Arte por Koren Shadmi.

Ginoide, Preservada

"Você não alcançou sua meta de crowdfunding." Meu moto-coração vacila. Meu bio-relógio toca. Faltam vinte e quatro horas.

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06 fevereiro 2015, 2:04pm

Arte por Koren Shadmi.

"Você não alcançou sua meta de crowdfunding."

Meu moto-coração vacila. Meu bio-relógio toca. Faltam vinte e quatro horas.

Eu disse para a Mamãe que a campanha não funcionaria.

Dinheiro não era um problema. Seus amigos burgueses de Northbrook e Highland e Kenilworth têm dinheiro aos montes. Eles só estavam cansados de ouvi-la contar vantagem.

Por onze meses eles escutaram Mamãe tagarelando sobre as impressoras 3D de Naomi Nakamura (aquelas que podem imprimir epiderme, derme e hipoderme com noventa e nove por cento de exatidão), minha pele macia (colágeno cem por cento natural), meus lindos e texturizados cachinhos (cada fio cresce de minha derme com um córtex individual e camadas múltiplas) e minha hemoglobina artificial (projetada para manter o colágeno da minha pele e a queratina do meu cabelo).

Mamãe deveria ter me financiado ao contrário: campanha de crowdfunding no primeiro ano, e aí sim usar o dinheiro do Papai no meu segundo ano de vida. Assim ela poderia continuar a se vangloriar do meu Pacote Naomi Nakamura Super Platinum (com todas as memórias intactas, voltando até os 18 meses de idade), e ela e Papai ainda seriam os maiorais de Northbrook.

O desconto de fidelidade da Naomi Nakamura é enorme. No primeiros seis meses, pelo menos três amigos da Mamãe bateram em nossa porta para pedir o seu código de desconto. Dois deles tinham filhos drogados que haviam sofrido overdoses com três semanas de diferença, e o outro tinha um filho que curtia asfixia erótica e queria um brinquedinho especial. Essas três indicações poderiam ter pagado três atualizações, incluindo dois anos na Universidade de Illinois.

Agora minha única esperança é a Hasbros.

Mamãe sorri alegremente, mais para ela do que para mim. "Não se preocupe. Ainda temos nosso Plano B. A Cermak Road Kardia sempre dá um jeito. Lembre-se do lema deles: 'Nos dê uma hora, e nós te daremos um ano.'"

Eu me afundo no sofá. "Você disse que eles eram uma farsa. Golpistas. Cirurgiões cardíacos arruinados e mecatrônicos amadores."

Vinte e três horas e quarenta e sete segundos.

Mamãe tira um lenço de sua manga e enxuga seus olhos. "Estou dizendo que não posso te consertar, e eles são tudo que você tem."

Vinte e três horas e trinta e dois segundos.

"Eu não quero ir. Eu só quero passar minhas últimas horas aqui, com você e o Papai."

Vinte e três horas e vinte e seis segundos.

Mamãe tenta me levantar. "Se sairmos agora, podemos chegar em Chicago em menos de uma hora."

Vinte e três horas e dezessete segundos.

"Talvez eles precisem encomendar algumas peças. Isso pode levar dias. Semanas, até."

Vinte e três horas e doze segundos.

Mamãe me puxa com mais força. "Confie no lema."

Vinte e três horas e sete segundos.

Eu não mexo um fio. Minhas lágrimas são súbitas. "A Naomi Nakamura LTDA ligou mais cedo. Eles vem me buscar amanhã, às três da tarde. A caixa fica por conta deles."

Como de costume, a internet estava certa. Eu não tenho nenhum programa de auto-preservação.

Nas últimas três noites, Mamãe, Papai e eu deitamos na cama, no escuro, esperando a chegada dos meus sete zeros.

Mamãe observa os dígitos embaixo da minha pele diminuírem. Vejo o brilho vermelho do bio-relógio no meu peito iluminar as lágrimas nas suas bochechas e o catarro no seu lábio superior.

Papai ronca.

Quando o dia amanhece, Papai entra no banheiro e chora. O dia inteiro.

