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Todos os diálogos de Nicholas Felton em 2013. Créditos: Nicholas Felton.

Nicholas Felton Quantificou Todas as Conversas que Teve em 2013

Claire L. Evans

Claire L. Evans

Conversamos com o cara que quantificou tudo – até as conversas reais – que teve em 2013 para transformar em um belíssimo infográfico.

Todos os diálogos de Nicholas Felton em 2013. Créditos: Nicholas Felton.

Todo ano, o designer gráfico Nicholas Felton publica um relatório sobre sua vida. Varia a cada ano, mas geralmente contém dados como a quantidade de xícaras de café que ele tomou ao longo do ano. Quantos passos deu. Quantos livros leu, e as diferentes localizações geográficas que visitou. Chama Relatório Feltron, e transformou Nicholas numa grande estrela em círculos de visualização de dados.

Nesta semana, ele publicou o nono Relatório Feltron.

Talvez esse seja o trabalho mais ambicioso da história em compilação de dados pessoais. O Relatório Feltron de 2013 é um resumo de todos os diálogos de Felton em 2013. Não apenas mensagens SMS, emails e cartas, que são relativamente simples de coletar e quantificar, mas também toda conversa que ele teve na vida real.

Toda vez que falou em voz alta com um ser humano – sua namorada, colegas de trabalho, o barista do café do bairro –, ele sacou o telefone e monitorou a ocorrência, medindo a duração da conversa, o local e, mais assustador ainda, todos os assuntos discutidos.

O MAPA NÃO É O TERRITÓRIO

Quando conheci Nicholas Felton, em um festival para nerds de dados chamado EyeO, onde ele causou frisson entre os participantes, perguntei algo que achei que já tivessem perguntado a ele um milhão de vezes: você já leu Borges?

Jorge Luis Borges, sabe: o escritor argentino, conhecido por suas histórias especulativas sobre bibliotecas infinitas e labirintos, livros misteriosos e moedas de um lado só. Um dos trabalhos mais citados de Borges é um conto de um parágrafo, de 1946, chamado "Sobre o Rigor da Ciência", que imagina um império perdido, em que a ciência da cartografia é tão detalhada, que os cartógrafos não conseguem descansar até criar um mapa tão completo quanto o próprio império. Um mapa do mundo em escala real.

É uma alusão ao axioma "o mapa não é o território", estabelecido uma decada ou até mesmo antes pelo semanticista polaco-americano Alfred Korzybski. Na história de Borges, o mapa perece com o tempo, revelando o império por baixo, ecoando a análise de Korzybski, que diz que, embora muitas pessoas confundam representações da realidade com a própria realidade, as abstrações não têm relação alguma com as coisas que as derivam.

Embora o Relatório de 2013, assim como todos os exames psicodélicos que Felton faz de si, revele uma quantidade assustadora de detalhes granulares - ele ouviu Nico 66 vezes e recebeu 33 cartas de Pennington, Nova Jersey –, o documento não diz nada a um estranho sobre o próprio Nicholas, ou como ele vivenciou o ano. Ou seja, o Relatório Feltron não é a vida de Nicholas Felton, é apenas uma representação dela.

Mas que representação, viu.

Motherboard: Vamos começar com o Relatório de 2013. É extremamente ambicioso. O que o motivou a alçar esse nível, e como você fez isso?
Nicholas Felton: Estou sempre buscando aspectos da minha produção pessoal de dados que não foram explorados, ou que aparentem ser uma fronteira frutífera. Gosto de tarefas que estão no limite do realizável. Em algumas áreas, a tarefa de coletar todos os meus diálogos pareceu bem fácil – os dados já estavam coletados para mim, como em SMS e email –, mas as conversas representavam uma entidade caótica que me interessava muito capturar.

O desafio foi estabelecer uma metodologia para coletar tudo isso de uma maneira sustentável. Eu estava interessado na otimização de recursos, mais do que na fidelidade perfeita. Estava mais interessado em me aproximar de um número absoluto de pessoas com quem conversei de fato, e entender o cenário de desconhecidos versus conhecidos versus amigos próximos. Qual é a proporção de pessoas com quem conversei cujo nome eu não sabia, versus quem eu conhecia?

