​Ishiguro e seu Geminoid. Crédito: Intelligent Robotics Laboratory, Osaka University

​O Homem que Constrói Robôs para Compreender Melhor os Seres Humanos

"Não nos importamos tanto com a diferença entre humanos e robôs.”

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abr 17 2015, 9:00pm

​Ishiguro e seu Geminoid. Crédito: Intelligent Robotics Laboratory, Osaka University

Imagine uma cena no futuro, onde você trocou o seu amante ou amigo de carne e osso por uma versão automatizada. Haverá um tempo que os robôs serão tão "humanos" a ponto de que não pensaremos duas vezes antes de termos um relacionamento com eles, ou mesmo não os distinguiremos mais de nós mesmos? Hiroshi Ishiguro, criador de robôs de renome no Japão e uma espécie de celebridade menor, crê que sim.

"Os japoneses tem definições bem amplas sobre o que é ser humano. No Ocidente, há maior ênfase no 'eu' e se diferenciar dos outros. Acho que as pessoas estariam mais inclinadas a definir o que é ser humano [no Ocidente]", disse Ishiguro durante conversa no Skype. "Mas no Japão não fazemos isso. Por isso criamos robôs mais humanos, porque não nos importamos tanto com a diferença entre humanos e robôs."

Ishiguro, diretor do Laboratório de Robótica Inteligente da Universidade de Osaka, passou boa parte de sua vida criando e dando vida a uma série de androides fotorrealistas, de aparência incrivelmente semelhante a de modelos humanos. Por exemplo, temos o Geminoid HI-2 criado com base no próprio Ishiguro; o Geminoid F baseado em uma mulher japonesa; e um protótipo anterior de seus androides foi até mesmo baseado em sua filha.

"Tento entender as pessoas ao criar robôs realistas."

Grandes laboratórios de robótica pelo mundo tem se dedicado a criar robôs que em pouco se assemelham a seus criadores humanos, priorizando a funcionalidade e não a forma. Mas por que Ishiguro escolheu criá-los à nossa imagem e semelhança? No final das contas, ele diz, tem a ver com como definimos o que é ser humano e noções de individualidade.

"O Japão é uma ilha isolada, e temos nossa própria cultura", disse Ishiguro, fazendo referência à antiga religião Shinto como exemplo. "[No Shinto], não distinguimos seres humanos e coisas. Acreditamos que tudo tem alma. Eu creio, por exemplo, que computadores, cadeiras e mesas, pedras e árvores, tem uma espécie de alma."

Esta crença influencia percepções de tal forma que objetos inanimados como os androides Geminoid são imbuídos de uma espécie de alma. E como humanos são mais suscetíveis à empatia e relacionamento com criações semelhantes a eles, argumentou Ishiguro, por que não criar robôs próximos de nós?

"Para algumas tarefas, podemos usar um robô mecânico, mas se você quiser substituir um lojista humano por um robô, as pessoas gostariam de ter robôs próximos a seres humanos", explicou Ishiguro. O objetivo, porém, não é apenas criar robôs realistas, mas entender todas as partes daquilo que constitui um humano.

"A questão sempre gira em torno do que é um humano. Tento compreender os seres humanos ao construir robôs realistas", afirmou Ishiguro, que também coloca suas criações em contextos que interagirão com outras pessoas. Em 201, a robô-feminina Geminoid F subiu ao palco e atuou ao lado de atores humanos na peça Sayonara, dirigida por Oriza Hirata. Mas após o show, os atores apontaram o tom seco da interação, afirmando que por mais que o robô tivesse voz, lhe faltava "presença".

Um ator interage com a Geminoid em Sayonara. Crédito: ​Ars Electronica/Flickr

Ishiguro não tem muita certeza daquilo que nos torna humanos e o que nos confere tal "presença". O trabalho de sua vida, disse, é dedicar-se a descobrir isso – apesar de ter comentado que provavelmente não encontraria a resposta em vida.

Por milhares de anos, humanos tem alterado seus corpos ao testar e incorporar tecnologias emergentes em suas vidas. Ishiguro argumentou que continuaremos substituindo partes de nosso corpo e colocando máquinas em seu lugar, ampliando nossas habilidades com tecnologia. Ainda assim, ele sugere que nossa busca implacável pela superação das limitações físicas de nossos corpos deriva de nosso desejo de encontrar a desconhecida "peça que nos faz humanos".

Em uma tentativa de acelerar sua jornada, Ishiguro disse que seus androides teleoperados estão prontos para passarem por uma grande atualização, graças a um fundo de 16 milhões com duração de cinco anos que acaba de receber do órgão responsável por concessões para ciência e tecnologia no Japão, ERATO.

"Deixaremos de nos preocupar com o corpo em si, mas não com a definição de humano."

No momento, o androide teleoperado de Ishiguro, Geminoid H1-2 possui sensores táteis e 50 graus de movimento, que permitem que imite movimentos humanos como piscar e agir de forma inquieta. Mas com o novo financiamento, Ishiguro pretende trabalhar em uma "arquitetura cerebral", melhorada, que também poderia criar as bases para interações mais íntimas entre humanos e robôs.

"Meu próximo grande projeto é dar aos robôs intenções e desejos, e assim que um robô estiver equipado com estes, será capaz de compreender melhor as intenções e desejos de uma pessoa. Também podemos aplicar algoritmos de aprendizado profundo para dar a um robô uma interface muito melhor, que lhe permitiria diferenciar o discurso e voz de uma pessoa. É o começo de tecnologias de IA mais avançadas", disse.

Ishiguro e seu Geminoid. Crédito: Laboratório de Robótica Inteligente, Universidade de Osaka

Os robôs de Ishiguro podem estar preparados para um novo passo, mas o professor não é daqueles que deixa os detalhes mais superficiais passarem. Um de seus objetivos é melhorar o silicone usado atualmente na pele dos robôs para que fique mais macio e seja capaz de reproduzir as texturas da pele humana, ou suas deformações a ponto de que as expressões faciais ficarão ainda mais realistas. O upgrade também deve incluir atuadores, motores e músculos artificiais melhorados que simularão movimentos musculares humanos.

Ishiguro comentou que ao passo em que os corpos físicos não desapareceriam por completo, no futuro, perderiam significado. "A definição do que significa ser 'humano' continuará evoluindo e deixaremos de nos preocupar com o corpo em si, mas não com a definição de humano", disse, mas adicionou que esse papo de Singularidade e upload de cérebros para computadores ainda está meio longe.

Com filmes como o do diretor japonês Hirokazu Koreeda, Kuki Ningyo [Air Doll, em inglês] (2009) explorando o fenômeno do amor entre homem e boneca, e a ideia de bonecas com almas, a ideia de relações humano-robô no futuro parece bem viável.

Perguntei se isso poderia prejudicar de alguma forma a população cada mais idosa do Japão. "Não há perigo, é saudável", brinca Ishiguro. "Os humanos já lidam bem com formas artificiais de se ter um bebê, então o amor e o sexo não são mais naturais. Sempre estamos ampliando nossas habilidades e superando as limitações de nossos corpos físicos ao aceitarmos novas tecnologias – isso é evolução".

Tradução: Thiago "Índio" Silva