De tempos em tempo, ele tosse algumas palavras. O seu lamento é claro: crowdfunding é uma merda, a Nakamura é uma empresa maquiavélica, a ausência de um programa de auto-preservação é intencional, obsolescência programada, criada para forçar parentes enlutados a reviver suas queridas e duplamente mortas filhas como ginoides ano após ano.

Quando a noite cai, nós três voltamos para a cama. Mamãe reinicia seu relógio. Papai dorme, exausto de tanta emoção. Eu olho para Mamãe e me pergunto se todo meu amor à vida se esgotou.


Um mês atrás, eu me ofereci para repaginar a página de doações da Mamãe. Ela era completamente sem graça.

"Não, não é verdade", ela me disse, franzindo o rosto. "Ela é emocionante. Funciona com pais. Você não iria entender."

Eu não entendi.

Os seus prêmios eram macabros — o melhor deles era uma cirurgia coronária tripla grátis — e os banners da página eram desinteressantes. Ela se recusava a sublinhar as partes mais importantes ou usar uma fonte que não fosse a Calibri em tamanho 10.

"Meu vídeo vai fisgar todo mundo", ela disse.


Mas isso não aconteceu.

O vídeo era um close da Mamãe em uma sala branca, sentada em uma poltrona branca e vestindo um terninho branco, narrando seu sofrimento após minha morte para a câmera por cinco minutos e quarenta e seis segundos.

"Isso não é emocionante", disse à Mamãe depois de assistir o vídeo. "Isso é meloso. E sem graça".

No dia seguinte, Mamãe me mostrou uma versão alternativa: ela em uma sala branca, sentada em uma poltrona vermelho-sangue, vestindo um terninho vermelho, os cotovelos nos joelhos, ombros para frente, falando diretamente com a câmera por sete minutos e trinta e seis segundos.


Ela não olhava para baixo. Ela não desviava o olhar. Ela não chorava.

Mamãe apenas contava ao mundo como a violência cruel de uma gangue e um marginal chamado Jean-Loup Galant mataram sua única filha, sua garotinha.

Deu certo.


Enquanto eu assistia seu vídeo, outros dez doadores ofereceram dez milhões de dólares cada para ajudar na meta de cinquenta milhões de dólares da Mamãe. E, apesar dela ter falado mal do Jean-Loup, eu sorri. Não podia evitar.

Eu estava três quartos financiada.


Papai foi claro quando eu levei Jean-Loup para jantar em casa pela primeira vez:

"Se você levar minha filha para Chicago, eu corto suas bolas. Se minha filha for te visitar em Chicago, eu corto suas bolas."

Papai é neurocirurgião. Nova classe média de Northbrook. Ele curte coisas pontiagudas.

Mamãe também foi clara:

"Se você for visitá-lo em Roseland, você nunca vai voltar para casa. As gangue haitianas irão te sequestrar, te espancar e te estuprar, depois vão pedir resgate, te encher de drogas e te matar."

Ela disse isso na mesa de jantar, enquanto Jean-Loup estava sentado do meu lado.

Mamãe é cirurgiã cardíaca. Família rica, burguesa do sul de Chicago. Filhote de Escolas Laboratório. Ela sabia que aquilo era bobagem.

Ela aprendeu na primeria série que Jean-Baptiste Point du Sable criou Chicago, um grande centro comercial e industrial. Ela aprendeu que ele havia sido um homem bonito e charmoso. Aprendeu como seu tino comercial e seu incrível carisma o tornaram o primeiro prefeito eleito de Chicago. Ela aprendeu que ele havia transformado Chicago em uma formidável cidade-estado durante seus seis mandatos.

Ela sabia que aquilo era bobagem.

Ela aprendeu desde as fraldas que seu tataravô, Etienne Jean-Louis, ajudou a transformar Chicago em uma cidade fantástica, cheia de minas de ferro e ferrovias. Ela passava por suas fábricas de ferro e aço todos os dias no caminho para a escola, olhando do banco de trás do Bentley os trens que corriam nos trilhos que haviam sido dele.

