Crédito: Ponte.org

Tem espião até no Tinder e é tão sinistro quanto você imagina

O capitão do Exército brasileiro infiltrado no Tinder não é um caso isolado.

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22 novembro 2016, 1:37pm

Crédito: Ponte.org

No último 4 setembro, você deve saber, um grupo de jovens ativistas planejava participar de um protesto contra o então presidente interino do Brasil, Michel Temer, no centro de São Paulo, mas nenhum deles conseguiu porque, entre eles, estava o capitão do Exército Willian Pina Botelho, que havia se infiltrado por meio do Tinder ededurou a ação. Vinte e um jovens foram detidos porque carregavam máscaras de gás, óculos, estilingue e vinagre.

Vigilância e infiltração não são táticas exatamente novas, mas a revelação da União Americana pelas Liberdades Civis no mês passado de que Twitter, Instagram e Facebook têm compartilhado dados com o serviço de vigilância Geofeedia é um lembrete de que a internet está levando a prática ao extremo.

A história do "espião do Tinder" acaba sendo um recado para uma geração de jovens ativistas: não deixem de se organizar, mas tomem cuidado. É muito provável que a prática ainda esteja em curso e, abaixo, mostramos os porquês.

CONTRAINTELIGÊNCIA NO TINDER

Em 2013, milhares de brasileiros levaram suas mais variadas frustrações com o governo às ruas. A polícia e o exército receberam as manifestações com extrema violência. A repressão política no país só piorou desde então – ainda que não tenha sido tão noticiada quanto na época em que repórteres da Folha de S. Paulo foram alvo da violência policial.

Botelho integrava o serviço de inteligência do exército durante esses protestos. Em dezembro de 2014 ele criou um perfil no Facebook, no Instagram e no Tinder com o nome Baltazar Nunes que contavam com citações falsas atribuídas a Karl Marx e fotos suas tocando guitarra - "o típico perfil de um esquerdo-macho".

"Balta" não estava apenas à espreita. Ele entrava em contato com ativistas, muitos dos quais se organizavam, em grande parte, pela internet. No Tinder ele dizia às mulheres estar em busca de "esquerdistas" com as quais pudesse se relacionar. Fato é que foi uma destas mulheres com quem flertava que o levou ao grupo preso em 4 de setembro. Seus integrantes planejavam se conhecer pessoalmente antes de partir rumo ao protesto.

Esse encontro levou os jovens à cadeia por terem "aparência suspeita". Segundo a polícia, eles planejavam cometer atos de vandalismo. Não havia nada que os incriminasse, apesar de declararem que a polícia plantou itens como uma barra de ferro em meio aos pertences de um deles.

De acordo com um dos integrantes em declaração ao site Ponte.org a polícia disse "que era um dos membros que nem estava de mochila". Ele questionou: "quem pegaria o metrô ou ônibus com uma barra de ferro?". Cabe mencionar que Botelho sugeriu o local de encontro, e os detidos creem que o mesmo alertou a polícia.

O perfil do Tinder de "Balta". Crédito:El Pais

Após a prisão, os ativistas foram levados a uma unidade de investigações especial, onde ficaram detidos sem advogados ou contato com o exterior até que um juiz ordenou sua soltura em uma decisão enfática que condenou a ação. Somente "Balta" foi solto logo de cara, afirmando em redes sociais que havia pagado por sua liberdade. Poucos dias depois, porém, sua identidade de oficial do exército foi revelada pelo Ponte.org.

Apesar da negativa contínua por parte do governo, o Exército confirmou que Balta operava com o conhecimento e apoio do governo estadual de São Paulo.

"Expor, interromper, desorientar, desacreditar ou de outra forma neutralizar"

Por mais que pareça novidade, este tipo de infiltração e manipulação é coisa antiga. Manipulação social e polícias secretas têm sido utilizadas, como dito pelo ex-Diretor do FBI, J Edgar Hoover, para "expor, interromper, desorientar, desacreditar ou de outra forma neutralizar" quaisquer dissidências políticas durante a maior parte do século 20, da Síria à África do Sul.

Hoover era o responsável pelo infame setor de COINTELPRO do FBI, sigla para Programa de Contrainteligência, iniciado em 1956 e "finalizado" em 1971, exemplo muitíssimo bem documentado deste tipo de tática, infiltrando e manipulando movimentos sociais, sempre de olho em seus ativistas. Os principais alvos do FBI eram o movimento em prol dos direitos civis, bem como os Panteras Negras.

