O Poema que Passou no Teste de Turing

Eles deveriam ter enviado um computador.

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06 fevereiro 2015, 8:17pm

​'For a Bristlecone Pine', por Um Computador

Em 2011, os editores de uma das revistas literárias universitárias mais antigas dos Estados Unidos publicaram um poeminha intitulado "Para o Toco do Pinheiro" na edição de o​utono da revista. O poema tem uma temática naturalista, tom agressivo e alguns recursos poéticos desajeitados extremamente comuns à poesia universitária. O poema é medíocre, exceto por um motivo: ele foi escrito por um programa de computador — e ninguém percebeu.

Zackary Scholl, na época um graduando da Universidade de Duke, criou um programa que utiliza um sistema de gramática descontextualizada para criar poemas. "Ele divide o poema em fatias menores: versos, linhas, orações, chegando aos verbos, adjetivos, e substantivos", explicou Scholl. "Quando acionamos o comando para criar poemas, o programa seleciona elementos aleatórios da estrutura do poema e gera elementos infinitos para ocupar essas lacunas."

O trabalho de Scholl é mais um exemplo do limitado, mas florescente nicho de poesia e prosa gerada por algorit​mos — de bots q​ue usam o Twitter para gerar poemas em pentâmetros iâmbicos a drones que escavam versos em c​alçadas e geradores de romances automatizados, está claro que o abismo entre a arte criada por humanos e máquinas está diminuindo cada vez mais.

Em 2010, Scholl começou a enviar o resultado desses testes para sites de poesia com a ideia de avaliar a recepção dos leitores, que ele diz ter sido "extremamente positiva". No ano seguinte, ele mandou seus poemas automatizados para revistas literárias, recebendo respostas negativas de publicações como a Memoir Journal e a First Writer Poetry. Foi então que Scholl enviou uma série de poemas escritos pelos seu algoritmo para a revista literária de Duke, The Archive. Um deles foi aceito. Segue uma tradução livre do poema:

"Um lar transformado pelo raio

as alcovas equilibradas sufocam

essa terra insaciável de um planeta, a Terra.

Eles a atacaram com chifres mecânicos

porque te amam, amor, com fogo e vento.

Você diz, o que o tempo espera de sua primavera?

Eu digo que espera pelo galho que floresce,

porque tu és arquitetura diamantífera de doce cheiro

que não sabe por que cresce."

Ele nunca disse aos editores que o poema havia sido 'escrito' pelo que ele considera uma forma de inteligência artificial. "Eu não queria envergonhar ninguém", disse-me Scholl.

Quatro anos depois, Scholl, um candidato a PhD em biologia computacional, escreveu um post revelando sua brincadeira, "Teste de Turin​g: Gabaritado, e Com um Poema Gerado por Computador". O Teste de Turing tem esse nome por causa d​a mais nova celebridade do Os​car, o matemático e cientista da computação Alan Turing, e descreve o famoso teste criado para determinar se uma inteligência artificial é evoluída o bastante para imitar, com sucesso, um ser humano. Na sua versão mais famosa, um interrogador tenta descobrir qual dos dois interrogados anônimos — dos quais um é uma máquina — é humano. Se ele ou ela acreditar que o programa é o mais humano dos dois, o sistema passa no Teste de Turing.

"Esse programa cria poemas indistinguíveis daqueles escritos por poetas reais"

Scholl afirma que seu gerador de poesia​ passa em algumas versões desse teste. "Esse programa cria poemas indistinguíveis daqueles escritos por poetas reais", escreveu Scholl. "O Teste de Turing, nesse caso, era ter uma poesia aceita por uma revista literária, o que deu certo — essa poesia foi publicada pela revista literária de uma universidade de prestígio."

O ceticismo dos especialistas em Inteligência Artificial é previsível — afinal, no ano passado, quando o muito mais sofisticado chatbot Eugene​ Goostman "passou" no Teste de Turing ao fingir ser um adolescente russo que respondia perguntas projetadas por humanos em um inglês macarrônico, muitos mem​bros da comunidade de IA apontaram uma possível farsa. Enfiar um poema criado por um robô em uma revista literária não é o suficiente para provar o avanço da inteligência artifical; poesias são muitas vezes ambíguas e bizarras, e os avaliadores estavam julgando tanto a originalidade quanto a humanidade de 'Para o Toco do Pinheiro'.

"Queremos apresentar uma gama de autores e estilos. Nós não publicamos apenas as obras que ganham mais votos", afirmou Elizabeth Beam. Beam era uma das editoras-chefe da Archive quando "Pinheiro" foi publicado. Ela disse que não se recordava de "nada substancioso" sobre o poema, exceto sua originialidade.

