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A Internet da Confiança

A internet como um todo pode até ser real, mas é impossível saber o quão real cada uma de suas partes é.

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06 outubro 2015, 6:09pm

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Ontem à noite fui ao aniversário de um editor do Motherboard e, enquanto me via cercado por pessoas que gosto muito e por outras que nunca tinha visto (e provavelmente nunca verei de novo), eu, uma pessoa que já sofreu muito com a temida ansiedade social, me senti tranquilo como não rolava há tempos. Por quê? Bem, independentemente do que tínhamos ou não em comum, eu podia ao menos apostar no fato de que — isso se eu não estivesse em uma situação tipo a do filme Eles Vivem — todo mundo naquele bar era real.

A internet é um lugar real, um espaço onde trabalhamos e amamos — tanto que não precisamos mais adicionar o prefixo "ciber" a esses verbos para mostrar que são coisas semi-reais. A internet é real o suficiente para ser colonizada ou até mesmo sitiada. Mas conforme a abraçamos como um local de visita ou moradia, há um probleminha que ameaça cada vez mais o metaverso: a internet como um todo pode até ser real, mas é impossível saber o quão real cada uma de suas partes é.

Não estamos lidando com uma grande questão metafísica; o problema aqui são os pequenos detalhes. Algumas pessoas passam muito tempo deixando seus tuítes mais engraçados do que elas são na vida real, enquanto outros descobriram o ângulo perfeito para tirar selfies mais atraentes. Muitos manipulam alguns detalhes em seus perfis no LinkedIn; tantos outros dizem coisas que eles nunca diriam na vida real.

Os seres humanos são criaturas subjetivas que têm muita dificuldade em compreender a realidade de forma uniforme, o que significa que bancos de dados (mesmo os maiores deles) baseados em experiências humanas são extremamente duvidosos. Mas isso está prestes a mudar.

"Adios cuzão! Espero que você curta a nota 0 que eu estou te dando neste instante!"Crédito: Shutterstock

Existe uma pequena chance de que você já tenha lido algo sobre o Peeple, um "Yelp para Pessoas" que pretende revelar nossos piores defeitos. Deixando de lado coisas como spam, manipulação de votos e invasões de hackers, problemas inerentes a um aplicativo onde se poder avaliar qualquer pessoa, creio que nosso amigo Jordan Pearson está certo: o verdadeiro público-alvo do Peeple são os empregadores.

Leia também: O Peeple É para Empregadores, Não para Pessoas

Isso, claro, supondo que o Peeple irá dar certo. Jason Koebler acredita que não, o que faz bastante sentido. Essa não é a primeira vez que alguém tenta lançar um aplicativo desse tipo. Mas também é razoável presumir que o verdadeiro objetivo do Peeple, um sistema de avaliação de reputações, é ser comprado pelo LinkedIn ou talvez pelo Facebook, que tem muito interesse em garantir que todos seus usuários sejam tão reais quanto eles são na vida real.

Quando leio o currículo de alguém, a primeira coisa que faço é conferir seu Twitter e Instagram, um jeito simples de saber quem ela de fato é. Eu, como o ermitão de redes sociais que sou, tento analisar racionalmente toda e qualquer primeira impressão que esses perfis me causam. Gosto de pensar que, caso o Peeple desse certo, eu não confiaria muito nele — mas eu ainda daria uma olhadinha antes de contratar alguém.

Por mais que a gente saiba que o Yelp e outros apps do tipo estão suscetíveis à opiniões enviesadas, à alteração de votos e à idiotice humana — quem esse tal de Joseph K. acha que é para dizer que os tacos do Greenpoint Heights são ruins? — como tudo na internet, nós ainda os usamos porque não existe uma alternativa melhor. Ainda assim, sempre suspeitamos que os outros estão falando besteira, uma sensação que é reforçada cada vez que nos deparamos com resenhas engraçadinhas.

Então como resolvemos isso? Com dados! No post mais profético que li esse ano, Daniel Miessler reflete sobre as verdadeiras possibilidades da Internet das Coisas: dados reais e incorruptíveis sobre nossos defeitos e qualidades, vindos não de um bando de humanos tendenciosos, mas sim da sua geladeira.

Nas palavras de Miessler:

Como muitos dos objetos com os quais interagimos se tornarão inteligentes, nós receberemos uma quantidade incrível de informações sobre o mundo que nos cerca. Essas informações serão então utilizadas na criação de painéis que iluminarão e guiarão nossas escolhas em relação à finanças, saúde, interação social, educação, etc. Painéis pessoais serão projetados nas paredes de nossas salas, mostrando todos os dados alimentícios de uma família, como a ingestão de comida diária, quantidade de calorias queimadas, passos dados, e o karma acumulado e dispensado. Chefes de família poderão checar como vai a poupança para a faculdade dos filhos, como vão os investimentos da família e quais são os ajustes necessários. O mesmo acontecerá nas empresas, onde painéis gigantes exibirão o ânimo dos trabalhadores, o risco cibernético, a aprovação do público, a eficiência logística, a saúde dos funcionários e qualquer anomalia digna de atenção junto a uma lista de dicas para aumentar a eficiência da empresa.

Mais um problema: como podemos saber que aquele candidato que diz ser detalhista não está mentindo? Ou que aquela pessoa no Tinder realmente gosta de aventuras e de sair e não está na verdade grudada em seu sofá, pensando se seria razoável usar uma fralda de vez em quando para gastar menos tempo com as idas ao banheiro? Como podemos confiar na sinceridade de qualquer pessoa na internet?

