​Inter-Exo

Sia deixou para trás a adolescência de sua raça em uma sala de exames estéril com o código que havia pego do exo do médico.

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23 fevereiro 2015, 5:00pm

Sia deixou para trás a adolescência de sua raça em uma sala de exames estéril com o código que havia pego do exo do médico. Ela tem que passar a manga de seu traje sobre o receptor diversas vezes; o material grudento gruda e interfere na leitura.

Se o código mudou, serão meses até que eles possam organizar outra festa. Todos acabam de receber seus exames e amplificadores de imunidade. Se alguém os pegar, talvez nunca mais tenham essa chance.

Mais abaixo no corredor, em tons de cinza após o toque de recolher, Mar fica de vigia. Eles podem se rastejar tão silenciosamente quanto qualquer um sem um traje, mas sua audição, filtrada por fones, não é lá tão sensível.

A luz verde tremula e a trava se abre. Ela manda um sinal de positivo para Mar. Um de seus amigos passa por baixo dela rumo ao chuveiro de ar. Todos os seis se apertam no cômodo, as carapaças verdes enegrecidas de seus exos brilhando sob a fraca iluminação de emergência, e então aconchegam-se em torno de uma mesa de exames acolchoada. Sia fecha a porta logo depois.

Uma lufada de ar surge assim que ela abre seu traje com uma exogazua. O capacete rígido e ombreiras se levantam e vão para trás; ela treme quando o ar seco e frio toca sua cabeça calva.

Mesmo com os exames físicos trimestrais, sempre há um momento de tensão quando ela sai de seu traje. Seus amigos estão alertas. Eles nunca viram ninguém adoecer e morrer devido à exposição, mas já ouviram histórias. Karil, um garoto de outra raça, quebrou o capacete depois de uma queda. Os médicos o colocaram em um coma induzido enquanto fortificavam seu sistema imunológico e torciam pelo melhor.

Sai pisca rapidamente em reação ao frio e então meneia com a cabeça em direção aos amigos, a rajada de ar fazendo seu escalpo formigar. Eles pedem para que ela faça o mesmo com eles em seguida. Suas vozes são fracos murmúrios nos fones de seu capacete, agora aberto.

Por vezes ela nutre um ressentimento pelos trajes e pelos médicos que não os usam, mas sabe que é uma garota de sorte. Outros jovens em comunidades isoladas simplesmente morreram quando a doença se alastrou. Os médicos falaram em resistência a antibióticos. Ela os ouviu fazendo piadas de que um dia todos precisarão de um exo.

Sia sorri para os amigos, seus olhos sem cor mirando o corpo mais próximo. Ela encaixa então a gazua na trava do traje. Gravado no selo, um número, o qual ela havia memorizado.

"Ei Sia", diz Mar enquanto o capacete se abre e mostra suas bochechas escuras e com covinhas.

Sua voz reverbera no pequeno cômodo, mais pesada e cheia ao ar livre. Sua mandíbula parece mais quadrada do que o que a interface projetada no capacete – é hora de uma atualização. Ela para e pensa se seu rosto mudou deste a última vez que fizeram isso, se ele prefere sua interface no lugar de seu rosto de verdade.

"Você faz no próximo?" pergunta Sia, enrubescida. Ela se vira e desliza os braços para fora, o traje liberando gel em sua pele enquanto se move. Suas mãos desencaixam das luvas e ela se contorce para liberar seu tórax, dobrando o corpo flexível sobre seus quadris e então colocando seus pés descalços no chão. Antes de fazer qualquer outra coisa, ela pendura seu exo com cuidado e aumenta a temperatura.

Mar quase encosta nela com seu braço ao pendurar seu próprio traje, Sia treme. Fazem meses. Ele espera por ela, enquanto espera pelos outros.

Seus corpos não tem pelos, pernas espigadas saindo dos trajes. O piso gelada machuca as solas de seus pés. Todos se olham, mesmo tentando não fazê-lo, suas próprias formas desconhecidas uns para os outros, as curvas de terceiros quase esquecidas. Eles nunca ficam no mesmo local, pele em contato com pele, com outra pessoa, nem mesmo com os médicos.

Tremendo, aproximam-se o suficiente para respirarem em cima dos outros. A eletricidade corre pelo lugar a cada esbarrão de joelhos ou roçada de ombros.

