A psicóloga Anna Lúcia Spear King, coordenadora do Delete. Crédito: Fábio Teixeira

O rehab para brasileiros viciados em pornô

Como são as casas que tratam de pessoas que chegam a trocar parceiros reais por prazeres virtuais.

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07 abril 2017, 3:36pm

A psicóloga Anna Lúcia Spear King, coordenadora do Delete. Crédito: Fábio Teixeira

"Se o dia vira noite e você continua assistindo à pornografia, você provavelmente tem um problema!". O desabafo não é de nenhum adolescente que mata aula para ficar em casa vendo filmes pornôs. O alerta é do ator e ex-jogador de futebol americano Terry Crews, de 48 anos, que postou em seu perfil no Facebook um vídeo em que admitia ter sido viciado em conteúdo adulto. 

Mais conhecido pelo papel de Julius Rock na série Todo Mundo Odeia o Chris, Terry conta que a compulsão começou aos 12 anos, quase arruinou seu casamento – ele e a cantora gospel Rebecca estão juntos desde 1990 e têm cinco filhos – e, para se livrar dela, chegou a passar por uma clínica de reabilitação. "A pornografia bagunçou minha vida", relatou o ator.

A história de Terry Crews é mais comum do que se imagina. Segundo dados da revista americana The Week, 12% dos sites da internet – algo em torno de 76,2 milhões – são de conteúdo pornográfico. Só o mais famoso deles, o americano Pornhub, registrou, ao longo de 2016, 23 bilhões de visitas. Na ponta do lápis, dá uma média de 64 milhões por dia.

O Brasil ocupa o 10º lugar no ranking dos países que mais acessam o Pornhub. (Há uma porção de outros em que os brasileiros estão nos primeiros lugares, porém, sem registro tão preciso quanto este.) O tempo médio de visita do brasileiro é de 8min8s enquanto a média mundial é de 9min36s. Entre os usuários nacionais, 65% são homens, 32% têm entre 18 e 24 anos e 54% acessam o site pelo smartphone. Curiosamente, o termo mais pesquisado por brasileiros no site em 2016 foi – acreditem! – Overwatch, um game de ação. 

"O que distingue o normal do patológico é quando o uso daquela tecnologia interfere na sua rotina e prejudica sua vida", diz a psicóloga Ana Luiza Mano, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática (NPPI) da PUC-SP. "Há casos de usuários que, por causa da dependência tecnológica, chegaram a ser reprovados no colégio ou demitidos do trabalho."

Paulo* não chegou a repetir de ano, mas escapou por pouco. Quando era estudante do Ensino Médio, cansou de acordar tarde e perder o horário da aula. "Na época, virava a noite assistindo a vídeos pornôs na internet. Quando dava conta, já eram duas, três da manhã. No dia seguinte, estava morto de cansaço e quase não prestava atenção nas aulas", recorda. 

Hoje Paulo tem 22 anos, mora em Belém, no Pará, e está no último ano do curso de Ciências Contábeis. Ele conta que sua compulsão começou no dia em que completou 11 anos, quando ganhou de presente de um tio um exemplar da revista Playboy. Não satisfeito, o sujeito emprestou ao sobrinho um DVD da Brasileirinhas, a maior produtora de pornôs do Brasil

"Na época, eu nem sabia direito o que era masturbação. Só vim a descobrir depois de assistir a filmes como American Pie e outras comédias do gênero. Perdi as contas das vezes em que me masturbei cinco, sete vezes em um único dia. O vazio que eu sentia depois era indescritível", diz Paulo, membro da Associação dos Viciados em Pornografia Anônimos. 

No Brasil, o GEAT (Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas) e o NPPI são apenas dois dos núcleos que oferecem tratamento para dependentes de tecnologia. Quem consome pornografia virtual em excesso também pode procurar ajuda no Instituto Delete, no Rio de Janeiro. A instituição propõe educação digital para o uso consciente das tecnologias e, nos casos de consumo exagerado, suporte clínico e desintoxicação digital. 

Sala de espera do Instituto Delete, no Rio de Janeiro. Crédito: Fábio Teixeira

"Na maioria das vezes, o uso abusivo está associado a algum tipo de transtorno, como pânico, ansiedade ou fobia social", explica a psicóloga Anna Lúcia Spear King, coordenadora do Delete. "Dificilmente eles procuram atendimento médico ou psicológico. Por vergonha, tendem a negar a dependência e recusar o tratamento. Em geral, a iniciativa parte de alguém próximo."

Diagnosticar dependência tecnológica não é difícil. Segundo os especialistas, o usuário compulsivo apresenta sintomas bem definidos, como uso intenso, geralmente associado à perda da noção de tempo; tolerância, compreendida como a necessidade de mais horas de conteúdo sexual novo; e abstinência, quando a dificuldade de acessar a web gera tensão e irritabilidade. 

