A Criação do 'Shazam dos Bichos'

Em breve, você poderá verificar o ruído de qualquer animal pelo celular.

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mai 29 2015, 5:39pm

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Há uma sala no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que nada parece com o que se espera de uma sala em um prédio desses. Em vez de microscópios potentes, espécimes conservados ou um par modesto de lousa e mesa, o espaço tem paredes com isolação acústica, algumas dezenas de gravadores, discos antigos e um relógio que, de hora em hora, solta um gorjeio. Quando canta o Uirapuru, às 11h da manhã, a Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard (FNJV) está ocupada por uma equipe dedicada a gravar, arquivar e estudar os sons do mundo animal. E isso inclui até desenvolver um software que associe cada barulho animal a seu autor. Uma espécie de Shazam dos Bichos.

"Temos mais de três mil espécies catalogadas e mais de 32 mil gravações digitalizadas e arquivadas", me explicou Luís Felipe de Toledo, doutor em zoologia. Ele é professor responsável pela FNJV, uma das dez maiores coleções sonoras do mundo. A fonoteca também leva o título de maior da América Latina, região onde habita grande parte dos animais cujos sons compõem seu arquivo. São cerca de trinta mil gravações de aves; quase duas mil de anfíbios; e algumas centenas de animais menos conhecidos pelo barulho que fazem. "Aqui tem insetos, como grilo, aranha e escorpião, mas também tem peixes e bichos que as pessoas normalmente não pensam que produzem som", disse Luís.

Entre as pérolas garimpadas pela fonoteca não há exclusividade para a vocalização, isto é, o som produzido em um princípio similar à fala humana. Há os ruídos um tanto nojentos da glândula que faz teias da Tarântula Golias e o pulsar constante das descargas de choque da Enguia Elétrica — algumas das gravações que você pode escutar acima. Segundo Luís, a fonoteca tem até sons que não podem mais ser ouvidos na natureza. É o caso da Rã Flautinha, presente na lista de animais ameaçados de extinção da IUCN. "Tem alguns animais com um som que você nunca ouviu e nunca mais vai ouvir. E tem sons difíceis de gravar, como o barulho de onça no mato", explicou o biólogo.

O relógio toca um passarinho a cada hora. Crédito: Felipe Larozza/VICE

O rugido da onça assusta, mas, para Luís, o som dos animais serve menos para o ataque do que para o amor. Quem não se comunica, se trumbica. "Sem som não haveria sexo. A comunicação serve para defender território, às vezes evitar uma predação, mas a principal utilização é atrair parceiros sexuais", diz. "Até mesmo na nossa espécie, você sabe, a comunicação é importante para atração do parceiro sexual. Sem comunicação, não tem reprodução, não tem espécie." Não à toa a equipe da fonoteca também estuda outros tipos de comunicação. Com uma câmera, a bióloga Camila Torres vai a campo atrás das manifestações gestuais de sapos mudos — um dos poucos anfíbios que não emite som. "Mas vai que o bicho canta?!", brincou ela.

Como o foco de estudo do grupo é o som, a Fonoteca, vinculada ao Museu de Zoologia da Unicamp, se associou ao Instituto de Computação da universidade para criar um software capaz de reconhecer ruídos animais. O WASIS (Wildlife Animal Sound Identification System), disponível para download, foi desenvolvido pelo Leandro Tacioli — cientista da computação intruso em meio aos biólogos. "Quando cheguei aqui na fonoteca, não sabia nada de bioacústica, então tive de aprender como gerar espectogramas, como analisar frequências, uma série de coisas", contou. Da mistura entre as áreas saiu o programa que funciona como o Shazam para os barulhos do mundo animal.

