Por que as Pessoas Ainda Acreditam em Astrologia?

Conversamos com o astrônomo e professor de História da Ciência da USP, Amâncio Friaça, em busca de respostas sobre o que há de científico por trás dos fenômenos astrológicos.

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22 julho 2015, 10:24pm

O professor nos recebeu no IAG/USP e posou para foto na frente de um símbolo do seu signo, Sagitário. Crédito: Guilherme Santana/VICE

De uns tempos pra cá, passei a me interessar por astrologia. Leio religiosamente o horóscopo da Susan Miller e todo mês fico assustada quando ela acerta as previsões. No meio dessa brincadeira, me perguntei se havia alguma ciência na coisa. Existe aquela suspeita de que quem escreve o horóscopo dos jornais são os estagiários e que tudo não passa de uma zoeira cósmica, mas por que será que tanta gente se identifica? E tem aquela história de que cientistas renomados como Newton e Kepler eram astrólogos. Como explicar?

Em busca de respostas, conversei com o astrônomo e professor de história da ciência do Instituto de Astronomia e Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG), Amâncio Friaça, que é sagitariano e, embora seja cético em relação a horóscopos, me confirmou a existência de uma base científica para alguns fenômenos do zodíaco, como o dos planetas retrógrados. A astrologia, diz ele, não é mais considerada uma ciência, mas já foi casada com a astronomia. Hoje se resume a um apelo psicossocial e simbólico. "A astrologia é como um instrumento para o desenvolvimento da racionalidade e tem um papel muito importante no desenvolvimento do pensamento crítico", ele me falou.

Amâncio tem um grande interesse pela antropologia, por civilizações antigas e por história. Ele se considera um estudioso informal desses assuntos. Batemos um papo em sua sala lá no IAG sobre magia, o sol, a lua, Vênus e várias fitas que o pessoal de humanas curte (e que o pessoal de exatas também pode começar a pirar).

O professor Amâncio no IAG/USP. Crédito: Guilherme Santana/VICE

Motherboard: Além de astrônomo, o senhor é astrólogo também?

Amâncio Friaça: Não, mas tenho muitos amigos astrólogos.

O senhor dá aula de história da ciência. Como a astrologia entrou nessa história?

Ela entra porque existe uma relação entre o que está no céu e o que está na Terra. A astrologia começa junto da astronomia. A distinção entre essas duas palavras, astronomia e astrologia, é recente, do final da Idade Média para começo do Renascimento. Até então, não tinha uma cisão entre as duas. A partir desse momento, a humanidade nota algo muito interessante, dois planetas bem brilhantes: Vênus e Júpiter. Quando começamos a perceber que existem planetas, ou seja, pontos que se deslocam em relação às estrelas, atingimos um grau de sofisticação empírica e, depois de uma matemática razoável, começamos a construir ciclos para isso. É natural que imaginemos uma relação entre os movimentos dos astros e os acontecimentos da Terra.

Alguns dos movimentos dos astros têm influência nos nossos signos, na nossa rotina?

Quando você fala "eu sou do signo de Sagitário" significa que nasceu naquele momento quando o sol, no hemisfério norte, estava chegando perto do solstício de inverno, que é o ponto onde você tem a noite mais longa no hemisfério norte. Depois desse ponto, as noites começam a ficar mais curtas e os dias mais longos. Você falar que é de um signo significa que é desse terço dessa estação. Você vê os planetas como marcadores temporais. O próprio Timeu, do Platão, tem isso. Ele diz que os números do tempo foram conhecidos por causa dos astros. Um dos números com que a gente está acostumado é o ano, outro é o mês. Agora, existem outros mais sutis. Como Vênus.

Como assim?

Digo que o verdadeiro começo da astronomia é quando você começa a observar o ciclo de Vênus. O ciclo de Vênus não é de um ano; no ciclo de Vênus se verifica os estados entre estrela vespertina e matutina. Agora está visível como estrela vespertina, depois do pôr do sol, daqui algum tempo ela vai estar sendo visível como estrela matutina e esse ciclo é 1,6 anos [cerca de 19 meses]. Se você pegar 1,6 anos e multiplicar por cinco, você obtém oito anos. Se você pega esses cinco ciclos em oito anos, vai traçar uma estrela de cinco pontas no céu, que é o símbolo que é adotado para a magia. Sempre que você traça um pentagrama nesses filmes classe B de magia você está trazendo uma tradição muito antiga, dos rituais associados a Vênus, que foi o primeiro astro reconhecido, além do sol, da lua e das estrelas.

Se não tivesse um apelo simbólico e racional profundo, a astrologia não seria tão forte

E desde quando tem esses rituais associados a Vênus?

