Drone feito pelo Mirante Lab para encontrar focos do Aedes aegypti. Crédito: Guilherme Santana/VICE

Como os drones estão ajudando na caça ao Aedes pelo Brasil

Diante dos altos índices de dengue e zika, São Paulo e outras cinco cidades colocaram aeronaves não-tripuladas para achar focos do mosquito mais temido do país.

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mar 14 2016, 5:22pm

Drone feito pelo Mirante Lab para encontrar focos do Aedes aegypti. Crédito: Guilherme Santana/VICE

Era uma quarta-feira com poucas nuvens à vista no céu do bairro da Penha, na Zona Leste da cidade de São Paulo. O voo do novo Agente Aéreo de Monitoramento da Dengue estava marcado para às 10 horas da manhã. Sua missão era uma só: sobrevoar um terreno fechado e de difícil acesso na Rua Olívio Guelfi, no Jardim Jaú, em busca de algum sinal do Aedes aegypti. Ali, disseram moradores da região, seria um potencial abrigo do mosquito.

Munido de um GPS, sensores de movimento e câmera de alta definição (1080p), o Agente é um drone construído para verificar locais ameaçados pelo transmissor de doenças como dengue, chikungunya e zika vírus. "Ele é um grande Lego", diz o piloto Carlos Cândido, fundador da Mirante Lab, o laboratório de inovação responsável pela construção da avião não-tripulado. "Tem a cara de um F550, um drone da DJI, porque o frame dele é baseado no frame desse drone." Além do frame, que serve como corpo, a máquina tem seis hélices, o que permite maior estabilidade no ar, um rádio transmissor e receptor de imagens — que são enviadas ao console em tempo real e depois descarregadas no computador.

Carlos Cândido prepara o drone para caçar focos de mosquito. Crédito: Guilherme Santana/VICE

Em dia de voo, Carlos e Guilherme Kominami, seu sócio no Mirante e programador do drone, se lambuzam de repelente. A seguir, checam uma lista de coisas antes de levantar voo, como um piloto de aeronave. O primeiro ponto é a bateria, que tem duração de apenas 10 minutos. Durante um voo, ela é trocada pelo menos três vezes. Em segundo lugar, eles verificam a quantidade de satélites que o drone está alcançando. São preciso pelo menos sete para que o drone registre o lugar de saída e não se perca durante o voo. Depois, eles checam a calibração da bússola, a velocidade do vento e as condições meteorológicas. Com chuva, o drone não voa. Nem com tempestade solar, que, segundo os criadores, pode gerar uma carga absurda de ondas eletromagnéticas e deixar os sensores e o GPS do equipamento sem condições para fazer um voo seguro. "Não é comum, mas não é tão raro também", diz o Carlos. Depois de tudo checado, a decolagem é autorizada.

No dia do voo que acompanhamos, a Secretaria informou que o terreno em questão já havia sido vistoriado por agentes de saúde na semana anterior. O drone estava lá para checar se o proprietário havia feito uma limpa na água parada. Desde o começo do ano, a prefeitura da cidade de São Paulo já recebeu 596 denúncias de locais com possíveis focos do mosquito da dengue. A Zona Leste é a área a mais crítica. Os casos confirmados da doença já são 1983 pela cidade.

Carlos e técnica da Secretaria de Saúde em busca de focos do Aedes. Crédito: Guilherme Santana/VICE

Durante o voo, sempre há um agente de saúde observando a tela do controle em tempo real e orientando o piloto. Depois, a análise é feita com mais cuidado. Após a verificação detalhada, há um planejamento de operações a serem feitas em terra firme e, em alguns casos, trechos das gravações podem ser disponibilizados para "esclarecer para os cidadãos onde pode haver riscos à saúde pública". Os vídeos feitos com o drone têm controle de privacidade muito rígido. A equipe do Mirante assinou um termo de confidencialidade das imagens, que são enviadas para a Secretaria de Saúde.

Carlos e Guilherme me contaram que registram muitas imagens de água parada sobre carros abandonados, caixas d'água abertas, poças e mato, muito mato que eles achavam ser indícios de perigo, mas que na verdade não são. "A gente não sabia que pode ter um terreno de mato alto limpo de mosquito. Se a gente tivesse fazendo isso sozinho, a gente acharia o contrário, está sendo um grande aprendizado", afirma Carlos.

Proximidades do terreno vistoriado no Jardim Jaú no dia que acompanhamos o voo do drone em março. Crédito: Guilherme Santana/VICE

O uso dos drones para esse fim é novidade na capital paulista, mas já ocorre em Limeira (SP), Santos (SP), Chapecó (SC), Santo Antônio da Platina (PR) e São José dos Campos (SP). Em São Paulo, a iniciativa se deu por meio de um contrato de prestação de serviço por três meses da Prefeitura de São Paulo. O Mirante Lab recebeu 20 mil reais de investimento e montou o drone em seu espaço físico, no centro de São Paulo, para caçar água parada em áreas críticas utilizando peças compradas na internet.

