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Crédito: Nate Milton

A ansiedade causada pela maconha é ainda um mistério para os cientistas

Sarah Emerson

Sarah Emerson

Conhece alguém que tenha ficado na bad depois de fumar um baseado? Estudiosos buscam descobrir por que isso acontece.

Crédito: Nate Milton

Talvez você não lembre da sua primeira experiência com maconha. Mas é provável que você lembre da primeira vez em que ficou muito mal depois de fumar um baseado. 

O ano era 2012. Eu estava deitada em posição fetal na casa de um amigo. Surtava após três tragos de uma erva muito boa. Meu cérebro, suspenso em um estado de letargia, se iluminava com raros lampejos de consciência. Eu estava morrendo de medo. De tempos em tempos a sala caía na escuridão. Sentia que meu coração estava prestes a explodir e, eventualmente, caí num sono parecido com um coma. Nunca havia sentido algo tão horrível.

A bad trip causada pela maconha é o Pé Grande da cultura maconheira — uma lenda urbana baseada não em fatos, mas em boatos. Todo mundo tem um amigo cujo primo teve uma bad trip ("mas, tipo, a maconha é super boa pra ansiedade, né?"). A veracidade desse fato é questionável, e discutir os possíveis efeitos adversos da maconha pode ser, em si, uma experiência enlouquecedora.

"Vomitei muitas e muitas vezes. Depois fiquei deitado no chão. Parte de mim sabia o tempo todo que eu estava doido demais e que alguma hora aquilo ia passar", disse um entrevistado sobre sua experiência negativa. "No dia seguinte, acordei no chão do banheiro. Eu estava me sentindo muito mal."

"Eu e meu namorado tínhamos ingressos para um show da Kate Nash e fumamos um baseado antes de ir", disse outra entrevistada. "Lembro de me sentir meio estranha quando entrei no táxi — como se não estivesse dentro do meu corpo... Aí, durante a abertura do show, o palco começou a girar e eu não consegui ouvir ou ver mais nada. Depois só lembro de acordar no chão minutos depois rodeada por um monte de gente e sentindo como se tivesse morrido."

"Me senti esquisito durante os três dias seguintes", relata uma pessoa que viria a desenvolver um distúrbio de ansiedade. "Meus amigos ainda falam sobre aquele dia; hoje eu rio, mas essa experiência me traumatizou tanto que eu nunca mais fumei maconha. E não planejo voltar."

As dezenas de pessoas que entrevistei para essa matéria relataram os mesmos sintomas: ansiedade, visão ou audição alteradas, tontura e desmaios. Nada parecido com os famosos benefícios da maconha, não é mesmo? Além disso, como alguém que sofre de transtorno de ansiedade, posso afirmar que esses efeitos colaterais se parecem muito com um ataque de pânico.

Graças à guerra às drogas, os pesquisadores têm tido dificuldade em coletar dados que não sejam anedóticos.

No entanto, não se sabe ao certo se a maconha pode desencadear transtornos de ansiedade, e a associação entre a substância e o surgimento de transtornos é duvidosa. Outros fatores causadores de ansiedade foram considerados durante a reavaliação de estudos já existentes sobre o tema: essa reavaliação, por sua vez, revelou que um número quase insignificante de pessoas desenvolveu um transtorno de ansiedade em decorrência do uso de maconha. Pesquisas baseadas em dados longitudinais coletados durante o Levantamento Epidemiológico Nacional Sobre Álcool e Outras Substâncias, uma pesquisa baseada em entrevistas com 34.653 voluntários, não encontrou indícios significativos de que a maconha possa causar ansiedade.

Mesmo assim, graças à guerra às drogas, os pesquisadores têm tido dificuldade em coletar dados que não sejam anedóticos. Uma das dificuldades é padronizar o estudo, por exemplo, das diferentes variedades de cannabis, cada uma das quais possui diferentes efeitos.

"Nem tudo depende do fator genético. É preciso estudar como esses genes se expressam, e como fatores ambientais podem afetar a expressão desses genes", disse April Thames, uma professora assistente do Departamento de Psiquiatria e Ciências Biocomportamentais da Universidade da Califórnia, nos EUA.

"É possível que o uso dessas substâncias possa ter alguma influência no desenvolvimento da ansiedade, mas ainda precisamos de mais estudos sobre esse tema."

Para aqueles que já sofrem de transtornos de ansiedade, a relação é pouco diferente. O estresse e a ansiedade são duas facetas de um mesmo problema — controlar um pode ajudar a apaziguar o outro. Uma teoria sugere que os canabinoides produzidos pelo nosso organismo são uma resposta à elevação dos hormônios do estresse. Os canabinoides, no entanto, podem afetar a amígdala, uma região próxima à base do cérebro que aumenta nosso nível de estresse quando estimulada, de acordo com um estudo publicado em 2016 no Journal of Neuroscience. (É importante acrescentar que esse estudo utilizou cobaias animais, o que afeta sua capacidade de prever de forma segura os mesmos resultados em humanos.)

Outro estudo publicado um ano antes no Neuropsychopharmacology Review também ligou os canabinoides, em especial a anandamida (AEA) e o 2-araquidonilglicerol (2-AG), ao aumento do estresse. O estudo afirma que certos receptores canabinoides interagem com estas moléculas a fim de controlar os níveis de stress. Essa pesquisa inspirou uma teoria de que quando o tetrahidrocanabinol, também conhecido como THC — o composto psicoativo da maconha — se liga a receptores celulares específicos, a sensação de ansiedade pode ser controlada ou exarcebada. Em outras palavras, para algumas pessoas, fumar maconha com níveis mais elevados de THC pode induzir sintomas semelhantes à ansiedade.

"De acordo com algumas pesquisas, a maconha pode ter efeitos ruins em pessoas com histórico de crises de pânico, ansiedade ou depressão", acrescentou Thames. "Existem teorias de que a maconha torne esses receptores mais sensíveis, o que gera um estado de ansiedade."

A existência de diferentes variedades de maconha também é um fator importante. Os vendedores de maconha mais atenciosos costumam indicar a indica, e não a sativa, para pessoas com tendência à ansiedade. Estudos afirmam que não há grandes diferenças genéticas entre as versões modernas da Cannabis indica e da Cannabis sativa, mas para todos os efeitos, certos tipos de indica podem ter níveis elevados de canabidiol, também conhecido como CBD. O CBD, ao contrário do THC, não é psicoativo, o que significa que seu consumo resulta em uma lombra mais suave.

Uma coisa é certa: a maconha não é tão estudada quanto deveria, e nós não saberemos se — e quando — a erva nos dará um ataque de pânico até que rompamos as amarras legais e coloquemos a ciência em primeiro lugar. Felizmente, conforme as leis que regularizam o consumo da maconha vão se tornando menos rigorosas, os psicólogos ganham liberdade para estudar seus efeitos — sejam eles positivos ou negativos.

Tradução: Ananda Pieratti