Espécie de dinossauro Saurópode (Maxakalisaurus topai) encontrado na Serra da Boa vista, na cidade de Prata (MG). A imagem retrata momentos após o impacto de um asteróide na Terra dos dinos. Crédito: Julio Lacerda.

Quais eram os dinossauros que viviam no Brasil?

Em novo livro, o paleontólogo Luiz Eduardo Anelli mapeia o território brasileiro e seus habitantes há 2,4 bilhões de anos.

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abr 12 2016, 8:54pm

Espécie de dinossauro Saurópode (Maxakalisaurus topai) encontrado na Serra da Boa vista, na cidade de Prata (MG). A imagem retrata momentos após o impacto de um asteróide na Terra dos dinos. Crédito: Julio Lacerda.

Você com certeza já ouviu falar do Tiranossauro Rex, que reinava sobre a região da América do Norte, mas talvez não saiba que o Brasil teve a sua própria espécie de "T-Rex", o dinossauro Terópode – ou Pycnonemosaurus nevesi, na linguagem científica. Além do carnívoro tupiniquim, cujos fósseis foram encontrados nos estados do Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Maranhão, o território brasileiro foi lar para outras 27 espécies de dinos.

Ilustração da espécie de dinossauro Pampadromaeus, de 1,20 metros de comprimento e 15 quilos, cujos fósseis foram encontrados no interior do Rio Grande do Sul. Nos ares, as primeiras espécies de pterossauros e as primeiras libélulas, presentes na Terra há 100 milhões de anos. Crédito: Julio Lacerda/Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil.

Com o objetivo de contar a história dessas espécies e de tantas outras habitaram o Brasil há 2,4 bilhões de anos, o paleontólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Luiz Eduardo Anelli lançou este ano o livro Dinossauros Brasileiros e outros Monstros – Uma viagem à pré-história do Brasil, que apresenta 38 espécies de bichos (28 dinos e outros 10 como capivaras e pássaros) já extintos que viveram no território brasileiro. "O território brasileiro era de extrema aridez, nós temos espécies muito distintas que chamam muita atenção de pesquisadores do mundo todo", afirma.

Devido ao clima árido, a vida dos dinos brasileiros não era fácil. Segundo o paleontólogo, o interior do Brasil era menos habitado do que o litoral e a oferta de alimento era mais escassa. Por isso, nossos dinossauros eram considerados pequenos. Nosso maior dinossauro tinha 20 metros de comprimento, enquanto nossos hermanos argentinos chegavam a ter mais de 40. Por que? "No Triássico, em uma região de baixa latitude, a apenas 400km do litoral do Pacífico, rios meandrantes e extensas planícies de inuncação, típicas de regiões mais úmidas e extensas planícies de inundações típicas de regiões mais úmidas, proporcionavam água e vegetação em abundância", escreve Anelli. A riqueza da vegetação argentina permitiu o desenvolvimento de muitas espécies na região.

Segundo o professor, evidências dos dinossauros encontrados no Rio Grande do Sul apontam que eles são os mais antigos do mundo. Outro fato interessante é que os dinos habitaram a Terra quando os continentes ainda estavam unidos e, por isso, de acordo com Anelli, os exemplares africanos e os brasileiros têm muitas semelhanças e fazem parte da mesma linhagem.

Região correspondente à cidade de Araraquara, interior de São Paulo. À esquerda está representada a espécie Brasilichnum elusivum, um mamífero que se alimentava de pequenos artrópodes e viveu na era Mesozoica. No centro, dpos dinossauros celurosauros valocirraptorídeos, que tinham plumagem pelo corpo para retenção de calor. Segundo Anelli, os animais menores aproveitavam as pegadas deixadas pelos dinossauros maiores para se acomodarem e se protegerem. Pegadas de dinossauros foram encontradas no paleo-deserto Botucatu, que se estendia do sul de Minas Gerais até o Uruguai. Crédito: Julio Lacerda/Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil.