Antes de colocar o drone para voar, foi preciso de autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), que faz a fiscalização do equipamento, da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), por causa do uso da frequência de rádio, e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (DECEA), que determina o limite de altura que o drone pode chegar.

O debate em torno da regulamentação dos drones se arrasta há algum tempo, e a previsão da Secretaria de Aviação é de que a legislação contemple os drones para uso recreativo, comercial e o institucional – que é o caso do drone da dengue – até o início das Olimpíadas. Para o piloto Carlos Cândido, é preciso debater a legislação urgentemente. "Parece exagero, mas não é, porque um drone pode gerar grandes desastres se não tomar cuidado, não é um brinquedo, tem que ter regulamentação", diz.

Análise das imagens do drone em tempo real. Crédito: Guilherme Santana/VICE

O período para conseguir autorização dos drones da dengue foi encurtado de 60 dias para 20, segundo Ítala Cavalli, chefe da Divisão da Diretoria Gestão e Planejamento e Navegação Aérea Civil, e inclui regras como altura máxima que o drone pode atingir (120 metros) e locais em que ele pode ser colocado no espaço aéreo em segurança. Lugares com um grande número de pessoas são proibidos para voar.

Mesmo assim, um punhado de gente se forma em volta da equipe da Secretaria de Saúde e do Mirante toda vez que eles colocam um drone no céu. "Meu filho vai até pedir um desses a hora que ver isso", disse um motorista de uma carreta estacionada perto do terreno vistoriado no Jardim Jaú, com o celular nas mãos. As crianças também ficam maravilhadas. "Tio, posso mexer?", pediu um menino para o Carlos.

Com dois anos de experiência no voo de drones, o piloto crê que esse entusiasmo com a tecnologia ajuda no clima de colaboração. "É muito positivo isso, a gente chega em comitiva, é um pelotão que chama atenção, mas é muito receptivo, porque todo mundo está preocupado. As pessoas pedem pra gente checar as casas dos vizinhos que não deixam os agentes de saúde entrarem", conta Carlos.

Montagem do controle do drone usado nas vistorias. Crédito: Mirante Lab

Nesse molde atual do uso dos drones contra a dengue, o equipamento tem uma ação mais passiva, de só observar. Um dos projetos do Carlos e do Guilherme é criar um drone mais ativo, que possa tomar uma providência na hora da vistoria. No Lab, eles me mostraram um projeto de um "drone pixador". Eles acoplaram uma lata de tinta em um drone feito de canos de PVC. Pelo controle, as aeronaves não-tripuladas conseguem soltar tinta em spray. A ideia para o projeto da dengue é criar um drone parecido, mas que possa borrifar uma substância que combata as larvas assim que elas forem localizadas pela câmera.

Por enquanto, a Prefeitura ainda não está pensando nisso, mas o Carlos e o Guilherme já se adiantam em testes e pesquisas. Também de modo independente, eles criaram o "drone Aedes", um drone pequeno – esse sim com mais cara de brinquedo – para ser usado em campanhas de conscientização. Quase do tamanho de uma palma da mão, parece um mosquito de verdade quando colocado no ar. "É uma maneira de mostrar como a gente está querendo ajudar muito mais", diz Guilherme.

O "drone Aedes". Crédito: Mirante Lab

O fato é que, por ora, toda ajuda é pouca. Em São Paulo, foi confirmado apenas um caso autóctone (de origem do próprio município) de zika até agora: uma mulher grávida de 28 anos do bairro da Freguesia do Ó, Zona Norte da cidade, local que também já registrou 12 casos de dengue. A gestante apresentou sintomas no dia 30 de janeiro e a gravidez de 30 semanas foi classificada como de risco, já que o vírus está, segundo os médicos, causando o nascimento de uma geração de crianças com microcefalia e outros problemas neurológicos graves. Ela está sendo monitorada pela rede pública de saúde da cidade.

O registro de apenas um caso de zika confirmado em São Paulo soa bem estranho para alguns especialistas que estão movendo montanhas para descobrir um jeito de lidar com a epidemia que assola o país. Para o Dr. Thomaz Gollop, professor da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP), há uma subnotificação dos casos de zika na cidade. "A hipótese que eu e outros infectologistas fazem é que na verdade existem muito mais casos do que a gente está sabendo", afirma. A Prefeitura, no entanto, afirma que os números estão corretos.

[Atualização 15/03: Este artigo foi atualizado com novos dados sobre os casos de dengue confirmados na cidade de São Paulo]