E reduzir a cidade do meu namorado, sua cidade natal, a uma guerra de gangues entre os Ro Boys em Roseland e os Wash Boys em Washington Heights, só porque Fernwood, o reduto da burguesia onde ela cresceu, ficava bem no meio — bem, ela sabia que aquilo era bobagem.


Eu conheci Jean-Loup no meu último ano do ensino médio, na competição de atletismo anual de Rock Island. Ele participava da corrida de obstáculos, 300 metros, e eu também.

Ele tentou me dar alguma dicas antes das eliminatórias. Ele disse, "Gen bèl fòm. Mas você precisa fortalecer o músculo flexor da sua perna de apoio."

Ele estava se exibindo embaixo das luzes, na frente da platéia. Seus peitoral se mexia sob o uniforme da Chicago Leo.

Lá, em Rock Island, todo mundo é louco por competições de atletismo. Eles lotam o estádio nas sextas à noite para assistir os meninos que voam em seus uniformes vermelhos e torcer para o time dourado da casa, do mesmo jeito que os sulistas assistem futebol americano e torcem para os garotos lá no Texas.

"Esse joelhinho adorável não precisa de cicatriz."

Eu não podia com aquele sotaque de Créole Haitiano. Mas eu fiquei na minha.

Eu disse, "A última vez que minha perna de apoio ou de ataque atingiu um obstáculo foi no ano passado. Quarenta e quatro corridas atrás. Eu fiquei em segundo lugar na competição estadual — tudo isso no segundo ano."

Aí eu liguei meu Auricle, gritei o refrão de "Electric Lady", da Janelle Monáe, o mais alto possível, e corri com todas minhas forças e técnica impecável, dando uma volta de aquecimento ao redor do campo.

Não olhei para trás. Eu sabia que ele ia me seguir.

Mas eu não imaginei que morreria três meses depois, deitada em sua cama, com um tiro no meio da cabeça.

Jean-Loup estava acariciando minha sobrancelha esquerda com seu dedão. Seus lençóis tinham cheiro de garoto. Eu amo cheiro de garoto.

"Mwen renmen sousi w", ele disse.

Ele amava minhas sobrancelhas grossas e escuras. Ele amava passar a mão nelas quando eu as fazia. Ele amava como elas emolduravam a beleza do meu rosto.

Ele não estava tentando ser charmoso ou sedutor quando dizia isso. Ele não estava tentando se exibir.

Ele me amava.

Essa é a minha última memória como uma garota de verdade, minha memória-âncora, intocada pela bala que atravessou a parede do quarto e se cravou no meu cérebro.


Uma ginoide de Highland Park chamada Jae Lyn postou um holo-vídeo sobre sua primeira atualização.

Ela disse que, apesar dos técnicos sorridentes te dizendo que a paralisia é apenas temporária, e apesar das pilhas de cobertores que as enfermeiras colocam embaixo do seu queixo, se você se fixar em uma memória-âncora feliz antes do seu bio-relógio zerar — e você deve se esforçar para fazer isso quando estiver bem próxima dos sete zeros— a memória-âncora irá acalmar sua mente quando você acordar, e você não vai surtar quando seu sistema nervoso demorar para pegar no tranco, e vai se sentir toda quentinha e dormente, porque essa memória-âncora irá iniciar seu sistema de auto-preservação, e ela será sua primeira lembrança lá do outro lado.

A lembrança mais feliz já resgatada.

Então, enquanto deito no sofá, Mamãe acaricia minha testa e meu bio-relógio bate os seus últimos segundos — nove, oito, sete — eu fecho meus olhos — seis — me agarro à memória de Jean-Loup sobre mim — cinco — ouço ele sussurrar, Mwen renmen sousi w — quatro — (eu amo suas sobrancelhas) — três — meu moto-coração começa a parar — dois — tudo vira silêncio — um —

Eu sorrio.


Esse conto faz parte do ​Terraform​, nosso lar para ficção futurista.

Tradução: Ananda Pieratti