Em relatórios anteriores, eu estava bem interessado em estar o mais próximo possível de 100% de precisão. Este Relatório me fez recuar um pouco; a baixos custos, na hora de pedir um café com leite, posso capturar a conversa 100%, mas nas conversas realmente interessantes, em um jantar ou casamento, que levam horas e horas, haverá bem menos fidelidade, e tenho que estar confortável com isso.

O que acabei fazendo foi testar um monte de aplicativos da App Store no meu iPhone. Encontrei um que é usado principalmente por funcionários da prefeitura ou urbanistas – basicamente, serve para marcar coordenadas geográficas e preencher um formulário junto.

Por meio de tentativa e erro, desenvolvi um formulário que começou a encapsular cada vez mais os meus padrões. Para saudações, eu tinha apenas uma lista com todas as opções – olá, tudo bem, e aí –, que eu podia assinalar com facilidade. Era tudo mecânico, técnico e repetitivo, dava para capturar em dois cliques. E então eu registrava todos os metadados: localização, horário, fatores que eram bem interessantes para mim e me poupavam tempo e esforços.

Logo fiquei muito bom de memória. Em conversas mais longas, transcrevia depois. Se eu conseguisse lembrar o começo, entrava em um estado de fluência em que era capaz de seguir de uma ideia à próxima, e basicamente transcrevia a maior parte da conversa, pelo menos as ideias centrais.

Esse processo ditou os tipos de conversa que você teve em 2013?
Certamente, as conversas longas eram muito interessantes e valiam a pena, mas eu não atendia o telefone se o número fosse desconhecido. Tudo demandava energia, então se eu estava cansado e alguém segurava uma porta para mim, eu virava um babaca – volta e meia, optava por não agradecer, porque contaria como diálogo.

Mas era uma via de duas mãos, porque às vezes eu dizia "nossa, isso foi incrível, tive uma conversa com um policial, ou quase trombei com uma pessoa na esquina, e agora esse lugar tem um significado para mim", então o processo ficou interessante.

Como as pessoas reagiam? Imagino que as pessoas mais próximas estão acostumadas com essas coisas já, mas e meros conhecidos, e estranhos?
Acho que a maioria das pessoas não sabia o que se passava. Contei para pessoas bem próximas o que estava fazendo, e claro que eu me comportava diferente dependendo de quem estava por perto. Quando eu não conhecia o interlocutor muito bem, não pegava meu telefone e começava a fazer anotações – mas com a minha família, ou namorada, faço anotações continuamente.

O projeto todo trata de uma tendência maior que percebi em automonitoramento: quanto mais você busca saber sobre si, mais você acaba incluindo todas as pessoas ao redor, porque não somos correntes isoladas de dados – é tudo compartilhado.

Se converso com alguém, envolve duas partes, e a mesma verdade serve para todos os aparelhos que as pessoas usam para coletar dados sobre si. Dá para falar sobre propriedade de dados, mas, em última instância, não teríamos os dados que a Nike coleta sem a Nike.

Presumo que, por ter vivido esses dados, você os experiencia de forma bem diferente. Você observa uma alta frequência de conversas telefônicas com uma pessoa e enxerga amor. Observa lugares de um mapa, enxerga memórias.
Parte disso é proposital. Sou o editor do Relatório e levo adiante as facetas da minha vida que fico à vontade para compartilhar. Faço uma curadoria – não quero revelar ao mundo o vocabulário das conversas com minha namorada. Está nos dados, mas não é algo que estou louco para compartilhar.

Em partes, minha prerrogativa é compartilhar o que opto por compartilhar. Mas é também, até certo ponto, o limite dos dados. É uma das características interessantes dos dados de comunicação: aprendi o quão reveladores metadados são. É tão óbvio perceber quem são meus contatos mais próximos. 90% das minhas mensagens de texto são para a minha namorada.

40 mil mensagens de texto.
São provas. É o canal que usamos, e ela é a pessoa de quem sou mais próximo. Mas quando observo a fartura toda de comunicação, fica tudo bem nebuloso. Percebo como os diálogos estão inundados de termos de venda: "clique", "ofertas", "retornos", todas essas palavras que estão relacionadas ao comércio turvam os aspectos pessoais dos dados.

A base de dados virou um grande caminho trilhado pela minha vida, pois é nas conversas que as coisas mais importantes acabam sendo expressas.

NÃO SOMOS CORRENTES ISOLADAS DE DADOS – É TUDO COMPARTILHADO.

