Quantcast
Tá na moda dizer que a “bolha” do Facebook mudou o debate político no mundo. Mas é esse o centro da questão? Crédito: Chloë Rae/ Flickr

​É perigoso deixar o Facebook ser o principal responsável pela nossa informação?

Diogo Antonio Rodriguez

Diogo Antonio Rodriguez

Tá na moda dizer que a “bolha” do Facebook mudou o debate político no mundo. Mas é esse o centro da questão?

Tá na moda dizer que a “bolha” do Facebook mudou o debate político no mundo. Mas é esse o centro da questão? Crédito: Chloë Rae/ Flickr

Está na moda dizer que a "bolha" do Facebook está mudando o debate político no mundo. Muitos criticam Zuckerberg e sua turma de não combater sites e páginas que espalham notícias falsas. Há quem diga que a rede social foi o fator determinante para a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Mal informados, os eleitores e cidadãos do planeta Facebook estariam tomando decisões com base em informações equivocadas. E as características do misterioso algoritmo de conteúdo do newsfeed seriam as responsáveis por mostrar apenas aquilo que reafirma nossas crenças e opiniões. Zuckerberg, por sua vez, diz que não tem nada com isso e jura de pés juntos que sua empresa não é do ramo da mídia. A pergunta importante a se fazer é: é saudável que Facebook se torne nossa principal fonte de informações?

Rastro de pólvora

Durante as eleições americanas, um post que dizia que o Papa Francisco apoiava Donald Trump em suas políticas de migração foi compartilhado mais de um milhão de vezes. A história, claro, é falsa. É possível dizer que o desmentido não deve ter chegado perto da repercussão do boato, e isso mostra o estrago potencial que a "bolha" pode ter. Um site de notícias falsas chamado The Denver Guardian disse que um agente do FBI que estava investigando o caso dos e-mails de Hillary Clinton havia se matado e assassinado a esposa. O jornal Denver Post, este real, se viu obrigado a negar a existência do suposto concorrente e conterrâneo.

Parece verdadeiro

É óbvio que o Brasil não fica de fora no que diz respeito a este problema. Durante as eleições de 2014 e de 2016, diversos boatos circularam no WhatsApp, no Twitter e, claro, Facebook. A morte de Fidel Castro foi particularmente interessante. De acordo com o Monitor do Debate Político no Meio Digital, iniciativa encabeçada pelo professor da USP Pablo Ortellado, dentre as 10 matérias mais compartilhadas, três eram do suspeito site Diário do Brasil, que costuma publicar boatos e informações que não foram checadas.

Toda-poderosa rede social

A solução parece óbvia, não é? O Facebook deveria se responsabilizar e impedir que conteúdos falsos apareçam nos feeds dos usuários. Simples assim. Só que a ideia pode não ser tão boa assim. Em maio, a empresa foi acusada de manipular o algoritmo para impedir que notícias de sites conservadores tivessem destaque na seção de trending topics. A jornalista Jessica Lessin, fundadora do The Information, acha que é uma péssima ideia deixar a responsabilidade da checagem dos fatos sob o poder de uma única empresa. Segundo ela, é preciso que diversos atores estejam envolvidos nesse processo, para que ele seja o mais transparente e o mais diverso possível. Se tudo fica nas mão do Facebook, ele se torna o único responsável por dizer o que é verdade ou não.

Estourando a bolha?

Por enquanto, não há solução definitiva à vista. E talvez nunca haja. O Facebook admitiu que pode melhorar a plataforma, facilitando a vida de quem quer denunciar conteúdos mentirosos e fazendo parcerias com veículos especializados em checagem de fatos, como o Politifact. A iniciativa parece boa, mas será que todas as pessoas do mundo querem saber a verdade ou preferem acreditar nas suas próprias fanfics? O que os países e os cidadãos do mundo precisam avaliar com carinho é se querem colocar todas as suas informações numa só cesta, correndo o risco de perder a diversidade de opiniões e a credibilidade do conteúdo.

Diogo Antonio Rodriguez é jornalista e editor do meexplica.com. Na coluna Motherboard Destrincha, ele resume os assuntos mais intrincados da ciência e da tecnologia. Siga-o no Twitter.