Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Como e por que os mórmons estão catalogando todos os registros civis do Brasil

Com vocês, a grande árvore genealógica mórmon.

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18 agosto 2016, 3:21pm

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

As pessoas conhecem os mórmons como aqueles jovens que vagam o mundo, de camisas engomadas para dentro das calças pretas, batendo de porta em porta para converter os fiéis à palavra de Joseph Smith. Há, porém, uma face menos conhecida e mais impressionante da fé professada pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: a obsessão por catalogar todo e qualquer documento que comprove a passagem de uma alma pela Terra.

Em abril, a Igreja Mórmon fechou um acordo para limpar, digitalizar e catalogar quase 200 mil livros cartorários, com registros de nascimento, óbito e casamento que estavam parados à espera de um milagre no Arquivo Público de São Paulo. O milagre chegou pelas mãos do projeto Family Search, braço da igreja que coleta documentos de valor genealógico e mantém um site de mesmo nome para buscas por familiares. Não foi o primeiro acordo do tipo no Brasil. Não será o último.

"Antes de virem para cá, esses documentos ficavam num galpão na Mooca [bairro da Zona Leste de São Paulo], que era insalubre e precário. Estiveram por 30 anos sujeitos a todo tipo de intempéries, como luminosidade muito forte ou infiltrações. Alguns desses livros foram acometidos de avarias", disse o historiador Wilson Ricardo Mingorance, diretor do Centro de Arquivo Administrativo do órgão e um dos responsáveis pelo acordo.


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Em termos não-técnicos, significa que os livros estavam cheios de pó e fungos. O problema dos fungos foi eliminado antes da parceria: o material passou por um bombardeio de radiação de Cobalto-8 e depois foi para o depósito na sede do Arquivo em Santana, perto da estação de metrô Portuguesa-Tietê. Lá, a ONG mórmon e o órgão público fecharam acordo de cooperação que previa limpeza, digitalização e catalogação do material em até dois anos.

Mingorance disse que não há dinheiro envolvido e por isso não se trata de uma parceria público-privada. O projeto usa as dependências arquivo e só. Banca todos os custos — que são altos. Por curiosidade, o diretor pesquisou quanto uma empresa privada cobraria pelo serviço. Daria R$ 22 milhões.

Mas dinheiro não é problema. Mario Silva, gerente de relacionamentos da Family Search e responsável por buscar e cultivar parcerias parecidas pelo país, não revelou os custos da operação, mas disse que a sede da igreja em Salt Lake City, no meio-oeste americano, considera o Brasil uma prioridade. Pelos cálculos dos mórmons, existem 1,3 milhão de fiéis no país. Os dados do IBGE, contudo, são mais conservadores: 226 mil pessoas, segundo o Censo de 2010.


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De qualquer maneira, o investimento é alto: "O Brasil é o país com o maior número de equipamentos depois dos Estados Unidos. São 41 contra 48", disse Silva. Por equipamentos, eles quis dizer as unidades de trabalho que contam com máquina fotográfica, computador e lâmpadas, como se fosse um mini-estúdio no qual o modelo é uma página de livro. O custo de uma estação pode chegar a U$ 20 mil. Os operadores, que são terceirizados pela empresa de recursos humanos Randstad, trabalham como se estivessem em uma linha de produção e se divide entre higienização e digitalização. É uma rotina no estilo Tempos Modernos, mas de proporções bíblicas.

A equipe de limpeza tem nove pessoas. Um passa o aspirador de pó na capa, lombada, primeira e última página para tirar o grosso do pó. Em seguida, os livros vão para duplas de limpadores que ficam sentados em cadeiras altas em frente a mesas de sucção que passam até três tipos de pincel em cada — repito: cada — página. Com toucas, aventais descartáveis brancos e óculos de proteção, o grupo lembra aqueles comerciais antigos da Intel caso fossem refilmados pela página do Facebook O Brasil Que Deu Certo.

O tempo de limpeza, me disse Rafael Aquino da Silva, 21, é de mais ou menos 10 minutos por unidade. Às vezes mais: "Os livros variam muito. Tem uns que vêm zoados mesmo".