O professor Luís Felipe ficou meio bravo porque o Motorhead cancelou o show no Brasil. Crédito: Felipe Larozza/VICE

Com uma interface similar a aplicativos de áudio como o Audacity, o WASIS exibe o canto de um passarinho gravado na sua rua, por exemplo, como ondas e linhas de frequência. A partir da seleção de um trecho, algoritmos entram em ação calculando a proximidade entre o áudio analisado e as referências da fonoteca. "Rodo a comparação do som, aí ele busca no banco de dados da Fonoteca", explicou Leandro. Apenas 200 gravações do acervo da FNJV estão disponíveis para comparação, mas, segundo Leandro, o processo de atualização do banco de dados deve ser automatizado até que a coleção completa de milhares de ruídos esteja acessível. Uma versão para celular também está nos planos. Assim, qualquer pessoa com smartphone poderá descobrir qual aquele passarinho que está cantando logo cedo na janela.

Para que isso aconteça, o trabalho da Simone Dena é fundamental. Também bióloga por formação, cabe a ela converter as gravações analógicas da FNJV em versões digitais. "Utilizo preferencialmente o mesmo modelo de gravador em que foi feita a gravação", explica ela. Uma placa de som conectada ao aparelho transfere o áudio para o computador. A identificação do áudio vem da própria fita. "O pesquisador coloca os dados de coleta antes ou depois da gravação", diz ela, ao tocar uma fita em que a metálica voz do biólogo Werner Bokermann relata detalhes como espécie, comportamento, temperatura e local em uma manhã do dia 6 de janeiro de 1974.

Todos os dados entram em uma planilha que, assim como os sons animais no formato WAV, vão para quatro HD externos. "A gente também tem backup em outros lugares. Um dia a gente quer colocar tudo na nuvem", explicou Simone. Além de evitar que as gravações desapareçam, as versões garantem a longevidade da coleção. "Nosso maior problema aqui são os fungos e fitas ressacadas", diz Luís, enquanto abria as gavetas que guardam os pequenos rolos de fita magnética, o maior patrimônio da biblioteca. "A gente tenta controlar a temperatura e a umidade, mas a temperatura ideal para as fitas é ruim para as pessoas. A gente também põe sílica aqui dentro dos arquivos."

Esse gravador é mais velho que eu. Crédito: Felipe Larozza/VICE

Os gravadores são outros itens de suma importância para a FNJV porque, sem eles, não há como reproduzir as fitas de maneira fiel: eles são o único elo entre as gravações e nossos ouvidos. E representam parte da história da bioacústica. "Se a gente quebrar um negócio desses, a gente fica meio enrascado", explicou Luís. A fonoteca conserva mais de um exemplar desses trambolhos de alguns quilos feitos por marcas desconhecidas como Uher e Nagra. "Esses gravadores eram chamados de portáteis. Agora as coisas estão muito mais portáteis. Dá até pra fazer o trabalho de biólogo no celular, embora não seja muito recomendável", explicou Luís.

Tamanha tecnologia passa longe dos primórdios da bioacústica que datam antes mesmo da gravação sonora. Os primeiros registros do barulho dos animais eram feito em discos de cera, mas, até o século XIX, os biólogos recorriam a um recurso quase infantil para marcar o som. "Era onomatopeico: o cara escrevia 'esse passarinho faz pipipi', 'esse sapo faz crócrócró'. Mas isso tem um problema, porque eu leio de um jeito e o americano lê de outro." O inventor francês Hércule Florence (1804-1879) tentou padronizar isso em partituras. "Ele representava o canto dos bichos com notas. Era uma maneira mais universal, mas não é ideal porque a gente não consegue reproduzir", disse o professor.

Hércule também é celebrado como um dos precursores da imprensa no Brasil. Depois de viajar pelo mundo, ele fixou em Campinas por volta de 1830. Mais de um século depois, a cidade receberia outro importante francês: o biólogo Jacques Vielliard, em expedição para gravar o canto de aves brasileiras. "Como sempre trabalhou com bioacústica, ele foi convidado em 1978 para fazer parte do Instituto de Biologia como professor. Aí começou a fonoteca", explicou Luís. Com o passar dos anos, o que era um acervo do pesquisador se transformou numa vasta coleção. Jacques morreu em 2010, dois anos antes de Luís Felipe assumir o cargo de professor responsável da fonoteca.

