Imagem: Fabian Figueredo/flickr

Por que o valor do bitcoin no Brasil está tão alto?

A entrada do Japão no jogo e alta procura no país levaram à alta histórica do valor da criptomoeda.

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05 junho 2017, 7:42pm

Imagem: Fabian Figueredo/flickr

O empresário João Canhada, de 26 anos, lidou com bitcoin pela primeira vez em 2011, quando o preço da unidade da moeda mal chegava a US$ 20. Na época, poucos falavam de dinheiro virtual. "Arrumar informações sobre bitcoins era muito difícil. Até 2013 era muito negativa a cobertura da mídia", me disse, numa tarde recente. Dois anos mais tarde, quando estava endividado e buscava novas formas de ganhar dinheiro, começou a investir mais na criptomoeda. O valor unitário já havia saltado para US$ 100. Passou, então, a fazer transações diretamente com outras pessoas. Com lucros expressivos, Canhada deu um passo adiante e fundou a Foxbit, uma espécie de bolsa de valores de bitcoins.

A história de Canhada é parecida com a de outros investidores de bitcoin com quem conversei. Todos conheceram a moeda virtual poucos anos após sua criação, adquiriram a valores baixos e, quase de surpresa, lucraram bastante dinheiro. Em maio deste ano, chegaram a ver a unidade do bitcoin custar US$ 2740. É um valor tão alto que só pode ser mensurado por meio da analogia das pizzas bitcoins. Caso você não conheça, explico: sete anos atrás, na primeira transação da criptomoeda, foram usados 10 mil bitcoins para pagar duas pizzas avaliadas em US$ 40. Se fôssemos transportar esse valor para hoje, aquelas pizzinhas teriam custado US$ 20 milhões. Sim: vin-te-mi-lhões-de-dó-la-res.

Se você não é um investidor experiente acostumado com as altas e baixas de ativos financeiros ou está não ligado no mercado de moedas digitais, o que aconteceu nos últimos meses com o bitcoin pode parecer uma completa loucura. O seu valor praticamente triplicou. Mas por quê?

Para Rocelo Lopes, CEO da casa de câmbio de moedas digitais CoinBR, a alta desenfreada do bitcoin foi impulsionada por uma série fatores que tiveram início ao final de 2016. A incerteza em relação à estabilidade do dólar no momento da eleição de Donald Trump à posição de presidente dos Estados Unidos foi o impulso inicial. Para ele, este movimento fez com que mais pessoas buscassem outras formas de investimento. Muitos, por tabela, acabaram sabendo do BTC.

Evolução do preço do bitcoin desde 2013. Imagem: captura de tela/CoinMarketCap

No início deste ano, o custo da criptomoeda no mercado internacional era de US$ 1000, uma valorização considerável em comparação aos US$ 430 que a moeda valia ao final do ano de 2015,e mais expressivo ainda se comparado com os US$ 300 que a moeda custava no final de 2014.

A alta do valor seguia de maneira constante quando, no final do mês de março, foi divulgada a notícia de que o Japão, a partir de primeiro de abril, começaria a aceitar a criptomoeda como forma oficial de pagamento em transações realizadas no país. O mercado de bitcoins japonês se tornou em poucos meses um dos maiores do mundo. Por tabela, a notícia fez com que o valor da moeda disparasse de uma forma que só encontra precedentes na alta de 2013, quando saiu de um patamar de US$ 100 para bater os US$ 1100.

Lopes destaca que, para compreender essa e outras valorizações que venham a acontecer no futuro, é necessário saber que o bitcoin é, na verdade, um recurso finito. Diferentemente de ouro e outros recursos minerais, em que existe a possibilidade de encontrar jazidas na natureza, com o bitcoin a geração de moedas terá fim no ano de 2140. "A mineração do BTC vai deixar de ser lucrativa por volta de 2032, quando a quantidade de bitcoins gerados diariamente será bem pequena — em torno de 112, em oposição aos 1800 hoje que hoje são minerados diariamente no mundo."

Essa diferença se deve à forma como a criptomoeda foi concebida. A cada quatro anos a quantidade de BTC que os mineradores conseguem por bloco de transações cai pela metade. Em 2009, ano de criação da moeda, esta quantidade era de 50 bitcoins por bloco. Hoje este valor é de 12,5 bitcoins. O último "halving", como é conhecido este evento, aconteceu em julho de 2016 e o próximo está previsto para metade de 2020, quando serão produzidos 900 BTC ao dia. "Isso vai fazer o valor da moeda subir com certeza, o que se espera do mercado é 10 mil dólares o preço do bitcoin", estima Lopes.

Ele não é o único a ter grandes expectativas para o futuro do bitcoin. Recentemente o CEO da Xapo — empresa que oferece possibilidade de converter bitcoin diretamente para a moeda local e assim realizar compras com a criptomoeda em qualquer estabelecimento — afirmou acreditar em uma grande possibilidade do valor de um único bitcoin ultrapassar um milhão de dólares. "Não tenho dúvidas disso. Talvez eu não esteja aqui para ver, mas não tenho dúvidas que a moeda vai chegar a este valor", completou Lopes, otimista.

E no Brasil...

Enquanto rolava a alta vertiginosa no mercado internacional, no Brasil o bitcoin foi negociado a valores ainda mais altos. Chegou a ser vendido a R$ 15 mil e comprado a R$ 10 mil na CoinBr. O valor negociado na Foxbit, que opera como uma bolsa de valores, chegou a R$ 11 mil. Alguns preços chegam a ser 40% mais altos do que no exterior.

Para Thiago César, ex-pesquisador do Institute of Economic Affairs (IEA) e CEO da Bit.one, empresa que trabalha com a instalação de sistemas baseados em BTC para o varejo, a explicação tem muitos fatores. Entre eles, o principal é a baixa procura do Real para transações internacionais, num cenário em que Dólar, Euro, Libras esterlinas e Ienes são muito mais desejados. "A demanda por trocar bitcoin por Real é bem menor do que por trocá-lo por outras moedas. Você cai num caso clássico da moeda mais forte sendo priorizada em relação a moeda mais fraca."

Principais mercados de Bitcoin no mundo. Imagem: captura de tela/BraveNewCoin

César também aponta uma tendência brasileira a esquemas de pirâmide, o que explicaria, entre outras coisas, a razão país ser um mercado disfuncional. "Antes faziam com suco, com Voip, com produtos voltados para o emagrecimento e a bola da vez é o bitcoin. Boa parte do ágio é causado pelo comportamento irracional das pessoas comprando bitcoins só para entrar no esquema", observou. Vale lembrar que, apesar dos altos valores da moeda e da grande busca, o mercado brasileiro ocupa apenas o 12° lugar no volume de trocas, representando cerca de 0,4% do mercado global.

Ele aponta sites que oferecem serviço de cloudmining, mineração da moeda na nuvem, como a principal forma de golpe baseado em marketing multinível. "Existem empresas nacionais e internacionais operando nesse esquema, normalmente essas empresas internacionais quando chegam ao Brasil se expandem de maneira muito rápida."

Apesar da relação problemática em relação ao uso e da tecnologia, César é otimista. Acredita que a moeda é segura o bastante para proteger patrimônio. "O bitcoin também é muito visto como uma forma de proteção para países falidos, temos visto muitas pessoas comprar o bitcoin para proteger o patrimônio de confisco, e o brasileiro se relaciona com esta história", completou.