Esses Relatórios Anuais representam tanta informação, que você passa meses do ano seguinte filtrando e compilando os dados. Viver no presente enquanto você compila os dados do ano anterior afeta a maneira como você vive?
Um pouco. Certamente, é meditativo, e acho que me faz retornar às memórias mais do que as outras pessoas. É o caso de 2010, quando fiz um Relatório sobre a vida do meu pai, que foi um negócio incrivelmente terapêutico.

Passei seis semanas meditando sobre as posses e viagens dele, transcrevendo documentos e olhando todas as fotos. No final, senti mesmo que expressei grande parte da experiência dele, e espero que a humanidade também. Atingi um nível de expressividade que não costumo aplicar a meus próprios Relatórios. Também tive o benefício de lidar com 81 anos de material ali, então as histórias foram melhor capturadas, as linha gerais ficaram mais evidentes...

Certamente, parece mais uma narrativa.
No começo, foi super difícil. No meio do processo, eu não tinha certeza se estava fazendo jus a ele, mas no fim das contas, senti que preservei sua memória de uma maneira significativa para mim. Senti que capturei a essência, e fui capaz de oferecer isso aos amigos dele.

Eles não o conheciam desde sempre – assim como eu não conhecia –, mas eu sabia que estava fazendo um bom trabalho quando essas pessoas entre 75 e 80 anos de idade dispuseram tempo e esforços para ler um documento formatado de um jeito maluco, e começaram a aprimorar os pontos de contato que tiveram com ele.

Você acha que, por ser tão enciclopédico ao registrar essas informações, tem uma memória melhor acerca do seu passado?
Na verdade, acho que os Relatórios, quando finalizados, meio que substituem minha memória daquele ano. Claro que tenho memórias que não foram inclusas neles. É trivial, mas lembro bem em que ano fiz que viagens, porque posso conferir no Relatório. Meu repositório da memória do ano é o Relatório, então é uma espécie de cérebro exterior. Quando você escreve uma memória o bastante, isso se torna a própria memória.

Fazer isso deve exigir uma disciplina enorme.
Não sei o quão notório isto é para o público, mas há um aspecto artístico no trabalho. Eu me comprometo, é uma maratona, tenho certeza de que vou conseguir fazer algo durante o ano todo - mas tenho várias lembranças vívidas, de estar no banho, calculando quanto já passou do ano, "faz três meses que o ano começou, só tenho que fazer isso mais três vezes, vai acabar..."

O que me fez continuar é simplesmente saber que o Relatório, na verdade, é algo a que ninguém mais tem acesso, é um fator único, muito interessante. Farei isto apenas por um ano, e será um registro incrível do que está acontecendo no momento.

Só o livro que editei com todas as minhas conversas – um livro de 400 páginas, quase uma bíblia, que encapsula o ano –, só olhar para ele, sem sequer ler, apenas olhar, e perceber que eu poderia visitar qualquer dia do ano e basicamente revivê-lo por meio das minhas conversas, é algo muito poderoso.

É uma metaexperiência da sua própria vida. É difícil lidar com isso? Como você se sentiu no dia 1 de janeiro de 2014, quando estava livre para ter conversas sem documentá-las?
Fiquei um pouco chocado por algumas semanas. Isso aconteceu em vários anos, faço algo por um ano inteiro, entro num certo estado, fico tão treinado que viro um cachorro pavloviano. Especialmente com cumprimentos. Eu estava com as antenas ligadas para qualquer "olá" ou "oi".

Mas você alterna anos fáceis com anos difíceis, não?
De uns anos para cá, tenho pensando em fazer disso tudo um projeto de dez anos. O Relatório de 2013 é o nono, e estou no processo de coleta de dados para o último agora. Concluir com algo grande – parece ser a hora certa para isso.

O Relatório é abastecido com minha curiosidade, e sinto que as coisas que podem ser capturadas estão acabando. As conversas foram uma das últimas grandezas do Relatório, então o impulso para explorar uma nova procedência de dados foi algo bem empolgante para mim. Foi o que me fez seguir em frente.

Qual é a sua Baleia Branca agora? O que vai além de conversas – pensamentos?
Sim.

Se fosse possível, você faria isso?
Talvez. Não sei, pensamentos incluem tudo o que está acontecendo, os pensamentos que fazem parte desta conversa, ou são apenas os pensamentos particulares?