"Essa é a última vez que você me chama de preguiçoso, sua torradeira de merda." Crédito: Shutterstock

A solução atual: você pode correr o risco de conhecer alguém de verdade — o que muitas vezes acaba em lágrimas. A solução do futuro: você pode juntar todas as informações sobre como essa pessoa limpa sua torradeira ou com que frequência ela ouve sua playlist de malhação ou se ela já comprou comida de cachorro alguma vez, só para descartar a possibilidade de que aquele cachorrinho do Tinder seja na real um ator contratado.

A Internet das Coisas se tornará uma fonte de informações sobre quem você é ditará se você é minimamente responsável, divertido ou cool. As pessoas chamam isso de economia de reputação, nome que faz esse conceito soar como algo que trará muito dinheiro. Mas o conceito de reputação é uma solução datada e imprecisa para um problema muito moderno: saber se alguém é quem ele ou ela diz ser. Na verdade, o que realmente importa agora é o conceito da Internet da Confiança.

É muito mais fácil acreditar em dados concretos do que no Yelp; isso até faz sentido, mas existe um erro nessa lógica. Sim, em um mundo perfeito, poderíamos confiar em nossa capacidade de escolher ou não confiar em alguém depois de descobrir que ela não jogou o leite azedo fora apesar dos lembretes constantes da sua geladeira inteligente ou que ele ativa as chaves automáticas de sua casa tarde demais para uma terça-feira ou que, caramba, esse ser humano maravilhoso tem um ótimo gosto musical.

Mas nós não vivemos num mundo perfeito. Como John Welsh escreveu no meu post favorito do ano passado, "a internet das coisas não vai funcionar, porque as coisas não funcionam". Ele explica:

Visto que as complexidades e problemas técnicos de um dispositivo parecem nunca acabar, fazer com que esses dispositivos se comuniquem entre si só pode trazer dor de cabeça. Criar dispositivos perfeitos, confiáveis, invisíveis e que reconheçam nossos hábitos é um desafio enorme. E se um painel interior no pára-brisas de um carro travasse por um décimo de segundo, causando um atraso em relação ao mundo exterior? Você seria obrigado a desligar e ligar o carro? E se o sistema de localização cair e você não souber que uma certa estrada está fechada? Você chegaria atrasado no trabalho? E se você não souber quanto peru sobrou na sua geladeira? Você saberia qual é a quantidade certa de peru a ser ingerida? Essas perguntas podem parecer ridículas, mas elas precisam ser levadas a sério.

Todos esses problemas parecem uma bobagem; além disso, a ideia de que nossas reputações dependerão de uma privada inteligente é bem preocupante. Mas, por mais imperfeita que esse tecnologia seja, depender de máquinas para reunir informações sobre nossas reputações tornará a Internet da Confiança mais eficiente do que o Yelp ou o Peeple, que, por sua vez, são mais eficientes do que simplesmente confiar em algum desconhecido. E esses ganhos marginais em eficiência garantem que a Internet da Confiança está para se tornar real.

Mas como isso ocorrerá na prática? Em primeiro lugar, precisaremos inventar novas expressões para definir o ato de hackear a Internet da Confiança. (Qual é a diferença entre pagar um hacker para forjar algumas idas à academia e entre vestir aquela camisa especial que você só veste algumas vezes ao ano porque você não tem dinheiro para comprar outra?) Mas o mais importante é que é muito difícil argumentar contra dados, mesmo que você não concorde com eles, ou mesmo que eles sejam duvidosos.

"Tudo bem, carro, eu troco seu óleo SE você deletar aquelas viagens ao McDonald's do meu histórico". Crédito: Shutterstock

Aqui está um caso hipotético que deve se tornar real algum dia: o ano é 2025, e Joe está sentado em seu carro autônomo, totalmente despreocupado. De repente seu pneu — que está um pouco murcho e que quase não passou pela inspeção de qualidade da fábrica e, ah, ali está aquele buraco no asfalto que não foi consertado porque o Departamento de Transportes ainda não recebeu os caminhões especializados em consertar vias autônomas — estoura no meio de uma curva. O carro gira algumas vezes e acerta uma velhinha.

De quem é a culpa? Certamente não da montadora, pois os advogados da empresa podem demonstrar o algoritmo de segurança do carro com maestria. A culpa é do governo, por não ter tapado o buraco? Os buracos existem há séculos e nós ainda não estamos desesperados a ponto de culpá-los pelas mortes no trânsito. A culpa é do fabricante do pneu por vender um produto com uma qualidade duvidosa? Não, pois o produto estava dentro dos padrões legais.

A culpa é do Joe? Bom, ele esqueceu de calibrar o pneu, apesar das dezenas de lembretes do carro, mas isso não é nenhuma novidade. Ele também esqueceu de responder aos pedidos de limpeza da sua torradeira e ele ainda não trocou aquelas duas lâmpadas queimadas, e houve aqueles três dias infernais no ano passado em que ele desligou o alarme de incêndio para roubar sua bateria — e é claro que esses negócios ainda farão um barulho muito irritante no futuro.

Talvez a torradeira esteja com defeito e tenha mandado aqueles avisos irritantes mesmo depois da limpeza exemplar de Joe. Seus advogados acreditam que esse é o caso e, segundo seus próprios eletrodomésticos, ele é uma pessoa extremamente confiável. Mas alguém precisar ser culpado por essa tragédia, cuja importância é exarcebada devido à raridade de mortes acidentais do tipo e é seguro dizer que Joe parece uma pessoa bem negligente. Certo?

Você pode até dizer que esse cenário hipotético é insano. Quando isso tudo acontecer, também iremos analisar a loucura da situação. Mas como eu posso confiar no que você pensa?

Tradução: Ananda Pieratti