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Os robôs invadiram o jornalismo, mas não se preocupem: está tudo bem

Calma.

Há algumas semanas, a Associated Press anunciou uma grande expansão em sua cobertura esportiva. A agência de notícias passou a cobrir 142 times da Minor League Baseball, um conjunto de campeonatos de divisões regionais do beisebol americano. À primeira vista a decisão é difícil de explicar: cobrir a Minor League em tempo real exigiria a contratação de dezenas de repórteres em todo o país. Por que fazer um investimento tão grande para acompanhar partidas de pouca relevância, que despertariam o interesse apenas de algumas publicações regionais? A explicação está na última frase de cada uma das notas publicadas pela agência como parte da cobertura da Minor League: "Esta notícia foi gerada pelo Automated Insights com dados e colaboração da MLB Advanced Media e da Minor League Baseball." As notícias da Minor League Baseball são escritas automaticamente por uma inteligência artificial, sem interferência humana, com base em estatísticas fornecidas pela liga. Para incluir os resultados de 13 campeonatos regionais sua cobertura esportiva, num total de mais de 10 mil partidas de beisebol, a Associated Press não precisou contratar dezenas de repórteres: apenas pagou por um programa de computador.

A Automated Insights é uma empresa de inteligência artificial da Carolina do Norte pioneira no desenvolvimento de softwares para escrever notícias. Sua plataforma Wordsmith, adotada pela Associated Press, é capaz de gerar "bilhões" de textos por mês, segundo a companhia, usando uma engenhosa combinação de modelos pré-programados e dados obtidos por meio de fontes confiáveis. Basicamente, o administrador do Wordsmith pode criar uma estrutura narrativa básica e deixar em branco os espaços que seriam preenchidos pelos dados noticiosos – o resultado de uma partida, o jogador que marcou o maior número de pontos ou o time vencedor, por exemplo. Ao receber os dados, o programa os analisa e preenche os espaços em branco usando uma sintaxe que imita a escrita humana.

A qualidade dos relatos produzidos pelo Wordsmith agradou aos leitores e surpreendeu os profissionais. "Fizemos testes com grupos de leitores e eles ficaram bastante satisfeitos com o resultado. Os nossos editores chegaram a dizer que o trabalho do computador é tão bom quanto o que recebemos de jornalistas freelancers", diz Barry Bedlan, diretor de produtos esportivos da Associated Press.

Em alguns testes, os computadores se saem até melhor que jornalistas humanos. O pesquisador Andreas Graefe, da Universidade Ludwig-Maximilians, em Munique, publicou no início do ano um estudo em que comparava as reações de leitores a textos escritos por humanos e por computadores. As notícias geradas pelo computador foram consideradas superiores no quesito credibilidade e conhecimento do tema. O software só perdeu para os humanos no quesito legibilidade: por ser extremamente objetivos e cheios de dados, os textos gerados por computador podem ser um pouco tediosos para o público. Mesmo assim, a maioria dos leitores não foi capaz de distinguir entre textos gerados por computador e escritos por um repórter de carne e osso. Com o aprimoramento dos algoritmos usados por plataformas do tipo, a diferença deve diminuir ainda mais – start-ups e grandes empresas de tecnologia estão fazendo um esforço concentrado para desenvolver programas capazes de escrever de maneira mais "humana".


Comparação das credibilidades entre humanos (cinza) e computadores (preto). Crédito: Reprodução

Uma visita ao site da Automated Insights mostra que esse tipo de tecnologia está se tornando cada vez mais acessível. A plataforma Wordsmith, adotada pela Associated Press, pode ser assinada por planos a partir de US$ 250. É uma fração do salário de um jornalista novato. Além de barato, o software não comete erros de digitação, não confunde números, faz cálculos com perfeição e pode escrever até mil artigos por mês em sua versão mais simples – ou bilhões, na mais completa.

Se você conseguiu ler o parágrafo acima sem engolir em seco, você provavelmente não é um jornalista. Num momento de crise na imprensa, com demissões em massa e encerramento de publicações no mundo todo, a invasão de robôs ultraprodutivos seria mais uma péssima notícia para uma profissão que já foi considerada a pior do mundo. "Quando fizemos os primeiros testes com a plataforma, algumas pessoas na redação ficaram bastante preocupadas", afirma Bedlan. Felizmente, os especialistas no assunto dizem que ainda não há motivo para pânico. Apesar dos grandes avanços recentes nessa área, os programas geradores de notícias ainda têm muitas limitações. "Os programas se saem melhor em assuntos que exigem a produção de um grande número de notícias de maneira rápida e eficiente, sem muita ênfase na qualidade da narrativa – como relatórios financeiros e resumos de eventos esportivos", diz Graefe. "Eles têm uma utilidade bastante limitada em assuntos que exigem que o jornalista interprete, analise e opine sobre os fatos, em lugar de simplesmente recitá-los."