A metodologia do COINTELPRO incluía infiltração de informantes, envio de cartas anônimas encorajando a violência entre gangues e os Panteras, além da promoção de discórdia dentro do grupo, ações em conjunto com delegacias a fim de assediar filiais do partido por meio de batidas e afins. O FBI chegou até mesmo a criar material fictício dos Panteras Negras – um livrinho de colorir que enfatizava a resistência armada:

Um ato que ficou especialmente conhecido foi a infame "carta de suicídio" enviada a Martin Luther King Jr. O FBI via King como ameaça à segurança nacional, sujeitando a extenso assédio e vigilância. A tal carta o encoraja a se matar.

MANIPULAÇÃO + VIGILÂNCIA MODERNA

"Não acreditei que jogariam tão baixo, não acreditava que nada do que estava fazendo seria interessante o bastante, então acredito que as pessoas precisam saber que isso rola com gente de verdade."

Estas são as palavras de Kate Wilson, quando veio a público assumir que havia sido vítima de espionagem política durante o Chaos Communication Camp em 2015. Ela morou por dois anos com um homem chamado Mark Kennedy. Em 2010 ela descobriu que se tratava de um policial que havia se infiltrado no movimento ambientalista do Reino Unido.

Sobre Mark, ela comentou ainda: "Era um homem charmoso, que me deixava à vontade, com os mesmos interesses e paixão pelos atos políticos que estávamos fazendo". Sua história mostra como o governo se vale de relações românticas para fins de infiltração. Como notado pela mesma, tudo fica mais perturbador quando se lembra que são agências dominadas por homens manipulando mulheres e se envolvendo em atos sexuais sob falso pretexto – o que pode ser encarado como agressão, como admitido pela polícia local quando retiraram sua defesa do processo de Wilson contra a corporação.

É nesse ponto que a vigilância moderna torna tudo tão mais perigoso quando há o encontro do online e offline. Como qualquer entusiasta de "engenharia social" diria, quanto mais informações se tem, mais fácil é a manipulação.

E é claro que é mais fácil para um policial criar tais relações e coletar informações no mundo online, o que certamente está acontecendo. Por exemplo: uma apresentação de 2012 da agência espiã britânica GCHQ, vazada por Edward Snowden, descreve como uma divisão especial desta agência "se infiltrava em salas de bate-papo" conhecidas como IRCs e identificava hackers. Há ainda o tipo de vigilância revelado pela ACLU, que parece se voltar para monitoramento em tempo real.

Mas o que é igualmente preocupante é como o governo poderia usar a vigilância para basear sua manipulação offline de movimentos sociais. As autoridades podem obter quantidade enorme de informações detalhadas ao observar as postagens de alguém no Facebook. As pessoas não só falam de seus planos e mensagem políticas; muitas vezes extrapolam para seus sonhos, desejos e temores, materiais que podem muito bem ser utilizados por informantes do governo para se aproximar de um alvo ou ainda para constrangê-lo publicamente ou chantageá-lo.

"Torci também para que não ficasse paranoico."

Não é só o compartilhamento exacerbado que torna tais táticas mais potentes, porém. A versão atual das cartas falsas de outrora podem muito bem ser mensagens de celular ou e-mails forjados. No lugar de grampos em um quarto de hotel, a polícia hoje pode ter acesso a uma série de tecnologias de vigilância na rua. Imagens prontas para reconhecimento facial coletadas por câmeras onipresentes, leitores de placas de carros automatizados e monitoramento de celulares são algumas das tecnologias que podem ser usadas para obter detalhes sobre a vida de alguém não só para monitorar, mas também para manipular este indivíduo.

O pior desta estratégia é que, independentemente da infiltração ou provocação ser bem-sucedida, seu efeito é assustador. Um dos jovens presos em São Paulo escreveu que, após sua prisão, ele não tem mais celular. "Torci também para que eu não ficasse paranoico", disse.

E talvez este seja o ponto mais importante a levantarmos deste caso. Como dito por Kate Wilson, "isso aconteceu conosco porque estamos fazendo algo certo". "Não tenha medo do que estamos falando, tenha cuidado", disse.

Tradução: Thiago "Índio" Silva