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Depois de limpos, os livros são recolhidos e entregues à equipe de digitalização, que fica numa sala separada ao lado. Cada um dos 23 funcionários fica em uma estação. O trabalho consiste em virar as páginas dos livros cartorários e fotografar cada uma disparando a máquina fotográfica com um clique na tecla de espaço — pressionada com a mão ou com os pés. É tão mecânico que algumas pessoas assistem a episódios de séries no celular enquanto operam o sistema. A sala cheira a pó. Som é de várias páginas viradas a cada segundo e dos obturadores sendo disparados para registrar o nosso passado burocrático.

Cada imagem têm entre nove e 20 megas. Daiane Alves, 20, a coordenadora do setor, disse que cada operador faz cinco mil fotos por dia. É um volume de dados de um terabyte por semana por computador. Às sexta-feiras, a empresa recolhe os HDs e os envia por Sedex para Salt Lake City onde cada imagem é conferida por uma equipe local. Lá os mórmons armazenam a informação em um cofre gigantesco escavado em uma montanha de granito a 20 quilômetros da cidade. O local foi projeto para resistir a uma guerra nuclear. Mais tarde, as imagens ficam disponíveis para consulta pelo site da Family Search e o arquivo público fica com uma cópia.

Com escalas diferentes, o mesmo procedimento já foi feito em 17 dos 27 Estados brasileiros. De cemitérios em Ponta Grossa, no Paraná, passando por em cartórios da Paraíba e pelo registro de escravos no Rio Grande do Sul, há vários projetos já executados, em andamento ou em negociação.


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Como os registros civis só se tornaram obrigatórios em 1920, os mórmons também rodam o Brasil catalogando arquivos de dioceses católicas. "Há algum tempo atrás havia muita gente que nascia, vivia e morria sem ter um documento nesses rincões do Brasil. Em muitos casos, o único registro da passagem desse indivíduo pela terra é o batismo católico", disse Silva, do Family Search. Um terço das cerca de 300 dioceses nacionais já foi registrada.

Segundo Silva, por vezes existe alguma resistência por parte de alguns bispos, mas não é a regra. A questão entra na seara religiosa e na motivação da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em operar mais de 300 câmeras em diferentes países.

Antes mesmo de eu perguntar, Silva explicou o que embasa a motivação: "Para nós, as famílias são eternas. Os relacionamentos não terminam com a morte. Todo mundo vai morrer, mas todos vão ressucitar e viver para sempre. E quem for merecedor viverá para sempre como família". O céu mórmon seria mais ou menos como um eterno encontro familiar de Natal. Na prática, a igreja investe para que os membros tenham acesso a informações que lhes permitam montar uma árvore genealógica e conhecer a própria história.


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Mais importante: a doutrina permite que os fiéis batizem antepassados que não são mórmons. Silva explica: "Meu tataravô era índio. Ele nasceu, viveu e morreu no meio do mato. Nem teve a chance de ouvir falar em Jesus Cristo. Morreu e não foi batizado. Seria justo que ele ficasse privado das bençãos do evangelho porque nunca teve a chance de aceitá-las? Para nós, não".

A treta com as outras religiões é pela possibilidade da conversão póstuma de qualquer pessoa. O responsável pela Family Search afirma que isso não é possível, já que os templos só permitem a cerimônia em linhas de descendência direta. Nos demais casos, é preciso de autorização de um parente. Ele gostaria, por exemplo, de converter o Ayrton Senna, mas não pode. "É preciso ter um laço de sangue".

Ainda assim, nos Estados Unidos há diversas denúncias de batismo involuntário. Entre os nomes mais famosos estão Anne Frank e Mahatma Gandhi. Não é uma prática comum, mas também não é algo que pode ser controlado. Por outro lado, embora alguns líderes religiosos considerem a prática um desrespeito, condenar o ato é um tipo de aceitação tácita de que a crença mórmon está certa.


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Mas há também um outro motivo, que é um tipo de soft power religioso. A igreja, por meio do site da Family Search, permite que qualquer pessoa tenha acesso à informações sobre seus antepassados. Não é um tipo evangelização ostensiva, como missionários batendo de porta em porta, mas é um mecanismo para ganhar corações.

E ao menos o meu foi conquistado. Testei o site com alguns amigos, mas não encontrei nada. Ao procurar pelos meus parentes, encontrei o cartão de imigração do meu bisavô quando chegou ao Brasil em 1939. Judeu-alemão, veio da Holanda depois de ter fugido dos nazistas na Alemanha. Foi, de alguma maneira, reencontrado pela obsessão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.