Outra tarefa em que os jornalistas de carne e osso são muito melhores que as máquinas é correr atrás das informações. Enquanto um repórter pode fazer entrevistas e consultar fontes para buscar os dados de que precisa, os computadores só funcionam quando são abastecidos por um banco de dados externo, gerado por uma fonte confiável. "Fizemos algumas experiências com outras ligas esportivas antes da Minor League Baseball, mas tivemos problemas porque os dados fornecidos pelos organizadores não eram bons o bastante, ou chegavam com atraso. Se uma organização esportiva só divulga as estatísticas oficiais cinco ou seis horas depois do fim de uma partida, por exemplo, a notícia que gerarmos já não vai ser relevante", diz Bedlan.

As limitações descritas por Bedlan e Graefe explicam por que os robôs jornalísticos são um grande sucesso em duas áreas: na cobertura de beisebol, um esporte em que os fãs e organizadores são conhecidos pela paixão por estatísticas, e em análises de balanço de empresas de capital aberto – que são obrigadas a divulgar periodicamente uma grande quantidade de dados para o público. Na Associated Press, por exemplo, a ideia de cobrir a Minor League Baseball surgiu após um experimento bem sucedido na cobertura de negócios. Em janeiro de 2015, a agência de notícias causou alvoroço ao publicar uma nota analisando o balanço trimestral da Apple poucos minutos depois da divulgação dos dados pela empresa, num dos grandes marcos na história do jornalismo automatizado.

Apresentação do Wordsmith. Crédito: Divulgação/ YouTube

Em vez de espantar os repórteres de economia, o sucesso dos computadores na análise de balanços trimestrais de empresas causou alívio nas redações. "Esse era o tipo de trabalho mecânico e repetitivo que os jornalistas da área detestavam fazer", diz Bedlan. "Eles adoraram a notícia de que usaríamos softwares para isso. Agora podem se dedicar a outras reportagens mais estimulantes." Assim como nos esportes, o uso da plataforma de inteligência artificial também permitiu que a agência expandisse sua cobertura econômica. Antes da parceria com a Automated Insights, a Associated Press publicava notícias sobre o desempenho de cerca de 300 empresas, com relatórios escritos por repórteres e editores. Em 2015, ano em que adotou o jornalismo automatizado, a agência passou a acompanhar os resultados de mais de 3 mil empresas usando uma fração da mão de obra usada anteriormente e liberando os jornalistas para apurar notícias que exigiam mais investigação.

"Não temos notícia de nenhum jornalista que tenha perdido o emprego por causa do Wordsmith", diz Dan Dillon, porta-voz da Automated Insights. "Automatizar algumas partes da cobertura noticiosa permite que os repórteres se dediquem a projetos de maior impacto. Isso traz benefícios para eles, para as empresas de mídia, que aumentam sua produtividade, e aos leitores, que passam a receber informações que antes não recebiam."

Além de desbravar relatórios extensos para fazer reportagens maçantes que ninguém na redação gostava de fazer, programas como o Wordsmith podem se tornar ferramentas valiosas para ajudar jornalistas em reportagens híbridas, nas quais humanos e computadores trabalham em conjunto. Uma grande leva de reportagens desse tipo já poderá ser vista na cobertura das eleições americanas.

"Automatizar algumas partes da cobertura noticiosa permite que os repórteres se dediquem a projetos de maior impacto"

Segundo Graefe, a tendência é que essa colaboração entre humanos e máquinas se torne mais comum nos próximos anos. "O que veremos nas redações será um casamento entre jornalistas de carne e osso e programas de computador, cada um concentrando-se no que sabe fazer melhor", diz. A cobertura esportiva da Associated Press poderá seguir esse caminho. "Temos estudado a possibilidade de usar a plataforma da Automated Insights como uma ferramenta para ajudar os repórteres em suas coberturas", diz Bedlan. "Ela é muito boa para fazer comparações entre estatísticas de diferentes times e trazer à tona detalhes interessantes sobre o desempenho histórico de equipes e jogadores, coisas que podem passar desapercebidas para um repórter. Nunca nos limitaríamos a publicar uma cobertura automática de uma partida importante, mas um jornalista que saiba trabalhar em conjunto com um programa do tipo pode usá-lo para complementar suas reportagens."

"Os únicos jornalistas que correm risco de ser substituídos pelas máquinas são aqueles que apenas fazem um trabalho mecânico e que ficam esperando que a informação chegue até eles – ou seja, os que têm um comportamento robótico. Meu conselho aos jornalistas é que eles desenvolvam habilidades que um algoritmo não tenha, como analisar fatos de maneira aprofundada, fazer boas entrevistas e produzir reportagens investigativas", diz Graefe.

Até agora, o consenso entre os especialistas é que a expansão do jornalismo automatizado terá consequências bastante positivas para as empresas jornalísticas, repórteres e leitores. A não ser que eu tenha entendido tudo errado. Se daqui a alguns anos os robôs invadirem todas as redações do planeta e provocarem demissões em massa ao redor do mundo, deixo aqui meu humilde pedido de desculpas. Ao contrário das máquinas, repórteres humanos sempre estão sujeitos a cometer erros.