Quantcast
A Rádio Haitiana de Ciência que Funciona no Brasil

A história de Jacssone e Ludger, os haitianos radicados no Brasil que comandam um programa de rádio acessado por seus conterrâneos daqui, do Haiti e de outros cantos do planeta.

Há seis meses os haitianos Jacssone Alerte, de 31 anos, e Ludger Jean Louis, 30, têm comparecido menos às missas e ao futebolzinho de domingo no Rio de Janeiro. Moradores da capital carioca há mais de cinco anos, a dupla tem usado o dia das rezas e dos gols para gravar, dentro de um pequeno estúdio no bairro da Glória, um programa online de rádio sobre ciência e tecnologia voltado a seus conterrâneos — o Infotech. "Jogar bola e ir à missa são fundamentais para unir as pessoas", diz Jacssone, em bom e pausado português. "Mas nosso projeto tem missão parecida: ajudar os haitianos a se integrar à sociedade brasileira."

Nas transmissões semanais, os imigrantes falam de assuntos que vão da história da inteligência artificial à reciclagem do plástico. Os dois também recebem convidados para tratar de temas atuais como energia renovável e internet das coisas. O importante é descomplicar tópicos relevantes do mundo científico para o povo haitiano. "Se for pra falar de medicina, a gente fala de coisas como cólera", conta Jacssone. A doença assombra o país caribenho desde o começo da década — segundo a ONU, são oito mil pessoas infectadas desde 2011.

O Infotech roda no haitiaqui.com, projeto da ONG Viva Rio dedicado a ajudar imigrantes haitianos pela internet. A página da dupla é uma das dez mais visitadas do site desde a estreia. Os acessos vêm de países que contam com grande número de haitianos, como Brasil, Estados Unidos e Argentina, além, é claro, do próprio Haiti. O programa, divido em blocos sobre história e atualidades e quadros com notícias e tutoriais, rola todo em crioulo — o idioma oficial do Haiti ao lado do francês.

Dicas de tecnologia e hacks caseiros são os trechos mais populares, afirmam os apresentadores. Em um dos programas, eles ensinam os ouvintes a recuperar celulares que caíram na água. A dica é simples: colocá-los por uns dias num recipiente com arroz. "Teve alguém que relatou pra gente que o celular tinha caído na água, mas voltou a funcionar", disse Jacssone.

O Haiti, segundo a Unicef, tem cerca de um celular a cada dois habitantes e pouco mais de metade da sua população vive abaixo da linha da pobreza. De acordo com Ludger, o aparelho telefônico é a principal maneira pela qual os haitianos se comunicam e os ouvem. "No Haiti, lan house é coisa de rico", complementou Jacssone. "Meia hora custa cinco reais!". Segundo Ludger, um notebook básico custa entre US$ 450 e US$ 500, um valor alto para a maior parte da população.

Para eles não foi muito difícil aprender a usar o equipamento da rádio. Crédito: Amaury Alves

Quando não estão envolvidos com o programa, Jacssone e Ludger se dedicam aos estudos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O primeiro está no último ano de engenharia civil, o segundo estuda ciência da computação.Os dois são bolsistas no Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G). "É a vida de estudante: simples, dura e cada centavo gasto tem que ser bem pensado", disse Jacssone. Ele chegou no Brasil em 2010, dias antes do terremoto que assolou seu país em 12 de janeiro. Ludger veio poucos meses depois. "Eu estava em processo de vir ao Brasil, mas depois do terremoto, acelerei", contou. Suas famílias sobreviveram à catástrofe. Eles seguiram por aqui e, naquele ano, se conheceram nos corredores da universidade. "O Jacssone foi um grande parceiro", disse Ludger. "Tem que ajudar os conterrâneos, né!"

"Se alguém sabe algo e não compartilha isso, é informação; se compartilha, é conhecimento"

Na terra natal, os dois tinham bastante contato com tecnologia — cada um à sua maneira. Jacssone vivia no interior, a alguns quilômetros da capital Porto Príncipe. Os equipamentos eletro-eletrônicos que tinha à disposição eram poucos e primitivos. "Uma criança que tinha 15 anos no final da década de 2000 não tinha muita coisa desenvolvida no Haiti", contou. Ainda assim, a curiosidade falava alto. "Já quebrei muitas televisões, muitos rádios porque eu queria saber o que tinha lá dentro."

Vivendo na capital, Ludger aprendeu a mexer com tecnologia por necessidade. Ele era moleque quando precisou arrumar seu primeiro computador quebrado. Recorreu a um amigo que cobrou caríssimo pelos serviços. "Na verdade, nem era meu amigo, porque ele me cobrou muito dinheiro para consertar o computador!", disse, rindo. Sem grana, o jovem fuçou o aparelho e o arrumou. Não parou mais dali em diante. Além de fazer manutenção, ele também dava aulas gratuitas de informática no seu bairro em Porto Príncipe e mantinha sua própria lan house. "Eu consertava celulares, computadores, fazia manutenção", falou.

Os dois haitianos-cariocas acreditam que o Infotech é uma maneira de ajudar seus conterrâneos, mesmo que à distância. Ambos creem que o conhecimento é uma arma fundamental contra a discriminação a que alguns haitianos estão sujeitos. "O preconceito existe há muito tempo e o haitiano que está aí fora tem de estar preparado para o tratamento que vai receber", disse Jacssone. "Quem não está bem preparado, acaba marginalizado."

O futuro engenheiro sabe que a luta contra o preconceito gerado até pelo medo irracional do ebola não depende só dele e de seus compatriotas. Durante nossa conversa, Jacssone lembrou do vídeo que pintou esses dias no Facebook e no YouTube em que um homem de roupas militares dispara ofensas xenófobas a um frentista haitiano em um posto de gasolina no Paraná. "Ele é um homem que fala antes de pensar", disse Jacssone. "O Brasil deve estar indignado com esse cara!"

Se depender da dupla que se descobriu radialista, a conexão Brasil-Haiti-Mundo continua firme de domingo a domingo. Para eles, coisas simples como um celular recuperado ou temas rebuscados como inteligência artificial podem ajudar um jovem haitiano em qualquer lugar do mundo, no dia-a-dia ou nas provas finais. Embora tenham batizado o programa de rádio como Infotech, Jacssone e Ludger botam fé no saber que se espalha. "Se alguém sabe algo e não compartilha isso, é informação; se compartilha, é conhecimento", disse Jacssone.

Foi nesse espírito que o haitiano arrematou nossa conversa. "Acho que o Infotech vai longe, muito longe, e você vai ter a honra de dizer: eu fui o primeiro jornalista a falar sobre o programa."

Só me restou, além de desejar boa sorte nesse projeto inspirador, agradecê-los. Muito obrigado, falei. Ou como eles me ensinaram depois: "méssi anpil"!