Beam se formou na Duke como bacharel em neurociência e literatura, e agora trabalha como assistente de pesquisa no Laboratório Buckner de Harvard, onde ​estuda as características neurológicas, genéticas e comportamentais em pacientes com ansiedade generalizada. Quando ela desenterrou suas anotações sobre o poema robótico, tudo que ela descobriu foi que havia sublinhado os últimos três versos do poema e escrito o breve comentário, "Sim, um tipo de árvore". Ela não votou após o processo de seleção; os editores estavam proibidos de votar após reunir e apresentar os poemas.

"Acho que é por isso que publicamos o poema — porque ele era intrigante. Ele não era banal. E esse foi o mais coerente deles."

Scholl havia enviado 26 poemas, um para cada letra do alfabeto, e "Pinheiro" foi o único publicado. O fato de Scholl ter enviado muitos poemas provavelmente influenciou na votação - a publicação era, afinal, feita por estudantes, com a intenção de incluir e encorajar novos escritores.

Uma linha de código do Gerador de Poemas

Então, se isso for considerado um marco — uma passo no caminho para a produção artística autônoma e robótica — é um marco diminuto. Ainda assim, não deixa de ser interessante; nenhum dos poetas ou programadores com quem conversei conheciam qualquer outro poema feito por computador que foi aceito em uma publicação e publicado como se fosse escrito por um humano.

A maioria das produções artísticas feitas por meio de linguagem algorítimica é despudoradamente artificial; o já mencionado Pen​tametron transforma tweets comuns em poesia real. O gerador de ficção d​e Ross Goodwin pega textos (como o relatório de tortura da CIA, por exemplo) e os transforma em histórias bizarras.

Mas Scholl não está interessado apenas na novidade. "Eu realmente vejo isso como uma outra forma de escrever poesia", ele me contou. Scholl é um leitor ávido de poesia, e seu conhecimento gerou a biblioteca que alimenta o programa (toda a sintaxe e opções de palavras estão dentro de um arquivo .bnf). Scholl pode ajustar a entrada de dados para alterar o conteúdo emocional do poema.

"Esse programa funciona segundo a ideia de que toda palavra da língua inglesa é ou 'positiva' ou 'negativa'", diz Scholl no arquivo que ​explica o programa. "Por exemplo, 'adorável' é positivo, e 'espinho' é negativo. Um 'poema' é um grupo de orações que, juntas, devem alncançar +1, -1 ou 0 em termos de positividade/negatividade. Um 'poema meloso' é extremamente positivo. Ele me mandou alguns exemplos poemas "positivos" e "negativos", e a diferença era gritante.

"É muito legal ver a reação das pessoas", disse. Scholl acrescenta que tem sido muito interessante comparar as reações daqueles que não faziam ideia de que os poemas haviam sido escritos por uma máquina, e daqueles que sabiam. Os comentários no site de poesia, por exemplo, diziam coisas como "Que obra poética maravilhosa. você pinta uma imagem vívida e eu amo a cena que você pintou. Parabéns". No Reddit, onde sua revelação causou algum furor no r/futorology, a reação foi "igualmente bonita".

Scholl reconhece que o programa é muito básico: "A única coisa que ele faz é armazenar informações sobre palavras poéticas. A lógica é bem simples."

"Talvez o programa seja uma Inteligência Artificial", ele acrescentou, "mas um pouco mais simples do que o reconhecimento de fala, por exemplo". Seu objetivo é criar uma versão ainda mais complexa. "Há muito o que melhorar nesse programa. Mais palavras, mais estilos de poesia. Palavras sobre construções, meio-ambiente e todo tipo de classificação."

Existe ainda mais um toque de ironia nessa história: essa edição de The Archive foi projetada especialmente para destacar a artificalidade intrínseca ao ato de ler poesia.

"Estávamos tentando enfatizar que aquilo que o leitor está segurando é um objeto", ela me contou. "As palavras estão espalhadas pela página, é bem difícil de ler."

"Ao mesmo tempo em que estávamos criando uma edição com essa intenção, alguém estava escrevendo esse poema não-subjetivo e não-autoral", ela disse. É justo chamar esses poemas de não-autorais; na verdade, segundo Scholl, eles podem ser 'escritos' por qualquer um. O gerador é um programa de código aberto, e está disponível no Git​hub. Os mais curiosos podem ir para o site do Scholl e testar o pro​grama.

"Acho que é uma experiência interessante", afirma Beam. "Criar um programa que escreve poemas cabe, certamente, na definição do que é arte."

Tradução: Ananda Pieratti