Quantcast

A renda básica universal é o caminho para um sistema econômico totalmente novo

PorJordan PearsonTraduzido porAmanda Guizzo Zampieri

Teremos robôs.

Muito em breve, um robô será parte de tudo o que você faz para ganhar a vida. Em resposta a essas e outras pressões, a província canadense de Ontário colocará em funcionamento um teste de renda básica nos próximos meses. Em um período limitado de tempo, em três regiões da província, o governo dará às pessoas um salário para viver, gratuitamente, sem compromisso, e observará como a coisa anda.

Não é a primeira vez que os canadenses flertaram com a ideia. Nos 1970, o governo de Manitoba testou uma renda básica na cidade de Dauphin. Como resultado, a pobreza foi virtualmente erradicada e as taxas de pessoas que finalizaram o ensino médio aumentaram.

O momento é oportuno para um novo debate sobre a renda básica.

No Canadá, 42% da força de trabalho corre o risco de ser automatizada, de acordo com um relatório recente do Instituto Brookfield, uma think tank de Toronto. O momento é oportuno para um novo debate sobre a renda, e o 150º aniversário do Canadá servirá não somente para refletir sobre o passado, mas também para pensar no futuro do país.

Como será a comemoração do aniversário de 300 anos do Canadá se o país implementar a renda básica amanhã?

O robô Pepper na Collision 2017 em Nova Orleans. Crédito: Collision Conf/Flickr.

As características de uma renda básica beneficiarão as gerações futuras da mesma forma como beneficiou os moradores de Dauphin décadas atrás, de acordo com a professora Evelyn Forget, da Universidade de Manitoba, que estudou amplamente o experimento de Dauphin e outros em todo o mundo.

"Vamos reduzir a taxa de pobreza e daremos às pessoas mais controle sobre suas vidas", afirmou. "Elas poderão investir em capital intelectual, poderão fazer treinamentos profissionais e também tomar decisões de longo prazo em vez de focar em se concentrar unicamente em como alimentar os filhos. Hoje, diferentemente dos anos 1970, a maioria das pessoas termina o ensino médio, mas poderemos ver altas taxas de finalização de outros tipos de educação e treinamento."

É muito importante observar que uma renda básica não necessariamente resultará em uma ou outra consequência por si só. Existem fatores externos – incluindo a legislação sobre como a automação será implementada – que determinará certos aspectos, como a quantidade de empregos disponíveis, ou mesmo se haverá um mercado de trabalho.

Com relação à forma como a renda básica funcionará, existem dois caminhos à nossa frente. No primeiro, o mercado de trabalho atual é preservado pela introdução lenta e artificial de robôs na força de trabalho com um imposto. Isso também preservará a forma como as empresas capturam o lucro do mercado de trabalho e adia a ameaça da substituição por robôs se os trabalhadores assim exigirem.

Assim como a indústria capitalista operou ao longo do último século de automação, empregos novos serão criados. Isso não que dizer que serão, necessariamente, trabalhos melhores. Basicamente, nossa marcha de miséria em direção à morte do universo seguirá em frente enquanto o estado continuar sustentando o capitalismo, mas com robôs fabricando nossos tênis e não pessoas.

A renda básica, nesse caso, funcionaria simplesmente como uma rede de segurança social, não muito diferente das que existem hoje, mas mais poderosa. Se você quiser ser escritor, não vai precisar usar todo o seu tempo trabalhando numa cafeteria. Você poderá trabalhar em turnos, alguns dias por semana, para fazer um dinheiro extra, e passar o resto de seu tempo escrevendo. Ou não. Se você for um cuidador em tempo integral, você finalmente será pago por todo o trabalho necessário que realiza.

"A renda básica nos força a questionar a coerção básica do que o trabalho exige de nós, e o lugar do trabalho em nossas vidas", afirmou Forget. "Você verá pessoas optando pelo trabalho porque ele é importante para elas, e para as pessoas para quem isso não é importante, elas poderão se concentrar nos tipos de trabalho que dão a elas muita satisfação pessoal e que não necessariamente pagam bem."

Isso não será de todo ruim. Entretanto, a renda básica é, em essência, um método de garantir que o trabalho seja reproduzido dentro de um mercado de trabalho não totalmente como o de hoje, mas com um pouco menos de trabalho (talvez). As coisas provavelmente continuarão como agora, e isso não é chato pra cacete?

O segundo caminho é mais radical e envolve se submeter à automação.

"Não acho que devemos tentar impedir a taxa de progresso tecnológico", afirmou Sean Mullin, diretor executivo do Instituto Brookfield, na Universidade de Ryerson, de Toronto. "Se você olhar para a história, a inovação tecnológica foi a origem dos ganhos de produtividade. A produtividade do trabalho é a contribuição mais importante pro aumento dos padrões de vida."

Assim, os proponentes desse segundo e mais radical caminho poderiam dizer: "Isso mesmo! Automatize os empregos. De fato, automatize todos os trabalhos, ou o máximo possível". Relegue o trabalho para robôs e deixe a sociedade aproveitar os benefícios da diminuição de sua produtividade na forma de uma renda básica. Esse é o pensamento básico por trás da ideia do "comunismo de luxo totalmente automatizado", que argumenta que os robôs, de propriedade coletiva do Estado, podem cuidar da maioria de nossas necessidades básicas enquanto os humanos ficam por aí e fazem tudo o que têm vontade.

Esse seria um mundo totalmente diferente daquele em que vivemos hoje, e uma ideia de suas consequências não existe fora da ficção. Algumas ideias, como o livro Player Piano, do Kurt Vonnegut, preveem grupos de pessoas destituídas de sua dignidade individual por não precisarem trabalhar, levando a uma distopia. Outras, como Star Trek, veem a humanidade utilizando a riqueza coletiva e o tempo disponível recém-adquiridos para, bem, trabalhar. Mas não é o tipo de trabalho repetitivo e melancólico que existe sob o capitalismo. Há um pouco de dignidade nisso, é claro.

No futuro de Star Trek, a humanidade, liberta do trabalho capitalista graças ao advento de máquinas chamadas de replicadores, de fato escolhe trabalhar em busca da união do universo na paz e na harmonia. E o que pode ser mais nobre, empolgante e desafiador do que isso?

"As pessoas veem o trabalho como uma maneira de defini-las, de organizar suas vidas, e eu não acredito que isso mudará drasticamente", Forget afirmou.

Ambas as visões do futuro são possíveis, mas uma é mais provável do que a outra. Ambas necessitarão de esforços – existirão leis, debates e votos – mas somos novos no caminho dos robôs, de mais trabalho e da velha ladainha neoliberal. Ainda assim, uma renda básica melhorará alguma das consequências da extinção dos empregos automatizados. Para chegar nesse futuro, muitos de nós não precisaremos fazer simplesmente nada.

Para chegar à segunda opção – aquela em que os robôs trabalharão por nós em vez de apenas alguns privilegiados – teremos que lutar, e lutar arduamente, porque isso ameaçará diretamente os lucros de qualquer empresa que extrai o lucro do trabalho humano. Eles não vão gostar disso, muito menos os políticos, que também os apoiam ideologicamente, ou que os beneficiam financeiramente.

Mas o futuro não é deles. É nosso, se quisermos que seja.