O monitoramento das redes sociais pelos principais centros urbanos do mundo não utiliza apenas informações públicas. Vai muito além. Crédito: irill_makarov/Flickr

​A polícia está fazendo muito mais do que ler seus tuítes

O monitoramento das redes sociais pelos principais centros urbanos do mundo não utiliza apenas as informações públicas. Vai muito além.

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out 27 2016, 12:03pm

O monitoramento das redes sociais pelos principais centros urbanos do mundo não utiliza apenas informações públicas. Vai muito além. Crédito: irill_makarov/Flickr

Seus amigos não são os únicos que seguem seu Facebook e seu Twitter: a polícia também está atenta à sua vida digital.

Sim: autoridades policiais do mundo todo utilizam softwares de monitoramento de redes sociais para vigiar grupos. Eles analisam posts e tuítes a fim de ter uma visão geral do que, digamos, os usuários de uma determinada área estão falando. Tuitando de um estádio Olímpico? Compartilhando um post com uma hashtag em apoio ao Black Lives Matter? Surpresa, a polícia está de olho em você.

À primeira vista, talvez você não se incomode com a ideia. Cada um de nós escolheu, voluntariamente, disponibilizar essas informações publicamente, certo? O problema é que o acesso da polícia às redes sociais não é tão inofensivo.

"Monitorar redes sociais vai muito além do que se imagina", disse Amie Stepanovich, especialista em regulamentação do grupo ativista Access Now. "Programas de monitoramento raramente utilizam a análise manual de informações públicas."

Na verdade, diz Amie, esses programas têm como objetivo revelar novas e diferentes informações sobre o conteúdo produzido por um grupo ou indivíduo. Esse dado pode ser o "humor" do grupo em questão que, por sua vez, pode ser utilizado para prever, por exemplo, uma futura crise ou protesto.

"Monitorar as redes sociais para prevenir e detectar crimes é um desafio, em grande parte por causa do volume de material produzido em plataformas como o Twitter e o YouTube", disse um porta-voz da Polícia Metropolitana de Londres, na Inglaterra. O MPS é um grande adepto do uso de ferramentas de monitoramento de redes sociais.

Os grandes aliados do MPS – e outras polícias que possuem análises sofisticadas – são softwares que podem determinar a localização de uma pessoa com base nos dados de geolocalização anexados a seus posts. Eles também analisam outros metadados que os usuários não sabem estar disponibilizando.

"O acesso das autoridades policiais às mídias sociais é diferente do acesso do público civil", disse Rachel Levinson-Waldman, conselheira sênior do Brennan Center for Justice, instituição da Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque, por telefone. De acordo com o The Daily Dot, a Geofeedia, uma ferramenta de monitoramento de redes sociais particularmente popular, utiliza perfis falsos para dar mais informações a seus clientes. Esse serviço parece ter como foco indivíduos específicos.

Ao que tudo indica, esses programas dependem do acesso irrestrito aos dados gerados nas redes sociais, o que garante o acesso a informações que não estão disponíveis aos usuários comuns.

Semana passada, o Facebook, o Instagram e o Twitter bloquearam o acesso da Geofeedia a seus dados após a ferramenta ter sido utilizada para monitorar protestos provocados pela morte de Mike Brown, um jovem americano negro. Em alguns casos, fotos postadas em redes sociais haviam sido analisadas por sistemas de reconhecimento facial.

"Monitorar majoritariamente grupos formados por minorias e utilizar hashtags relacionadas a movimentos de protesto reais são, na minha opinião, práticas muito problemáticas", disse Levinson-Waldman.

Falhas de vigilância

Assim como qualquer outro serviço de vigilância, o monitoramento de redes sociais tem suas falhas. E quando pessoas inocentes acabam levando a pior, o problema fica ainda mais evidente.

Em 2012, dois jovens britânicos foram presos em Los Angeles, nos EUA, após tuitarem que iriam "destruir a América". A dupla estava, no entanto, usando gírias para expressar sua intenção de ir a muitas festas.

Levinson-Waldman descreveu a questão do contexto como um "obstáculo quase intransponível". "Isso não quer dizer que essas ferramentas estão sempre erradas, mas é improvável que elas consigam compreender o contexto de todas as situações", disse ela.

"Tentar determinar o que cada comentário ou post significa; o que curtir algo significa; o que retuitar algo significa; acho que é muito importante ter cuidado com as informações que tiramos dessas interações."

Tradução: Ananda Pieratti