A Simone pega uma fita, bota pra tocar e faz a versão digital. Crédito: Felipe Larozza/VICE

Hoje a tecnologia é mais gentil que nos anos de Hércule e Jacques. Não só é possível pensar em um software que reconheça o barulho dos bichos, como também é mais fácil gravar os sons da natureza. Segundo Luís, diferentes tipos de microfones conseguem gravar o que não é captado pelo ouvido humano, como o ultrassom do morcego, ou do que é difícil de escutar, a exemplo do canto das baleias. "Hoje tem até um aparelho autônomo que você amarra numa árvore no meio da floresta e ele fica gravando por dias, semanas, meses", disse.

O avanço nas pesquisas em bioacústica — das quais muitas tem participação pela fonoteca — ratifica alguns pontos interessantes sobre o sons produzidos pelos animais. "Existe um sotaque que varia segundo o contexto. O anfíbio maior canta mais grave e o menor canta mais agudo, por exemplo", explicou Luís. Além de questões físicas, outros fatores que diferenciam o som numa mesma espécie são: clima, como temperatura, pluviosidade e fases da lua; e sociedade. "Se tem apenas um macho em uma lagoa, ele canta calmamente, mas se ele está disputando com vinte outros indivíduos, ele canta energicamente", disse.

A ação do homem na natureza também tem causado alterações nos sons animais, segundo o especialista. "A poluição sonora tem atrapalhado a comunicação dos bichos", disse. O ruído produzido em estradas e cidades força alguns seres vivos a saírem da faixa de frequência a que estavam habituados. "Isso pode levar algum problema de estresse e mais gasto de energia aos animais", explicou Luís. O desequilíbrio ecológico causado pela presença de espécies estranhas também tem sua parcela de culpa. O biólogo tomou como exemplo o caso da perereca-assobiadora que tirou o sono de moradores do Brooklyn, em São Paulo, em 2014. "Ela também vai competir pelo espaço acústico com outras espécies."

O Leandro manja de algoritmos. Crédito: Felipe Larozza/VICE

O incômodo com sons da natureza leva a fonoteca e sua equipe a serem acionados pelos colegas humanos. Vez ou outra, Luís recebe pedidos de identificação de espécies a partir do ruído que alguém conseguiu gravar. Os ouvidos incautos do público costumam confundir aves com anfíbios, répteis com insetos. Às vezes, o erro da audiência é ainda maior. "Uma vez me ligaram de uma pousada porque os hóspedes estavam reclamando que tinha uma obra acontecendo à noite. Não era obra. Era o sapo-martelo", lembrou o biólogo. E o barulho do bicho, como você pode ouvir, realmente lembra uma martelada sobre uma bigorna.

E tem gente que vê arte nesses barulhos. Logo depois de mencionar o poema "Os Sapos", de Manoel Bandeira, Luís contou que a cantora Tetê Espíndola e o músico Fábio Caramuru já recorreram ao acervo como fonte de inspiração para seus trabalhos. Programas de televisão e produtoras de audiovisual também procuram a fonoteca quando precisam do som de certo bicho. A norma por lá é a seguinte: para fins científicos, o uso é gratuito; para fins comerciais, o uso é pago. A requisição, me explicou Simone, pode ser feita online.

Da esquerda para a direita: Leandro, Camila, Luís, Simone e Sandra. Crédito: Felipe Larozza/VICE

O caminho natural da FNJV é a internet. Os dezenas de quilos de fitas pouco a pouco aumentam e se transformam em gigabtytes de dados pelas mãos de Simone, Camila e Leandro sob a liderança do Luís. Assim como os pesquisadores que lhe antecederam, ele sabe que um dia será apenas uma voz detalhando espécies em uma gravação antiga. "Eu vou morrer um dia. Se tudo estiver digitalizado, será fácil. Vai ter um funcionário cuidando disso daqui a cem anos." Tomara que, em 2115, os sons dos animais da FNJV não sejam apenas uma memória gravada de espécies que não existem mais.