O relatório dos sonhos seria incrível. Seria tão incriminatório. Seria a coisa mais radioativa. Tipo: "Aqui está o Relatório Anual dos seus sonhos." E eu diria: "Queimem isso!"

Você conseguiria fazer um Relatório de sonhos com facilidade.
Todos os lugares que frequentei, todas as pessoas, todas as amantes, todas as celebridades que encontrei...

Vivemos em um mundo diferente daquele em que você começou a compilar os Relatórios. A ideia de coleta de dados é inextricável da realidade. Não dá para saber quantos dados são colhidos, sem nosso conhecimento, por corporações, sites e o governo. Isso mudou a maneira como você vê os Relatórios?
Como alguém que trabalha fazendo ferramentas para ajudar pessoas a coletar mais dados sobre si, sim, digo que 2013 foi um ano desafiador, e 2014 tem sido muito desafiador. Não é mais uma brincadeirinha, é um jogo de adultos.

A trajetória do meu trabalho mudou. Acho que antes eu via a coleta de dados em termos muito mais utópicos, talvez ingênuos: imaginava que todos teriam acesso a seus dados pessoais, um registro incrível de suas experiências, aberto para pesquisa, e imaginava que as possibilidades narrativas seriam infinitas. Agora, vejo bem mais cálculos sobre a existência de dados, e se os benefícios e os possíveis imprevistos se equilibram.

Eu quase trocaria minha privacidade por dez anos de lindos gráficos sobre a minha vida.
Com qualquer tecnologia potente, a pior coisa a fazer é enfiar a cabeça na areia e ignorar sua existência, ou tentar acabar com ela.

Os seus dados de localização provavelmente são salvos por várias corporações-barra-agências. No entanto, você não tem acesso a essa base. E se você tiver acesso, talvez durma pior à noite, mas ao menos estará ciente do que é coletado.

O que você está preparando para 2014?
2014 é um ano fácil. Como é o ano final, estou tentando fechar o círculo e ver o que posso fazer com todos os instrumentos disponíveis no mundo. Tentei me munir o máximo possível com rastreadores de atividades: tenho uma pulseira FuelBand, um rastreador da Basis, um rastreador no meu telefone, um bafômetro que uso todo dia para acompanhar a taxa de álcool no sangue, e meu carro é todo instrumentalizado.

Não importa quão intenso for seu Relatório, parece que você tende a deixá-lo sempre bem sutil. É de bom gosto. Você não anda por aí com uma câmera amarrada na cabeça.
Realmente busco o viés de observador quando faço coisas do gênero. Sempre tento elaborar abordagens que cataloguem minha vida da maneira mais natural possível.

Você acha que é possível criar um Relatório totalmente objetivo?
O objetivo primário é fazer o Relatório refletir minha experiência de vida, então se eu tiver alguma dúvida a respeito de um conjunto de dados, ou não reconhecê-lo, sei que fiz algo errado, ou que os dados não são interessantes. É legal ter esse programa de testes embutido para descobrir se algo está funcionando, e isso só é possível, basicamente, porque são os dados que eu vivi.

A TRAJETÓRIA DO MEU TRABALHO MUDOU. ACHO QUE ANTES EU VIA A COLETA DE DADOS EM TERMOS MUITO MAIS UTÓPICOS, TALVEZ INGÊNUOS.

Você acessa os dados e monitora seu comportamento, ou você só olha tudo quando está completamente concluído?
A segunda opção. Minha regra era começar a análise só dia 2 de janeiro. Eu descansava dia primeiro, e então colocava as mãos à obra. Os conjuntos de dados estão ficando muito grandes, impossíveis de administrar, então tive que começar mais cedo. Mas ainda não estão no estágio em que consigo enxergar os padrões.

Ultimamente, levo um mês para chegar a esse ponto, e por isso não geram uma mudança de comportamento, porque é um mecanismo de feedback extremamente lento. É como ir ao médico uma vez por ano.

E quanto ao futuro?
Gosto muito da minha abordagem de dez anos. Estou observando o que há por aí, vendo se o sonho do Feltron, de dez anos atrás, foi realizado, e até que ponto. Acho que o primeiro ano de folga será interessante.

Acho que há um asterisco estilo Michael Jordan no caso. Se a curiosidade me atiçar, não descarto a possibilidade de sair da aposentadoria e fazer outro Relatório. Se surgirem sensores incríveis de sonhos no mercado, provavelmente será irresistível.

Tradução: Stephanie Fernandes