Os rituais antigos eram vistos como ligados à deusa Vênus. Aí tem toda aquela história, de como os ciclos de Vênus foram demonizados. O pentagrama é o símbolo da magia, símbolo das bruxas, que continuam a tradição das sacerdotisas de Vênus. Isso era praticado na Mesopotâmia. Quando chegaram os invasores acadianos, que falavam outra língua, que não era a dos sumérios, eles parcialmente fizeram uma matança e parcialmente absorveram a cultura. Deram uma continuidade na tradição astronômica. Vênus se tornou a deusa principal, ligada ao feminino, à agricultura. Depois, outras facções, outros ramos dos acadianos adotaram uma tradição monoteísta, e aí Vênus foi demonizada. O nome Lúcifer é um dos nomes de Vênus. Os gregos antigos não davam nomes de deuses aos planetas. Eles davam aos planetas nomes de modalidades da luz. Por exemplo, Júpiter era Faeton, que é resplandecente, Vênus era Phosphorus, o portador da luz —Lúcifer também é o portador da luz. Os deuses antigos de uma civilização se tornaram demônios na civilização que veio por cima. Esse processo sempre acontece.

No mapa astral, você tem um signo em Vênus. O que isso significa?

É o seguinte: quando você faz um mapa astral, aquela roda que você traça é a eclíptica, que é o plano do sistema solar visto da Terra num referencial sideral. Os antigos imaginaram que, se está tudo numa linha reta, essa linha reta é um círculo se você vê de fora. Os signos são divisões da eclíptica a partir do ponto de cruzamento entre o equador celeste e eclíptica, onde ficam os planetas e o sol. Onde o céu está limpo dá para ver Vênus e Júpiter. Para lá está Saturno. Os três traçam um círculo. Esse círculo é o plano do sistema solar. Naquela roda zodiacal você pega o ponto onde começa a primavera no hemisfério norte, onde fica o zero de Áries. Anda mais 30 graus, é zero de Touro. Anda mais 30 graus, zero de Gêmeos. Os signos são divisões da eclíptica a partir do começo da primavera no hemisfério norte, portanto, são divisões do tempo também e são regiões do espaço. Então, quando você diz que tem Vênus...

Mostrei meu mapa astral para o professor e agora também não tenho nada a esconder de vocês.

Em Gêmeos, no meu caso.

Em Gêmeos, significa que, quando você nasceu, Vênus estava nessa região do céu em que era de Gêmeos. Para achar Vênus, você faz como eu falei, pega o ponto zero de Áries, que é quando começa a primavera no hemisfério norte. Em que grau está, você lembra?

Não lembro, mas posso abrir aqui.

Em que dia você nasceu?

Nove de julho de 1993.

Então é por volta, pelas minhas contas, de 17 graus que estava o sol. Significa que ele estava nessa região do céu. Agora, no dia de hoje, tem outra configuração no céu, que vai mudando ao longo do tempo. Esse posicionamento do planeta, digamos, é outra marca para o teu momento, além daquela que é dada pelo sol e pela lua. Se o sol e a lua estão ligados a estações e fases, nada mais lógico do que imaginar que esses estados dos planetas também estejam ligados a várias fases.

Quem se interessa por astrologia fica preocupado com o fenômeno do Mercúrio retrógrado, porque dizem que ele faz as coisas darem errado, mexe com a rotina das pessoas. Como se explica esse fenômeno?

Os planetas têm um sentido no zodíaco. Se você acompanhar semana a semana, eles vão se deslocando. Vênus está em um lugar agora, o sol se põe e tem uma estrelinha no fundo, oeste, por exemplo. Daqui uma semana, ela se desloca um pouquinho para leste. Esse é o deslocamento mais comum. Mas às vezes, ela faz um deslocamento em relação ao fundo das estrelas, em relação ao oeste. Esse movimento, em relação ao oeste, é chamado retrógrado. Ele é uma consequência do fato de que a gente está vendo o planeta a partir da Terra, que está em movimento. Quando a Terra está em certo ângulo em relação ao planeta, vejo o movimento do planeta como direto. Quando a Terra está em outro ângulo, vejo o movimento do planeta enquanto retrógrado. Você vê a ordem dos planetas? Esse é o sentido do zodíaco. O movimento direto é você andar no sentido dos signos, o movimento retrógrado é andar no sentido contrário.

O professor Amâncio teve que desenhar para que eu pudesse entender o que exatamente rola com o Mercúrio retrógrado.

Como os fenômenos astrológicos passaram a ter alguma significação? Por exemplo, sou do signo de Câncer e tenho tais características específicas.

