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A Marcha Pela Ciência em SP mostrou que cientistas não curtem muito protestar

Aproveitamos a calmaria para conversar com alguns pesquisadores sobre a importância de se manifestar pelo investimento em ciência no país.

Desde que assumiu a presidência, Michel Temer tomou algumas decisões questionáveis. Quando anunciou que limaria o Ministério da Cultura, passaram-se nove dias para que voltasse atrás. O arrependimento bateu depois que o interino enfrentou a gritaria da classe artística do país. O mesmo, no entanto, não aconteceu quando o governo extinguiu o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que se fundiu com o Ministério das Comunicações, comandado por Gilberto Kassab.

Ainda que ocorra protestos aqui e acolá, o Ministério continua extinto. Nas redes, pesquisadores e cientistas se manifestam trocando a foto do currículo lattes por imagens que pedem a volta do MCTI. Mais engajada, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) fundou no fim de maio a Frente Contra a Extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Nas ruas, por sua vez, algumas centenas de pessoas protestaram em Natal (RN) no Primeiro Ato pela Ciência Brasileira e no Rio de Janeiro no ato "Ciência na Praça", que aconteceu no Largo Machado.

Em São Paulo, foi chamada pelo Facebook a Marcha pela Ciência no Vão do MASP no último domingo (5). Cheios de boas intenções, nerds e pesquisadores se manifestaram na página do evento indignados pelo fim do MCTI. Na prática, a manifestação reuniu cerca de 30 pessoas sob uma chuva insistente e, ao lado, uma bateria que ensaiava para o Arrastão dos Blocos pela Democracia que acontecerá na Avenida Paulista na próxima semana.

Aproveitamos a calmaria para conversar com alguns pesquisadores e simpatizantes sobre a importância de se protestar pelo investimento em ciência no país.

Glaucia é professora da faculdade de química da USP. Crédito: Jardiel Carvalho

Glaucia Souza, professora de química da USP, 50.

Você é cientista?
Glaucia: Sim, sou professora de química da USP.

Por que você veio aqui hoje?
Eu e outras pessoas começamos a discutir isso no Facebook, que o Ministério da Cultura estava tendo um super apoio, rapidamente foi extinto e voltou pelo protesto de muita gente. O Ministério da Ciência e da Tecnologia estava sendo limado e ninguém estava se manifestando. Por isso virou uma marcha. Então eu estou aqui por isso, apoiando a ciência no Brasil, pra que ela tenha mais voz no governo, não importa qual. A gente vem desde 2013 perdendo maciçamente recursos, a ciência não trabalha desse jeito. Você não pode começar uma coisa, se preparar, fazer toda a infraestrutura, contratar gente, pegar aluno e de repente cortarem os recursos. No momento em que o Brasil está agora, no buraco, isso é importantíssimo, sem a ciência a gente não sai dessa.

O que vocês esperam conseguir?
Mobilizar pessoas para a causa da ciência e chamar atenção pro que está acontecendo.

Qual é a importância dessa marcha?
Acho que a ciência é bastante elitista porque nem todo mundo entende. A gente tem que conscientizar, ensinar, divulgar, disseminar mais. Cientista têm que sair mais da universidade.

O físico Maurício Bussab e a escritora Isabelle Décarie levaram a filha para a Marcha pela Ciência. Crédito: Jardiel Carvalho

Maurício Bussab, físico, 53
Isabelle Décarie, escritora, 47
Violeta Bussab, 10.

Por que vocês vieram aqui hoje?
Maurício: Porque faz muito tempo que não se dá a devida importância para a pesquisa, para a produção de conhecimento. A gente não tem como sair desse buraco em que a gente está se não se investir nisso, se o governo não propiciar as mínimas condições para o desenvolvimento da ciência e da pesquisa brasileira.

Qual é a importância de um ato pela ciência?
Maurício: A gente precisa entender que a ciência no Brasil não é respeitada. Cada vez que a gente liga a televisão e tem alguém prometendo alguma cura milagrosa, algum remédio ou falando que a Terra vai explodir amanhã, é uma prova da qualidade do ensino de ciência no Brasil. A gente precisa lutar contra a superstição e o obscurantismo que estão avançando nesse país, precisa melhorar o ensino e, pra isso, investir em ciência.

Por que você veio com o seu pai?
Violeta: Eu acho legal ciência, quero ser cientista. Na escola a gente faz muitos experimentos e é legal saber como as coisas funcionam.

