Quantcast
A youtuber Sweet Carol é uma das vozes que embalam as madrugadas dos insones espectadores. Crédito: Reprodução

Os brasileiros que dependem de sussurros de youtubers para dormir

Débora Lopes

Débora Lopes

Como são as noites dos jovens que só conseguem pegar no sono depois de ouvir sons e vozes relaxantes do outro lado da tela.

A youtuber Sweet Carol é uma das vozes que embalam as madrugadas dos insones espectadores. Crédito: Reprodução

As unhas gigantes da garota alisam, arranham e adentram uma suculenta e gorda polpa de melancia. Esquisito ou não, mais de 600 mil pessoas a assistiram antes de pegar no sono. Em outra ocasião, uma brasileira olha para a câmera e sussurra: "Quer ajuda para tirar sua maquiagem?". Ela começa, então, a passar rodelas de algodão na tela e bater de leve com as unhas em embalagens de produtos antes de aplicá-los virtualmente em quem está atrás do computador ou do celular hipnotizado pelos barulhinhos e pelo jeito delicado da moça.

As técnicas dos youtubers para relaxar seus espectadores parecem bizarras, mas existe quem não vá para cama sem esses vídeos. Chamado de ASMR (Autonomous Sensory Meridian Response, ou, em português, "resposta sensorial autônoma do meridiano"), o método consiste em falar e fazer coisas que provoquem sensações boas e conduzam as pessoas à sonolência.

Molhar uma esponja na água, bater repetidamente com as unhas em caixas ou em tigelas de inox, passar roupa, embrulhar presentes, aplicar reike à distância, fingir ser um esteticista, um cabeleireiro, atendente de supermercado ou até mesmo comissário de bordo. Tudo isso é feito em formato de atenção pessoal. A ideia é que você, espectador, sinta que a técnica está sendo elaborada exclusivamente para seu deleite. Muitos youtubers começam o vídeo dizendo: "Olá. Tudo bem? Que bom que você veio".

Uma das primeiras pessoas a gravar vídeos assim no Brasil foi Carolina Rossi, do canal Sweet Carol, que hoje beira os 200 mil inscritos. Os primeiros vídeos eram improvisados e inspirados nos canais gringos, mas, com o tempo, a qualidade da imagem e das gravações melhorou. Carolina comprou um microfone binaural, que cria um efeito de som ambiente e funciona bem nos fones de ouvido. Seu vídeo de ASMR mais visto, o qual ela fez sob a luz negra e com o rosto pintado de tintas neon, tem 608 mil visualizações.

Na primeira vez em que viu um vídeo com o tal método, o estudante de publicidade carioca Junior Petit, 22, deu risada. Mas, diante da dificuldade em pegar no sono mesmo depois de 12 horas fora de casa, trabalhando e estudando diariamente, resolveu testar. Apagou as luzes, se aconchegou na cama, pegou o celular e deu o play. "Achei que não ia surtir nenhum efeito, mas fui me concentrando no vídeo e acordei no dia seguinte", relembra. Sua youtuber favorita é a russa Maria, que comanda o canal Gentle Whispering. O tom de voz aveludado e macio da moça já rendeu mais de 900 mil inscritos e, certamente, umas boas moedas.

"Quando assisto ASMR, meu sono é pesado e sem sonhos, bem profundo e tranquilo. Se não vejo, fico acordando a noite toda"

O vídeo mais famoso de Maria é de 2012 e tem mais de 17 milhões de visualizações. Nele, a youtuber faz técnicas de tapping (batendo as unhas em algum objeto), soft spoken (em tradução livre, é um lance tipo "voz suave"), além de pentear o próprio cabelo e fazer carinho na câmera como se estivesse fazendo um cafuné na cabeça de quem assiste. Pode parecer loucura, mas esse tipo de vídeo tem ajudado uma galera a dormir melhor. "Obrigada por me fazer dormir" e "Não consegui ver até o fim porque já estava dormindo" são comentários recorrentes que aparecem nas postagens. Junior, que desde a infância sofre com o sono desregulado, está há quatro meses nessa "dependência". "Assisto ASMR todo dia, sagradamente", conta.