Isso é uma simplificação. Se você perguntar para um astrólogo, ele vai dizer que você tem que fazer um mapa completo. Hoje em dia é fácil porque tem tecnologia. No Renascimento, essa tecnologia começou a ficar disponível. Os astrônomos calculavam e usavam livros, chamados de efemérides, para fazer cálculos individuais. Antes do Renascimento era muito difícil fazer o próprio cálculo. Só pessoas muito especiais, como governantes, tinham acesso a mapas astrais individuais.

Para que era utilizado o mapa astral?

Para prever acontecimentos futuros, fazer prognósticos. Será que esse ano vai ser seco? Será que vai chover muito? Será que a chuva vai vir mais tarde? Será que meu inimigo vai me atacar? Será que alguém vai querer me esfaquear? Era preditivo. Depois que veio a ideia de autoconhecimento.

Depois do Renascimento, com a ideia de individualidade?

Exatamente. A partir do Renascimento, quando você tem algo tecnológico, você tem cálculos que se tornaram mais precisos. Depois você tem a imprensa, que permitiu distribuir esses cálculos. Simultaneamente, você tem o surgimento do indivíduo. Tem uma forte correlação entre a tecnologia vigente e do surgimento do indivíduo, isso são tecnologias intelectuais. Não é uma enxada, não é um arado. Uma efeméride é uma tecnologia, como um mapa, como um relógio, são tecnologias intelectuais, que levam ao processo de reflexão, a um processo de construção mental.

Nesse momento do Renascimento que a astrologia passou a ser diferente da astronomia?

Isso.

O que aconteceu nesse momento?

A culpa é de Galileu. Ele fez uma unificação entre céu e terra. Antes dele, não existia distinção entre céu e terra, você tinha uma mesma física que se aplicava aos dois domínios. Era um domínio só, que era o domínio da física. O Copérnico já tinha transformado a Terra em um planeta. É claro que na antiguidade havia pensadores que pensavam na Terra como um planeta, que a Terra girava em torno do sol, mas foi Copérnico que tornou essa visão difundida. O passo seguinte foi dado por Galileu, que estabeleceu a física única entre céu e terra. Desse ponto de vista, só existe uma coisa, que é o céu. Todas as coisas são imersas em um vasto céu, a Terra inclusive. Então, se deu ênfase a mecanismos causais entre uma coisa e outra. Simplesmente não havia física que fosse consistente para os pressupostos da astrologia.

Por quê?

Porque você distingue uma série de fenômenos de causa e efeito. Os fenômenos de causa e efeito que são vistos diante da física de Galileu são restritos. Como a física de Galileu se tornou aquela que permite você entender relações de causalidade, que dá uma base física para essas relações, a astrologia foi cada vez mais vista como algo separado. O próprio Galileu tinha um desprezo pela astrologia. As críticas à astrologia são antigas, vêm desde a Idade Média, são críticas da relação de causa e efeito.

Para a astrologia fazer sentido, ela teria que oferecer um corpo paradigmático que até hoje ela não conseguiu oferecer

Mas existia uma matemática e uma física por trás da astrologia?

Não, a matemática é a matemática de fazer contas e prever. O grande problema é que não tinha uma física. Galileu que chegou com uma física. Não estou dizendo que é a única física, mas ela se tornou tão convincente que os argumentos a favor da astrologia se tornaram pouco convincentes. Você pensa, o sol tem uma relação direta por meio da radiação e da gravidade e a lua pela gravidade. Então, isso é uma questão de um corpo paradigmático. Isso não significa que a astrologia esteja errada, mas de repente vem um corpo paradigmático dentro do qual ela não se encaixava. E esse corpo paradigmático se tornou dominante. Aí tem muitas sutilezas. A culpa é e Galileu! Não de Descartes [considerado o "pai da matemática moderna"].

A banalização da astrologia foi culpa de Galileu?

Exatamente. Esse caráter pejorativo da astrologia é bem culpa dele. A física dele depois foi se ampliando. Newton a ampliou tremendamente. Newton coloca uma categoria que é a ação e a distância, da força gravitacional, que Galileu não aceitava. Para Galileu, para você explicar o movimento dos astros, você tinha que ter uma conexão mecânica, como as rodinhas do relógio, mesmo que essas rodinhas fossem invisíveis. Newton falou da força gravitacional. Isso foi algo absolutamente revolucionário. Tanto é que a teoria da gravitação dele é uma das mais fundamentais da ciência. O que a gente chama de buraco negro é decorrente da teoria da gravitação. Na verdade, o que aconteceu: você instalou um domínio, um domínio mal julgado da magia, que foi colocado cada vez mais afastado daquele conjunto de argumentos que tornam possível vencer uma discussão. Toda vez que você colocava um astrólogo e um cientista galileano discutindo, o astrólogo não tinha mais argumentos convincentes.