Sia vira-se para Mar, inclinando o corpo em sua direção. Ele balança a cabeça suavemente. "Não tão rápido."

Ele estende uma mão e Sia levanta a sua de encontro à ela. As pontas de seus dedos encostam desajeitadamente sem a segurança de dentro dos sexos. Uma pressão gentil, como a dos trajes emborrachados, mas irregular, imperfeita, chocantemente inexata. Eles juntam as palmas das mãos e os dedos percorrem seus antebraços. Seus corpos emitem um brilho fraco, bem onde os trajes deixaram rastros de gel. Ela suspira enquanto os dedos dele vão para o lado interno de seu cotovelo. Ele morde os lábios quando ela segura firmemente seu braço e o aperta.

Movimentos espalham-se pelo grupo, de um a um a dois a um e dois a dois. Mar e Sia se afastam e encostam no balcão, respirando forte quando seus quadris batem na beirada sólida.

Sia traça as linhas de sua costela com os olhos, mais macias que as nervuras articuladas do exo.

"Me toque", ele sussurra, a voz sumindo. É excitante ouvir a palavra nesse sentido, e Sia sente um calor em sua barriga.

Alguém esbarra no skinner presente no lugar e as paredes, piso e teto sem vida do cômodo se enchem de cores. São os fluxos de informações, infostreams, vindos do mundo das pessoas saudáveis e fortes que não estão confinadas à exos, muito mais vívidos que qualquer coisa neste prédio deserto onde Sia e os outros foram criados. O chão vira uma colcha de retalhos de vermelho e rosa e verde, as paredes azuis como os céus os quais ele nunca estiveram debaixo, o teto salpicado com uma trilha brilhante de estrelas.

Mar segura as coxas de Sia e a puxa, deixando linhas rosas em sua carne. O arrastar de cada dedo é tão distinto que chega a ser doloroso, e ela suspira. Ela observa a mudança no rosto dele enquanto toca seu pescoço e peito, a forma como ele pressiona seus dentes sobre os lábios e fecha bem os olhos, expressões muito detalhadas para a interface. Eles se aproximam, respiram sobre os lábios um do outro e se beijam, suavemente, e então longa e profundamente.

Logo o cômodo está quente e eles cobertos de suor que seus exos absorveriam e transformaria e mar. Sia sente o cheiro forte da pele de Mar. Alguém abre um pacote de fluidos para que eles possam bebê-lo com a boca já que não é possível sugar os conteúdos através de seus trajes. Metade dele é ingerido e o resto se espalha pela sala. Todos escorregam e se embolam pelo chão, Mar e Sia juntando-se à pilha.

Ela beija outro garoto – seu rosto mais estreito, lábios mais finos. Todos tão diferentes debaixo dos trajes, por trás das interfaces. Uma das garotas pressiona-se contra Sia e até mesmo a textura de sua pele difere das outras. Sia lambe a parte superior de sua clavícula, saboreando os sons baixinhos emitidos pela garota, junto de seu sabor agridoce. Sia encosta a cabeça no peito da garota e passa sua língua em torno de um mamilo, enquanto a garota leva os dedos de Sia para dentro de si e retorce seus quadris com os movimentos circulares feitos por Sia.

Mar se inclina para beijar a garota e Sia observa os movimentos de seu maxilar e pequenas orelhas. Após se beijarem, a garota levanta o peito e chama outra pessoa. Ela beija Sia e então se afasta com seu novo parceiro.

"Mar", sussurra Sia.

Ele pega a mão de Sia e a puxa para perto de si. Seu quadril arranha no chão e mesmo a dor é boa. Quando pressionam-se um contra o outro, o corpo de Mar encaixa com o seu quase tão bem quanto seu exo. Ele coloca uma mão entre eles e ela bufa em seu ouvido.

"Alguém mais?" pergunta Mar.

Outros corpos e membros, corpos e curvas e pés, movem-se ao seu redor e contra eles.

"Só você agora", ela diz, tomando-o em suas mãos.

Mar suga o lóbulo de sua orelha e suspira prazerosamente.

"Eu quero–", ela engole secamente, afastando-se o bastante para olhar os seus olhos, tingidos da cor das projeções. Um verde esfumaçado nela.

A expressão de Mar se suaviza e ele baixa as sobrancelhas, como que fazendo uma pergunta.

"Podemos tentar–?", ela pergunta.

Eles tiveram aulas sobre o corpo em geral e como o sexo se dá entre pessoas normais. Eles já foram escondidos nos beliches um dos outros para assistirem infostreams juntos, tarde da noite, bem juntinhos em seus exos.

Os movimentos são desajeitados, Sia se curvando rápido demais, no início. Ela suspira com a dor que surge dentro dela e se equilibra com uma mão contra o peito de Mar, então move-se suavemente, até encontrar o ponto em que a dor muda. Em um primeiro momento Mar segura seus quadris como se ela fosse quebrar, mas Sia pede para que se movam juntos. Mar a puxa para baixo para que se beijem. Sia pressiona um dedo sobre sua base e o movimenta.

Então vem aquele tremor típico que acompanha um terremoto ou tempestade súbita, com a diferença de que surge dentro dela e subindo para a cabeça e saindo na forma de gemidos. Ela pensa na chuva caindo sobre si, areia arranhando suas costas nuas, o calor do sol aquecendo toda sua pele. As dunas, vivas, por um instante, com plantas que florescem.

Sia volta a si e olha fundo nos olhos acinzentados de Mar. Ele pressiona sua boca contra a bochecha de Sia, deixando-a úmida.

"Foi rápido demais?", ele pergunta.

Ela nega com a cabeça e o envolve em seus braços. Ambos deitados em meio ao nó que havia se formado entre os amigos, respirações diminuindo. Uma mão errante acaricia seu rosto, lábios macios em seu peito. Após alguns momentos, Sia relaxa. Ela agacha e aos poucos levanta, com os braços esticados, de forma insegura. Aos tropeções em direção aos ganchos, ela encontra seu exo ao levar seu à prateleira. Um dos braços do traje, vazio, se aproxima, atraído por sua pele, e ela olha para a tela interna do mesmo.

"Quinze, gente", ela disse. Segue uma sucessão de suspiros, mas a maioria meneia com a cabeça, feliz, ou tocam-se com menos entusiasmo, esgotados. A sala é apertada e quente, e agora ela quer a limpeza e temperatura agradável de seu traje.

Mar abraça outra pessoa e junta-se à Sia perto da porta. Ele não diz nada, só traceja o contorno de seu maxilar. Ela beija as pontas de seus dedos enquanto cruzam seus lábios. Os olhos de Mar mais uma vez sem cor.

"Eu queria-" ele diz, se afastando.

Ela assente, pegando sua mão por um instante. "Temos que limpar isso aqui", diz.

Mar pega seu exo e encosta-se no balcão, calçando uma perna de cada vez. Sia observa, pensando quando estarão juntos nesse quarto novamente.

Quando os outros se levantam, Sia já está vestida e os esperando. Lado a lado, parecem ser duas espécies diferentes. Ela desliga o skinner e o entrega para a garota que trouxe o aparelho. Quando se aproximam, ela observa o abdome e pernas de seu exo, a aparência externa sem brilho. Logo as funções automáticas do traje se ativam, fazendo uma varredura de seu corpo. Não restou nenhum traço de Mar. Seu rosto esquenta só de pensar nisso antes mesmo do traje adequar sua temperatura corporal.

Ela coloca a gazua na gaveta, ajusta a temperatura para repouso e agenda uma higienização.

"Todo mundo bem?", pergunta, as palavras ecoando em sua cabeça.

Todos assentem com risos nervosos. Seus olhares para seus corpos agora em tons de preto e verde, tímidos. Sia realiza a checagem individual de cada mesmo assim, certificando-se de que os selos estão afixados corretamente.

"Ok, vou abrir a porta."

Sia vai primeiro em direção ao estalo ofuscante e choque dos jatos de ar, e então ao corredor. Emergem um a um, Sia no canto, de vigia. Aos poucos ela despacha seus amigos.

Mar sai por último, inclinando a cabeça. Sia consegue ver o brilho de seus olhos através do traje, e o fino contorno de seus lábios. Ele pressiona os dedos de uma mão na curva de seu capacete, bem onde ficam seus lábios, e os estica. Sia faz o mesmo e encosta nas pontas de seus dedos. Sem choque, sem suspiros, só o toque sem graça de exo sobre exo.


Este conto faz parte do Terrafo​rm, nosso lar online para a ficção futurista.

Tradução: Thiago "Índio" Silva