Um dado que intriga os especialistas é o porquê, em alguns casos, usuários compulsivos perdem o interesse por parceiros reais e passam a ter satisfação sexual só com relações virtuais. O sexólogo Amaury Mendes Jr, da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana, explica que, em linhas gerais, uma relação sexual é constituída de três etapas: desejo, excitação e orgasmo. 

"Perdi as contas das vezes em que me masturbei cinco, sete vezes em um único dia. O vazio que eu sentia depois era indescritível."

"Na pornografia online, o usuário compulsivo não quer perder tempo com preliminares. Ele busca sempre mais, mais e mais. Então, elimina a fase do desejo e parte direto para a da excitação e do orgasmo. Neste contexto de prazer instantâneo, a parceira torna-se absolutamente dispensável", explica Amaury. E faz um alerta: "A pornografia virtual não dá prazer. Muito pelo contrário. Gera sofrimento."

Um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, monitorou os hábitos de 830 voluntários e dividiu os usuários de pornografia virtual em três categorias: recreativo, angustiado e compulsivo. Segundo a psicóloga Marie-Pier Vaillancourt-Morel, que coordenou o estudo, recreativo (75,5%) é aquele que vê uma média de 24 minutos de conteúdo erótico por semana. Esse grupo é formado, em geral, por mulheres e casais. 

Na outra extremidade, os compulsivos (11,8%). Em sua maioria, homens que passam cerca de 110 minutos por semana, navegando em sites pornôs. Entre um perfil e outro, os usuários são classificados como angustiados (12,7%). Embora só vejam 17 minutos de pornografia virtual por semana, são os que mais padecem de problemas físicos e psicológicos. Alguns chegam a relatar disfunção erétil e impotência sexual. 

Vício ou dependência?

Se diagnosticar dependência tecnológica é tarefa relativamente simples, o mesmo não se pode dizer do tratamento considerado ideal. Enquanto uns especialistas recomendam sessões de psicoterapia, outros prescrevem doses de medicamentos. "Muitos autores propõem uma abordagem integrativa, que combina métodos psicoterápicos e farmacológicos", esclarece Daniel Spritzer, do GEAT. "A exemplo de substâncias químicas e jogos eletrônicos, a pornografia online tem elementos potencialmente aditivos. Mas isso não significa que todo e qualquer usuário vai ficar dependente. Só alguns poucos apresentam problemas mais significativos."

Outro motivo de controvérsia é o termo correto a ser usado: vício ou dependência? Para a neurocientista Nicole Prause, da Universidade da Califórnia (UCLA), nos EUA, a pornografia online, ao contrário de substâncias químicas, como álcool e nicotina, não vicia. Logo, o termo que se aplica ao caso é dependência ou compulsão. Já a psiquiatra Valerie Voon, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, pensa diferente. Ela explica que o cérebro de usuários de pornografia online reage da mesma forma que o dos viciados em drogas. Logo...

"O primeiro passo é admitir que você tem um problema e que, sozinho, não vai conseguir resolvê-lo."

O tema, quem diria, ganhou contornos românticos no filme Como Não Perder Essa Mulher, escrito, dirigido e estrelado por Joseph Gordon-Levitt. Nele, o ator dá vida a Jon Martello, um solteirão convicto viciado em cibersexo. "Não sou viciado. É pornô, não é heroína. Conheci uns caras no colégio que fumavam crack o tempo todo. Isso é ser viciado. Não conseguiam parar. Eu consigo", gaba-se ele a certa altura do filme. 

Na opinião de Nelson*, membro do grupo Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA) há 23 anos, pornografia é, sim, uma droga – dessas que, a exemplo do álcool e da cocaína, exigem doses cada vez mais altas e intervalos cada vez menores para fazer efeito. "Não vejo diferença. Nos Alcoólicos Anônimos (AA), os membros evitam o primeiro gole. No DASA, evitamos o primeiro clique. Na última vez que tive recaída, há quase um mês, fiquei 19 horas ininterruptas conectado", confessa o comerciante paulista de 53 anos. 

Superar um vício pode ser difícil, mas não é impossível. "O primeiro passo é admitir que você tem um problema e que, sozinho, não vai conseguir resolvê-lo. Na maioria dos casos, é preciso pedir ajuda a um profissional", aconselha Pedro, adepto do movimento "porn-reboot", que prega a privação absoluta da pornografia virtual. "Você não cura um alcoólatra oferecendo a ele uma taça de vinho por dia", justifica.

* Os entrevistados pediram para omitir os nomes reais

Onde Procurar Ajuda

  • Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas (GEAT)

Site: http://dependenciadetecnologia.org/
E-mail: contato@dependenciatecnologia.org

  • Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI)

Site: http://www.pucsp.br/nppi/
E-mail: nppi@pucsp.br

  • Instituto Delete

Site: http://www.institutodelete.com/
E-mail: contato@institutodelete.com
Telefone: (21) 98772.5080.