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Drogas

Como a ketamina salvou minha vida

A droga é tida por muitos como o tratamento mais promissor para a depressão – e uma esperança para pacientes suicidas que não respondem aos antidepressivos tradicionais.

Jacki Applebau

Crédito: Jacki Applebau

Eu vou morrer.

Há meses essas palavras se repetiam dentro de minha cabeça. Eu estava deprimida, anoréxica e viciada em drogas. Já havia tentado de tudo para aliviar minha dor, de terapia a tratamento com choques, mas nada parecia funcionar. Prometi a mim mesma que tentaria uma última coisa antes de pular de um prédio: infusões de ketamina.

Você deve ter notado, pelo título do artigo, que o método funcionou.

A pergunta natural é: como uma substância pode ter "salvado" a vida de uma dependente química de 20 anos de idade? Injetar uma droga recreativa não pioraria, em teoria, o problema?

Antes de tudo, juro que não estou sob o efeito de nenhuma substância psicotrópica enquanto escrevo esse relato.

Alguns meses antes de passar pelo tratamento, eu havia lido um artigo sobre o uso de infusões de ketamina no tratamento de depressão, cheio de palavras-chave como "cura" e "remédio milagroso". Eu estava louca por um milagre que curasse todas minhas patologias e de cara lembrei como havia amado cheirar ketamina com um grupo de garotos alemães numa linda praia no Camboja.

Em seguida comecei a procurar outras informações sobre o tratamento. Nos anos 70, a ketamina foi aprovada nos EUA como um anestésico de curto prazo utilizado em humanos e animais. Graças à natureza dissociativa (e portanto viciante) da substância, ela foi classificada como uma Substância Controlada Tipo III em 1999. Mas a ketamina tem sido utilizada extra-oficialmente como um remédio para depressão há quase uma década.

A ketamina funciona de forma diferente dos antidepressivos comuns, como os ISRSs (inibidores seletivos da recaptação da serotonina) e os ISRSNs (inibidores seletivos da recaptação da serotonina e da noradrenalina). Esses compostos bloqueiam a absorção de dois neurotransmissores, a serotonina e a noradrenalina, ajustando os níveis dessas substâncias e, assim, regulam o humor do paciente.

Em vez de tentar consertar um desequilíbrio químico, a ketamina muda a própria estrutura do cérebro. Os cientistas ainda estão estudando o efeito da droga, mas algumas pesquisas indicam que o uso dela aciona a liberação de outro neurotransmissor, o glutamato, que por sua vez estimula a regeneração de redes neurais danificadas pelo stress ou pela depressão.

A teoria é que, ao afetar o glutamato, o neurotransmissor mais abundante do cérebro, a ketamina vai direto na raiz do problema. Isso pode explicar por que ela funciona tão rápido — alguns pacientes apresentam resultados positivos em apenas algumas horas, diferentemente das semanas ou meses necessários para que um antidepressivo faça efeito (sem contar os diversos efeitos colaterais desses remédios).

Para muitos, a ketamina é o maior avanço no tratamento da depressão dos últimos anos, ou até mesmo o futuro da psiquiatria.

Um estudo do Instituto Nacional de Saúde Mental revelou que uma infusão intravenosa de ketamina seria capaz de provocar "efeitos antidepressivos rápidos e concretos". Para as almas infelizes que já tentaram todos os tratamentos possíveis, isso é uma ótima notícia. Alguns especialistas acreditam que a droga pode dar origem a uma série de novos antidepressivos baseados em glutamato. Muitos dizem que a ketamina é o maior avanço no tratamento da depressão dos últimos anos, ou até mesmo o futuro da psiquiatria.

Mas por que eu procurei um tratamento experimental reservado para casos extremos de depressão?

Desde que me entendo por gente, viver me traz algum tipo de desconforto — tanto que meus pais me colocaram na terapia quando eu entrei na primeira série. Eu nunca estive satisfeita, seja com o que eu sentia, com minha aparência, ou com quem eu era. Durante minha infância, me acostumei a ver remédios como uma solução milagrosa. Dor de cabeça? Tome dois Advils. Garganta inflamada? Lá vem os antibióticos. Em pouco tempo, tudo ficava bem. Numa certa manhã, decidi tomar o Adderall da minha irmã mais velha. Eu tinha 12 anos de idade. Eu não sabia muito bem o que aquela pílula "consertaria", mas sabia que estava diposta a tentar.

Foi amor à primeira vista. Eu não precisava comer, e passava várias noites em claro compondo músicas bizarras. Depois disso, experimentei várias outras drogas. Os próximos oito anos foram um borrão de intoxicação constante e autodepreciação. Eu não entendia porque nenhuma das substâncias químicas que eu ingeria, fossem elas receitadas ou não, era capaz de curar minha angústia.

Crédito: Cortesia da autora

Quando me formei no ensino médio, tirei um ano para "me encontrar". Nesse período viajei pelo Sudeste Asiático, pela Europa e pela América Central. Cuidei de elefantes na Tailândia, lecionei e morei com orfãos no Camboja e estudei yoga na Índia. Graças ao Xanax e ao álcool, me esqueci de grande parte dessas viagens, e graças ao meu transtorno alimentar e à minha coleção de anfetaminas, não aproveitei muito da deliciosa culinária local.

Com a ajuda da cocaína, do Vyvanse e do Adderall, cheguei a pesar pouco mais de 38 quilos (muito pouco para meus um metro e setenta). Embora eu não notasse na época, minha aparência não era das melhores. Que choque, não? Durante um pequeno período matriculada na faculdade, fiquei acordada por dias pintando as paredes do meu apartamento e escrevendo ensaios absurdos para aulas que eu me recusava a frequentar. Os opiáceos e calmantes eram as únicas coisas que aliviavam a insônia causada pelas anfetaminas. Eu estava tão fraca que não conseguia andar até o banheiro sem precisar sentar (ou sem cair, nos dias ruins), e eu estava tão deprimida e ansiosa que raramente saía de casa.

A morte parecia uma boa saída, e há anos eu corria atrás dela. Morrer era um sonho, a solução ideal. O mundo era um lugar horrível, e eu me machucava das mais diversas formas. Eu implorava para que me deixassem morrer, me deixassem finalmente em paz.

Meus pais tentavam me convencer a ir para a reabilitação, mas eu não queria. Eu acreditava estar além de qualquer esperança, longe de qualquer possibilidade de ajuda. "Eu sou assim, e vou ser assim para sempre! Me deixa em paz, o problema é meu, me deixa morrer!" eram algumas das coisas simpáticas que eu gritava no telefone, embora eles digam que na maior parte do tempo eu estava tão delibitada que não fazia muito sentido.

Antidepressivos estavam fora de questão. Eu já havia tentado alguns durante a adolescência, sem nenhuma melhoria visível. A terapia de choque me parecia a última opção. Convenci meus pais de que iria para a reabilitação caso o tratamento com choques ajudasse a mitigar um pouco da minha dor. Os médicos me eletrocuturam, e ao invés de me sentir melhor, eu perdi todas as memórias dos dois meses anteriores. O que aconteceu em junho e julho de 2015?

Foi nessa época que tirei o artigo sobre ketamina das profundezas assustadoras do meu cérebro. Após encontrar um médico inscrito na Associação em Defesa do Uso da Ketamina, marquei as duas primeiras consultas de um pacote de seis infusões, cada uma delas custando US$500. Me agarrei ao minúsculo feixe de esperança que ainda existia em mim, esperando que talvez aquela fosse a cura. Eu não sabia muito bem o que esperar, mas estava certa de que aquela era minha última opção.

Na minha primeira consulta, o médico descreveu como a katemina funcionava e porque ela poderia ajudar no tratamento da minha depressão. Ele falou sobre a diferença entre o glutamato e a serotonina, sobre neurônios e neurotransmissores. Mas tudo o que ouvi foi "esperança". O médico disse que os resultados poderiam aparecer em até 24 horas após a primeira ou segunda sessão. Ele disse que o tratamento não me faria desistir da morte, mas sim que ele me daria vontade de viver. Ele disse que a taxa de sucesso era de mais de 95%, mas que eu não deveria esperar uma cura certa, já que a eficácia não era garantida.

As infusões não são tão loucas quanto a maioria imagina. Eu não cheguei a "viajar" ou a sentir o gosto das cores. Também não cheguei nem perto de entrar num k-hole (efeito dissociativo relacionado ao uso da ketamina). Comparado à dose utilizada para ficar doidão, a infusão é bem leve (0.5mg/kg em comparação com os 100 mg utilizados recreativamente), além de ser inserida na corrente sanguínea bem devagar, ao longo de 30 ou 40 minutos. Durante a sessão, fiquei escutando Flying Lotus no escuro, me sentindo um pouco fora de mim, e depois andei até o metrô.

Crédito: Wikimedia

Menos de 24 horas após minha segunda infusão, eu saí com alguns amigos. O QUÊ? Muito impressionante, eu sei. Eu nem lembrava que tinha amigos — ou talvez eu tivesse afastado a maioria deles. Meus colegas de casa diziam coisas como, "uau, você saiu do quarto. O que aconteceu?"

Passei de dependente química acamada para uma dependente química funcional (embora eu já estivesse começando a diminuir meu consumo de drogas). Eu saía de casa muito mais, e meu humor melhorou drasticamente; a vontade de me entorpecer era cada vez menor. Nas seis semanas após o tratamento, essas mudanças continuaram. Apesar de estar sentindo todos os efeitos positivos da ketamina, eu tinha consciência de que ela não era um remédio milagroso. Você pode até mudar a forma como seu cérebro funciona, mas para ser feliz, é preciso mudar também sua vida. Para a alegria da minha família, de muitos amigos e de partes de mim mesma, eu entrei na reabilitação em setembro de 2015.

Estamos em dezembro, e estou sóbria há três meses. Moro numa acomodação temporária em Orange County, na Califórnia. Estou construindo uma relação maravilhosa com meus pais e minha irmãs. Trabalho como professora de yoga, algo que amo fazer, e planejo voltar para a faculdade. Eu me exercito e como bem. Meus pensamentos são claros e organizados. Hoje, tenho coisas que nem sabia que queria. Eu não apenas voltei a gostar de mim mesma— eu me amo. Eu amo minha vida. Eu quero viver.

A ketamina é um tratamento promissor para a depressão, uma nova esperança para pacientes suicidas que não respondem aos antidepressivos tradicionais. Não sei se a ketamina é o futuro da psiquiatria, mas tenho certeza de que, sem ela, eu estaria morta. Mesmo assim, sempre me espantarei por ter sido salva justamente por uma droga.

Tradução: Ananda Pieratti