​Advogado diz que site de pornografia infantil funcionou melhor com o FBI

O argumento da defesa do dono do site de pornografia infantil é que, a fim de infectar computadores de abusadores, agência americana deixou a página mais rápida – o que seria, diz, "ultrajante".

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ago 29 2016, 3:17pm

Crédito: get directly down/Flickr

Em fevereiro de 2015, o FBI assumiu o controle do Playpen, o maior site de pornografia infantil da deep web naquele momento. Em vez de fechar o site, porém, a agência policial o manteve em funcionamento por cerca de duas semanas para enviar malware a seus visitantes com a esperança de identificar suspeitos em sua investigação.

Novas evidências arquivadas no processo sugerem que o site funcionava substancialmente melhor sob o controle do FBI, e os usuários comentavam sobre as melhorias. Os advogados de defesa do homem acusado de ser o administrador original do Playpen afirmam que essas melhorias tornaram o site ainda mais popular.

"O FBI distribuiu pornografia infantil para exibição e download no mundo inteiro por quase duas semanas, pelo menos até 4 de março de 2015, trabalhando inclusive para melhorar o funcionamento do site e aprimorar suas capacidades originais", escreveu Peter Adolf, assistente da defensoria federal do Distrito Oeste da Carolina do Norte, num pedido para que as acusações contra seu cliente sejam retiradas.

"O resultado é que o número de visitantes do Playpen cresceu de uma média de 11 mil visitantes por semana para 50 mil visitantes por semana quando o site estava sob controle do governo. Durante essas duas semanas, o número de membros cresceu mais de 30%, o número de visitantes únicos semanais mais do que quadruplicou, e aproximadamente 200 vídeos, 9 mil imagens e 13 mil links para pornografia infantil foram publicados no site", continuou Adolf.

"Agentes do governo trabalharam duro para melhorar a capacidade do site de distribuir grandes quantidades de pornografia infantil de forma rápida e eficiente"

De acordo com o histórico de mensagens do Playpen arquivadas junto ao pedido de Adolf, usuários estavam reclamando da lentidão do site mais ou menos na época em que foi tomado pelo FBI.

"Tive dificuldade para entrar no site o dia inteiro, demorou anos só para mandar esta mensagem, então imagino que seja um problema no servidor. Desejo boa sorte com o conserto", escreveu um usuário chamado "verycute" [muitobonitinho] no dia 21 de fevereiro de 2015.

Pouco depois, no dia 23 de fevereiro, alguém em controle de uma conta de administrador do Playpen escreveu: "Eu fiz um upgrade do Token Ring para Ethernet há uma hora e as coisas parecem estar funcionando um pouco melhor." (Um Token Ring é um tipo específico de configuração de rede.)

Não está totalmente claro se o FBI estava em controle dessa conta, mas isso é o que Adolf insinua.

De qualquer maneira, os usuários logo perceberam os efeitos da mudança.

"Sim, está funcionando muito melhor agora!", um usuário respondeu.

"Está funcionando RÁPIDO hoje :-)", escreveu outro.

"Agora tudo está rodando muito bem! :D", um terceiro respondeu. "Tomara que continue assim!???"

Uma captura de tela da versão arquivada de mensagens no fórum do Playpen incluídas nos documentos do processo

O pedido de Adolf continua: "De fato, agentes do governo trabalharam duro para melhorar a capacidade do site de distribuir grandes quantidades de pornografia infantil de forma rápida e eficiente, resultando num maior número de usuários recebendo mais pornografia de maneira mais rápida do que eles recebiam quando o site estava operando 'ilegalmente.'"

É aí que vem o argumento de Adolf para que a queixa contra seu cliente seja retirada: repetindo a tese dos advogados de defesa de outro caso, ele afirma que o FBI teve uma "conduta ultrajante" ao distribuir pornografia infantil numa escala enorme. Esse tipo de atividade executada por agentes do governo durante uma investigação pode ser um motivo suficiente para que a queixa seja retirada se, como Adolf escreve, a conduta é "chocante" e "ofensiva às noções tradicionais de equidade fundamental." (Um juiz anteriormente sentenciou que a operação não era considerada conduta ultrajante.)

O que é novo aqui é a afirmação da defesa de que o FBI deliberadamente melhorou o funcionamento do site para seus usuários e que isso, por sua vez, levou mais pessoas a se tornarem membros do Playpen. Adolf não oferece evidências concretas para essa aparente causalidade, mas aponta para as mensagens arquivadas do Playpen que indicam que houve melhorias.

Em julho, o Departamento de Justiça escreveu num documento processual que até agora 186 pessoas foram acusadas como parte dessa investigação. O Motherboard descobriu que o FBI hackeou mais de 4 mil computadores, inclusive em países distantes como o Chile e a Áustria.

Em documentos processuais de outros casos relacionados a esse, arquivados na segunda-feira, advogados de defesa fizeram uma "estimativa conservadora" do número de imagens ilegais distribuídas pelo FBI durante sua operação no Playpen: 1 milhão.

Christopher Allen, um porta-voz do FBI, se recusou a comentar em processos em andamento.