Por que vocês trouxeram sua filha?
Isabelle: Eu sou das ciências humanas, eu sou pesquisadora, escritora. Pra mim, é muito importante pensar que o futuro do Brasil passa pela ciência e pelo conhecimento. Tem que ter o ministério de volta. Nossa filha é o Brasil de amanhã, ela tem que entender a importância da ciência para o desenvolvimento do futuro do país.

A ciência conversa com a política?
Maurício: Não tem outro jeito. A ciência sempre tem que conversar com a política. É um erro achar que as coisas estão dissociadas. Os cientistas têm que ser lobistas também.

Isabelle: Acho que a política está nos nossos atos de todo dia. Todo ato é político. Falar é político, então a ciência e a política têm tudo a ver, é preciso encontrar um caminho pra elas se encontrarem.

Por que é importante uma marcha pela ciência?
Isabelle: hoje as pessoas começaram a tomar conhecimento do problema e a pensar que é preciso refletir sobre essa questão. É importante ter um Ministério da ciência para ter diálogo.

Crédito: Jardiel Carvalho

Simone, 53, psicanalista

Você é cientista?
Não, eu sou psicanalista, mas essa é a marcha que mais se assemelha ao que eu acredito, embora eu não seja acadêmica.

Você já foi em outras manifestações?
Em muitas. Está havendo um golpe de Estado, estamos em um Estado de exceção. Tudo o que foi construído no Brasil está sendo desmontado nas mãos de um bando de ladrões. Quem não está vendo isso muito me espanta. É por isso que eu venho, vim na das feministas, que eu acho que é uma manifestação importante e pelo desenvolvimento da democracia também.

Qual é a importância dessa manifestação pela ciência?
É importante sustentar o que já há. Eu não tenho grande conhecimento no campo científico, tecnológico, mas é importante sustentar o que já há, porque se derrubar a ciência, sobe o obscurantismo.

Tom é nerd entusiasta da ciência. Crédito: Jardiel Carvalho.

Tom Bojarczuk, designer, 46.

Por que você veio aqui hoje?
Eu vim pra protestar pela ciência. Eu sou nerd, mas acredito na importância da ciência.

Por que é importante?
É importantíssimo porque a ciência não é valorizada. A gente tem uma bancada evangélica criacionista tomando poder no Brasil, isso é de uma ignorância sem tamanho. A ciência tem que dialogar com a política, a ciência precisa de apoio do governo pra acontecer, o capitalismo não dá conta disso sozinho.

O estudante Logan quer ser cientista. Crédito: Jardiel Carvalho.

Logan, estudante de jogos digitais da Fatec, 23

Qual sua relação com a ciência?
Embora eu ainda não seja cientista, a ciência é obviamente importante para nós. Ciência significa saber, conhecimento. A gente sabe que quanto mais conhecimento, melhor você é. Mesmo as pessoas ruins que usaram o conhecimento como ferramenta pras suas ideologias, acabaram de certa forma criando ferramentas melhores para o mundo em geral. Por isso a ciência é muito importante e por isso que eu vim aqui hoje. Dá pra perceber que pela primeira vez em muito tempo, os políticos estão abertamente contra a ciência. O sistema em si está errado, mas esse detalhe é inaceitável. Não dá pra deixar a ciência ser colocada pra trás por mera ideologia ou vontade de ganhar dinheiro das pessoas.

Você foi a outras manifestações?
Sim. Estive inclusive nas de 2013, que foram convertidas em manifestações em prol dos políticos, mas que eram pelas pessoas. Sempre vou me manifestar pelas pessoas e pelo conhecimento. Os caras estão permitindo desmates, mais poluição nos rios, permitem isso abertamente. Não me parece racional.

Qual é a importância dessa manifestação?
Não sei se essa pergunta é retórica ou filosófica porque qual é a importância das crianças saberem que o Sol é uma estrela? A princípio, a gente acha que não é importante, mas a ciência é a base de tudo. Tenho certeza de que as pessoas sabem que ela é crucial na nossa vida.

Os zoólogos Daniela e Paulo Roberto também levaram os filhos na marcha. Crédito: Jardiel Carvalho

Daniela França, 28, zoóloga.
Paulo Roberto Machado Filho, 32, pesquisador

Vocês são cientistas?
Daniela: Eu sou pesquisadora, faço doutorado em zoologia na Unesp de Rio Claro.
Paulo: Também. Eu trabalho com serpentes, com vértebras e costelas.