Anelli tem outros três livros sobre dinossauros no currículo: O Guia Completo dos Dinossauros no Brasil, Dinos no Brasil e ABCDinos. Ele acredita que seu livro Dinossauros Brasileiros e outros Monstros – Uma viagem à pré-história do Brasil é o primeiro escrito sobre como foi o período pré-histórico em território brasileiro. "Tudo o que a gente ensina é baseado em fósseis dos Estados Unidos, da Europa e da Austrália porque eles transformaram a paleontologia e a pré-história deles em cultura, assim como a arte, a música, o esporte", afirma. Anelli crê que a ciência tem muito o que descobrir sobre a pré-história, mas que os brasileiros ainda precisam conhecer sua própria pré-história. Uma de suas preocupações era criar uma obra que pudesse ser utilizada em escolas. "Não há o que os alunos lerem, está tudo espalhado em papers e trabalhos acadêmicos", diz.

Cena do ambiente que deu origem às rochas da formação de Ponta Grossa, bacia do Paraná. A ilustração retrata um momento de 400 milhões de anos atrás, da espécie de artrópode Burmeisteria notica, o maior trilobita da nossa pré-história, com cerca de 15 centímetros, sendo caçado por um anfíbio tetrápode, Notopus petri, que divide as opiniões dos paleontólogos sobre sua real existência. Crédito: Julio Lacerda/Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil.

Na obra, é possível conhecer tanto espécies de dinossauros quanto de outros bichos terrestres, aquáticos e voadores também já extintos, assim como entender o processo de transformação do território brasileiro durante a pré-história com ajuda de ilustrações técnicas. Os frutos dessas alterações, diz Anelli, estamos colhendo até hoje. "Todo aquele ferro da lama derramada pela Samarco ano passado tem a sua raiz numa pré-história longe e distante, 2,4 bilhões de anos. Foi nesse ponto que comecei a perceber que estava fazendo conexões do passado com o atual", conta.

Há 4 milhões de anos, durante o período Neógeno, o nível do mar estava 25 metros acima do atual e a temperatura média global era 3°C mais alta. A imagem mostra a preguiça gigante Eremotherium laurillardi à direita, espécie herbívora que chegava a medir seis metros de comprimento e pesar três tolenadas, encontrada na região de Minas Gerais. À esquerda, dois mamíferos da espécie Hoplophorus euphractus. Ao fundo, uma manada da espécie Xenorhinotherium bahiensis, que habitava todo o território nacional. Crédito: Julio Lacerda/Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil.

Além da viagem pelo tempo, o livro de Anelli passeia pelo território brasileiro com as ilustrações do paleoartista Julio Lacerda. As imagens mostram o cenário árido e duro do interior do Brasil habitado pelos dinossauros. "Era uma vida dura. O litoral tinha mais vegetação, o que traz alimento e diversidade de espécies", explica Anelli. Para o ilustrador, a temática da pré-história trata do desconhecido, o que o permitiu se expressar com criatividade e liberdade na hora de desenhar.

Um asteroide de cerca de cinco quilômetros de diâmetro atingiu a Terra há 214 milhões de anos, contribuindo para o fim da era do continente Pangea, depois de 100 milhões de anos de existência. Com este impacto, os dinossauros tiveram a chance de dominar o continentes que viriam a se formar. Crédito: Julio Lacerda/Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil.

"Não tem como saber como era realmente, então tem que soltar a imaginação, é diferente de desenhar um tigre, por exemplo, que a gente sabe como é. O mesmo dinossauro pra mim tem uma cor e pra outra pessoa é diferente, isso que me cativa", afirma o ilustrador. E é por causa do desconhecido, diz, que a pré-história encanta muito as crianças. Anelli concorda: "São coisas grandes, coisas que matam, que devoram, que caçam. Procurar por dinossauros é uma das aventuras irrecusáveis para qualquer ser humano, é um passado misterioso, mas que fascina até os adultos."

Espécie Xenorhinotherium bahiensis, herbívora, que habitava todo o continente brasileiro. Evidências de sua existência foram encontradas há mais de 100 anos e indicam que seu comprimento era de três metros e chegava a pesar 800 quilos. O significado de seu nome é "besta da Bahia de nariz estranho". Crédito: Julio Lacerda/Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil.

O tigre-dente-de-sabre, Smilodon populator, era um carnívoro foi encontrado nas cavernas da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Os cientistas afirmam que a espécie habitou o Brasil há cinco milhões de anos. Crédito: Julio Lacerda/Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil.