Por Dentro do Maior Lixão Eletrônico do Mundo

Todo ano 215 milhões de quilos de eletrônicos de segunda mão chegam à capital de Gana. Trabalhadores ganham pouco mais de um dólar por dia para extrair cobre e ouro das tralhas.

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12 junho 2015, 9:45pm

É um dia quente e ensolarado, mas é difícil ver raios de sol passando pela fumaça que cobre o maior lixão digital do mundo. O que antes era um pantanal nos subúrbios da capital de Gana, Acra, agora é o centro de uma rede de exportação ilegal e de despejo de produtos obsoletos, quebrados e inutilizáveis das nações ocidentais.

"Agbogbloshie não é um lugar legal", diz meu taxista, que me levou ao local na semana passada, durante os sete dias que passei no país. "Apelidamos de Sodoma e Gomorra, as duas cidades condenadas da Bíblia. É um lixão enorme em que as pessoas trabalham em meio à fumaça preta e ao cheiro fétido."

Apesar da Convenção de Basel, o tratado internacional que desde 1989 proibe nações desenvolvidas de despejarem lixo eletrônico em países mais pobres, há uma grande demanda pela compra de ouro e cobre de aparelhos antigos em Agbogbloshie. A 32 quilômetros dali, no Porto de Tema, 215 milhões de quilos de eletrônicos de segunda mão chegam do Leste Europeu e dos EUA. Esses aparelhos são descartados em locais como o lixão e geram um total de 129.000 toneladas de lixo eletrônico a cada ano.

O governo de Gana proibiu em janeiro de 2013 a importação de geladeiras por causa do perigosíssimo gás de clorofluorcarbono presente nelas, o que resultou na apreensão e desmonte de várias importações britânicas. Não foi o suficiente para afastar os trabalhadores informais. Só o depósito de Agbogbloshie emprega 40.000 pessoas que ganham de US$1,00 a US$2,50 por dia pelo seu trabalho. É o caso desses homens que coletam placas de circuito de máquinas de xérox que serão reaproveitadas em chips de computador.

Abaixo, os coletores de lixo em Agbogbloshie, o maior lixão eletrônico mundial, estão tirando uma folga da extração de cobre e outros metais rentáveis de dispositivos indesejados. Com fome depois de queimarem uma montanha de computadores, fotocopiadoras, telefones e televisões abandonadas, eles acabam de comer bananas entregues por mulheres do local.

A maioria de Agbogbloshie é formada por homens do norte de Gana, que trabalham ali por três a cinco meses antes de voltarem para suas famílias por um mês para entregarem seus ganhos. Eles moram próximo ao lixão e às 5 da manhã, horário das orações, praticam o islamismo.

Espaços específicos para orações estão espalhados pelo lugar. Esteiras de oração são mantidas longe do solo e da terra com altas concentrações de chumbo, mercúrio, tálio e cianeto de hidrogênio.

Jovens que deveriam estar no ensino médio podem ser encontrados aqui.

Alguns dos coletores trazem seus familiares para cá, a exemplo dessa menina que espera seu pai encerrar o expediente.

Agbogbloshie também é um imã para imigrantes do oeste africano. Com fabricantes locais e chineses comprando os produtos, trabalhar como coletor oferece uma renda inexistente em outro lugar.

Para combater a falta de moradia, os imigrantes constroem barracas que encontram ali mesmo. Eles tomam para si os melhores materiais antes que parem na mão dos compradores.

Eles também se vestem com roupas encontradas no lixão. Como não há lavanderia ou qualquer coisa do gênero por perto, as mesmas peças são usadas dia após dia.

Esses homens vem do Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim e Mali, dialogando em francês rudimentar e hausa. A sensação de todos é uma só: trabalhar aqui "não é justo" e a "Europa seria um lugar melhor" para eles.

Apesar da discriminação dos nativos no lixão, os imigrantes tem orgulho de sua força. Eles dizem ser tão "durões" quanto às condições em que vivem e trabalham.

Alguns buscam latas e garrafas plásticas em vez de queimar eletrônicos. Eles se dizem "limpadores" e usam longas garras metálicas como parte de sua "caça ao tesouro".

Maconha é consumida regularmente para aliviar dores no peito e de cabeça. Muitos também sofrem com insônia.

Crianças pesam os itens coletados antes de entregarem a sacola aos compradores.

No geral, as mulheres não participam do trabalho manual em Agbogbloshie e cuidam das refeições dos homens. Outras lavam aparas de plástico com água suja disponível em um dos poucos poços do local.

As peças então são secadas antes de serem vendidas aos compradores.

A coleta de peças de carro toma boa parte das atividades no lixão para complementar a renda. Os buracos são feitos com um maçarico para extração de metais e outras partes rentáveis.

O rio Odaw marca a fronteira entre o lixão e a favela de Old Faduma, lar de 79 mil pessoas expostas à fumaça. Elas correm risco de contrair malária por causa de mosquitos e demais insetos presentes.

As Nações Unidas calculam que, no mundo todo, cerca de 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico sejam despejadas por ano.

As partes que não podem ser vendidas não são descartas de forma alguma; elas continuam no lixão, aumentando cada vez mais a pilha de dejetos.

Tradução: Thiago "Índio" Silva