Por que vocês vieram aqui hoje?
Daniela: Vim aqui pra solicitar ao nosso querido presidente que ele não acabe com a ciência do nosso país. A gente sabe que é isso que eles querem fazer. Eles querem que as pessoas não tenham opinião sobre nada. Eles querem acabar com a educação, foi o que eles sempre quiseram, o pessoal do PMDB, do PSDB e alguns outros partidos também. A elite em geral do país quer que a população em geral não pense pra eles poderem mandar. Eu vim aqui lutar contra isso.

Paulo: A gente tem um problema sério com a ciência e a educação em geral no Brasil. Nós, cientistas, também temos o problema de não divulgar a ciência, ela é vista como algo fora da esfera do cotidiano. Fazer doutorado é uma coisa diferente, que não deveria ser. Acho que essa marcha seria bom pra mostrar que os pesquisadores estão unidos e mostrar para a população que a gente existe e estamos perto, trazer as pessoas para perto da ciência. Acho que a divulgação científica aumentou nos últimos anos, mas precisa continuar e aumentar. Tirando um ministério, a gente perde muito com isso.

O que vocês acham dessa relação entre a ciência e a política?
Paulo: Ficou muito claro que quando teve as eleições, as instituições de pesquisa ficaram muito do lado da Dilma, eu lembro que focaram muito nisso nos jornais. Pra muita gente, ficou aquela imagem. Pra mim, isso foi muito marcante. Hoje, a gente tem alguns políticos que vêm a ciência como algo importante. Eu falo ciência, mas é parte da educação em geral. Acho que falta uma voz pra nós. Por exemplo, eu era muito crítico do Romário, mas ele é um cara que está apoiando os pesquisadores, facilitando a importação de material, mexendo em leis. Mas acho que falta a gente chegar no Congresso e mostrar o que a gente precisa, porque eles vêm isso como não prioritário. Em comparação com outros países, a gente gasta mais com o judiciário do que com pesquisa. Eu não coloco só a culpa nos políticos, mas também em nós que fazemos ciência, nós também temos culpa de não conseguir chegar na população, todo mundo vê isso muito distante e isso precisa mudar e falta muito ainda.

Qual é a importância de uma marcha pela ciência no Brasil?
Daniela: Nosso país ainda é muito atrasado em relação à ciência. A gente ainda tem muita pesquisa de base. Nosso governador de São Paulo, por exemplo, deu uma entrevista falando que a pesquisa de base não servia pra nada, que tinha que parar de repassar dinheiro pra isso. a gente sabe que muita coisa importante, a cura de várias doenças, por exemplo, são por causa de pesquisa de base que a gente faz. Pra saúde das pessoas, pra informação, a ciência tem que existir.

Paulo: Seria tentar não desestruturar o que a gente já tem. Mas olhando para o que está aqui, dá pra ver que a gente mesmo está desestruturado. A gente está perdendo um Ministério e eu não sei por quê as pessoas não estão aqui, pode ser a chuva, mas acho que precisava ter um movimento maior, a gente já não é escutado lá em Brasília e perdendo um Ministério, seremos escutados menos. acho que essa divisão também do país, enfraquece. Tem toda a crise financeira envolvida pra diminuir gastos, mas acho que não é bem por aí, a ciência faz a base da educação.

O que você espera levar daqui de hoje?
Daniela: Espero que a gente consiga pelo menos chamar um pouco atenção e mostrar para as pessoas que cientista não fica só dentro do laboratório, não é só aquela imagem que as pessoas têm de cientista maluco. Nós somos pessoas normais, a gente depende da ciência pra viver e as pessoas dependem da nossa ciência também, então a gente quer chamar atenção. A gente existe, estamos aqui e somos importantes para a sociedade.

Por que vocês trouxeram seus filhos?
Daniela: Porque o mais velho já se diz cientista. Ele é muito engajado, eu expliquei pra ele o que significa a plaquinha que ele está segurando pelo Estado Laico, expliquei pra ele que é importante a gente lutar pelo que a gente precisa, expliquei que a gente estuda pra não deixar que as pessoas dominem a gente, não deixar que as pessoas mintam pra gente. Por isso que eu o trouxe, pra que ele já tenha consciência dessas coisas.

Paulo: O Ernesto tem sete anos e já acompanha a gente no laboratório. A Paula tem só um aninho e não entende ainda, mas a gente leva. Eles estão no nosso cotidiano, eles vêm a gente trabalhando, a gente tem materiais em casa e eles já estão envolvidos. Claro que eles não entendem tudo ainda, mas é importante eles aprenderem desde pequenos a serem engajados naquilo que eles acreditam e lutar pelos ideais deles.