Esses vídeos não despertam prazer, relaxamento ou sonolência em todas as pessoas. Há quem sinta angústia com alguns barulhos ou fique irritado com os sussurros e sons com a boca. Obviamente, alguns youtubers extrapolam nas bizarrices, como a garota que passa marmelada no microfone e depois lambe tudo, como se estivesse fazendo isso na orelha de quem assiste; o cara que usa luvas de monstro para falar com um abacaxi por quase uma hora; e a garota com dois quilômetros de unha que, depois da melancia citada no início da matéria, arranhou e descascou um sabonete. Aflitivo, no mínimo. Mas prazer é um negócio que não se discute.

Cientificamente, pouco se sabe sobre os efeitos do ASMR, divulgado há poucos anos – também não se sabe exatamente desde quando. De acordo com um artigo publicado em 2015 por alunos do Departamento de Psicologia da Universidade de Swansea, na Inglaterra, ASMR é "um fenômeno sensorial não estudado, no qual os indivíduos experimentam uma sensação estática de formigamento no couro cabeludo, na região posterior do pescoço e, por vezes, em áreas adicionais em resposta a estímulos específicos de áudio e visual".

Em uma pesquisa, eles perguntaram aos participantes o motivo pelo qual eles assistiam a esses vídeos. A maioria respondeu que era pra aliviar o mau humor, controlar a ansiedade, aliviar o estresse, melhorar o foco e ter estímulo sexual. Entre os gatilhos preferidos estavam sussurros, atenção pessoal, sons (como tocar em embalagens e tapping) e movimentos vagarosos ou repetitivos.

Na primeira vez que assistiu a um vídeo de ASMR, a blogueira e social media paulista Nathália Generoso, 25, mal conseguiu terminar o dia de trabalho de tão sonolenta que ficou. "No mesmo dia, chegando em casa, fui pesquisar outros vídeos e fiquei apaixonada. Foi minha primeira boa noite de sono depois de muito tempo", comenta.

Toda noite ela inicia a maratona noturna no Netflix e, uma hora depois, passa para os vídeos de ASMR no Youtube, principalmente o Whispers Red, da britânica Emma. "Assisto no celular, com fones de ouvido e iluminação da tela no mínimo", explica. Seu gatilhos favoritos são tapping e escovação de cabelo. E não foi só o adormecer que melhorou, mas também a qualidade do descanso. "Quando assisto ASMR, meu sono é pesado e sem sonhos; bem profundo e tranquilo. Quando não vejo, fico acordando a noite toda", conta.

Ao dar o play, Nathália costuma sentir formigamento nos ombros e na cabeça. Dorme nos primeiros dez minutos. O único problema é passar a noite na casa do namorado. "Quando vou pra lá, durmo muito mal, pois não assisto nada", lamenta.

Para Andrea Bacelar, neurologista especialista em medicina do sono e diretora da Associação Brasileira do Sono, esse tipo de vídeo pode ser um subterfúgio para quem tem muitos pensamentos ansiogênicos antes de dormir, como preocupações ou a agenda do dia seguinte. "Esses barulhos vão desviar esse pensamento, essa ruminação cerebral de preocupação e a tensão antecipatória pra essas coisas aleatórias dos vídeos", afirma.

O velho papo de que ver televisão antes de dormir fazia mal, sempre endossado por nossas mães e especialistas, parece longínquo da era em que vivemos. Para a neurologista, assistir qualquer bobagem na TV para adormecer é uma forma de abstrair do seu próprio pensamento. "E isso relaxa e leva ao sono. Então, hoje, não é mais contraindicada a televisão, contanto que você a programe para desligar automaticamente", endossa.

Cada pessoa tem sua maneira de dormir. Alguns precisam de escuridão total, outros gostam de deixar um abajur ligado. Alguns se incomodam com o mínimo barulho, outros poderiam dormir e babar durante um show do Metallica. Não existe uma regra do que é certo ou errado. "Tudo bem conseguir uma maneira não farmacológica que distraia, relaxe e que leve à sonolência e ao sono. Ótimo. A gente tem que buscar isso mesmo", pondera a neurologista.

Nathália, que recorre ao ASMR todos os dias, não vê o hábito como algo negativo. Certa vez, sua internet caiu. "Passei a noite em claro por não conseguir carregar o vídeo de ASMR que queria ver. Mas acho que esse tipo de vício é melhor do que dependência de remédios", conclui.