Então a astrologia passou a ser mais uma crença?

Isso, ela começou a ser julgada como uma crença.

Em que culturas essa crença da astrologia surgiu?

É muito antiga. Existem símbolos astronômicos em cavernas paleolíticas.

Astronômicos ou astrológicos?

As duas coisas estavam juntas. Como está junto de cenas de caçada provavelmente é de se esperar que já havia uma relação entre o acontecia no céu e o que acontecia na terra. São os primeiros registros, uma fração dessa primeira astrologia. Se você for entre os povos indígenas ou os xamãs, eles não têm registros em cavernas. Os registros são os relatos orais e alguma coisa gravada em materiais orgânicos que se decompõem. Pelo que tudo indica, a partir do momento em que o ser humano teve arte, ele também teve o conhecimento astronômico e astrológico. Você tem ossos de mamute que são gravados com efemérides de planetas. Há 20 mil anos atrás, já se tentava calcular o movimento de Vênus.

Mas ela já foi ciência?

Você pode dizer que foi a ciência máxima em um determinado momento. A palavra "ciência" é muito antiga, de antes de Galileu. Tanto que Kepler era astrólogo, Newton era astrólogo também. Para a astrologia fazer sentido, ela teria que oferecer um corpo paradigmático que até hoje ela não conseguiu oferecer. Esse "fazer sentido" não significa fazer sentido em relação ao sentido da vida, mas para ela ter argumentos muito fortes e que sejam de difícil refutação para explicar como ela funciona. Isso, nesse momento, não tem. O que não quer dizer que não venha a ter no futuro.

Como é sua relação com astrólogos?

Super boa.

Melhor com os astrólogos ou com os astrônomos?

Me dou bem com todo mundo. Tem alguns astrólogos que ficam bravos comigo porque eles defendem muito a cientificidade da astrologia. Por outro lado, tem um bom número de astrólogos que sabe que a astrologia é outro tipo de posicionamento perante o mundo. É diferente daquilo que a gente costuma chamar de ciência. Mas as fronteiras da ciência sempre estão se ampliando, apesar de levar um século para acontecer uma mudança radical.

Qual é a maior diferença entre a astrologia e a astronomia?

É a física. A astronomia, essencialmente, desde Galileu, toda a astronomia é uma astrofísica. É uma coisa que as pessoas não enfatizam. Astrologia é um corpo simbólico. Nesse sentido, a gente deve estudar. O modo como a gente organiza os pensamentos é baseado em toda essa história conceitual e milenar da astrologia. Não é uma coisa que existiu sempre, mas uma coisa que existe há muito tempo, alguns milênios atrás.

Posso dizer que a astronomia se derivou da astrologia?

Pode dizer isso, houve um divórcio.

Uma das minhas preocupações é que existe uma subordinação de todas as ciências às ciências sociais, como se elas fornecessem a última explicação

E como você definiria a astrologia hoje? O que ela é?

Eu diria que um fenômeno psicossocial e simbólico. É tremendamente importante, por isso que a astrologia continua bem forte hoje em dia. Se ela não tivesse um apelo simbólico e racional profundo, não seria tão forte. Apenas que a gente, com a ciência de Galileu, criou todo um conjunto de argumentos que não são mais aqueles que podem ser usados num debate em que os astrólogos ganham. Mas como tem astrólogos extremamente cultos, alguns debates eles ganham também.

Com quais argumentos eles ganham?

Um pouco do que eu falei, da realidade simbólica.

O senhor é cético com relação à astrologia?

Sou cético porque falta um grande paradigma que explique como ela funciona. Não é um ceticismo absoluto, se aparecer o grande paradigma... Eu nem sou muito cético, porque eu não gosto dessa palavra, eu sou cuidadoso.

Em horóscopo o senhor não acredita?

Não.

Em que o senhor acredita?

Acredito que quando sonho, sonho com símbolos astrológicos. Sonho com pontos no céu, o que mostra que está muito arraigado dentro da minha psiquê. Uma das minhas preocupações hoje é que existe uma subordinação de todas as ciências às ciências sociais, como se elas fornecessem a última explicação. O modo de tornar isso um pouco menos ditatorial é pensar em termos psicossociais. Temos algumas coisas dentro de nós que são estruturais e existem interações com a sociedade por meio de linhas da história absolutamente aleatórias e resultantes de uma interação com o ambiente complexo e sempre movediço.