal de um apocalipse vindouro, nem faz necessário qualquer alarmismo exacerbado. Todos os bebês estavam bem, tenho certeza. Mas isso faz com que a questão da segurança doméstica pareça mais urgente, ainda mais quando pequenos humanos dorminhocos estão envolvidos.

O futuro – especialmente quando falamos de aparelhos para bebês – precisa chegar de forma consciente e vagarosa. Pequenos acolchoados e botinhas-monitoras dos movimentos e batimentos do seu bebê servem para alertar uma possível situação de SMSI (Síndrome da Morte Súbita Infantil, principal causa de morte em crianças de um mês a um ano de idade). Mas são inúteis se não funcionarem corretamente.

Quando uma babá eletrônica deixa de funcionar, você a joga no lixo e compra outra, mais US$200 gastos por uma boa causa. Mas quando toda a rede cai, você fica num mato sem cachorro. Um sistema que deveria integrar sua vida à "internet das coisas " – para colocar você sem qualquer esforço num futuro em que você pode sair de casa e saber em instantes se seu filho está chorando ou se ocorreu um incêndio – joga você de volta aos anos 50, encostado na porta do quarto da criança à espera de qualquer som que indique vida ou movimento. Não tem backup, ainda.

Então o que será preciso para que possamos confiar nossos bebês à "internet das coisas"? Bem, um backup que funcione por 10 a 12 horas sem rede, para começar. Uma explicação do que aconteceu na semana passada, também. Talvez seja pedir demais, mas o Google tem como saber, não? Afinal, não se pode anunciar seu produto como babá eletrônica e levar o caso numa boa. Ou pode?

Pode?

Tradução: Thiago "Índio" Silva