Do Fogo

De noite, após fechar seu computador e ir para a cama, você vislumbra um reflexo atravessando o vidro como a luz da lua, e você acena.

|
02 abril 2015, 7:00pm

O objetivo da ficção científica — servir como um laboratório para a criação de mundos fantásticos e terríveis — nunca foi tão bem retratada na mídia popular. Hoje, somos todos criadores, tecendo realidades segundo nossas próprias especificações. Nós curamos, copiamos, modelamos e imprimimos em 3D; nós atuamos, fazemos cosplay e controlamos alienígenas em jogos de tiro, com a tranquilidade de deuses cujas criaturas ainda não se rebelaram.

—Os editores


Você é um construtor, um inventor. Quando a luz do computador cobre sua pele, você abraça as possibilidades. Você cria vida a partir de pixels. Você a chama de Ártemis. Ártemis é andrógina, sua cor é de um bege uniforme, sua estrutura é retangular, mas graciosa. Ártemis acena para você de dentro da tela, depois anda pelo espaço branco e vazio; percorrendo vetores sem gravidade; entediada. Você cria uma superfície, gerando água e terra. Você pendura um céu azul, insere um sol, uma lua, um respingo de estrelas. Ártemis deita na terra e olha as luzes piscantes, formando padrões com seu dedo.

Como um compositor, você derrama sementes com toques apaixonados do seu mouse. As sementes jorram em feixes verdes, viajando em uma brisa que surge de lugar nenhum. Você dá a Ártemis um balde para recolher água e a presenteia com a responsabilidade de cuidar das plantas. Ártemis executa sua tarefa e recebe vários prêmios, que você troca por árvores, ferramentas e animais pequenos e inofensivos.

Semanas se passam, e Ártemis explora os limites do terreno. Ela mata alguns animais para se alimentar, mas faz amizade com outros. Ela constrói uma casa sob uma árvore, com paredes de vinhas e uma cama de peles. Os pássaros cantam e fazem ninhos nas árvores mais próximas. Ártemis os escuta uma lágrima escorre de seus grandes olhos quadrados. Ártemis desenvolve um estranho ritual de cânticos e movimentos no sentido horário, que repete ao longo do dia. Durante o resto do tempo, ela se mantêm ocupada caçando coelhos, colhendo frutas das árvores. Você a observa constantemente, e de tempos em tempos você se depara com seu próprio rosto refletido na tela, da mesma forma que a luz da lua se deixa ver por entre as frestas de uma cortina. Você se pergunta se Ártemis sabe que você está lá. Será que ela sente quando você a olha?

Ártemis ganha vários prêmios durante seu diligente e harmonioso primeiro mês de vida. Como recompensa, você compra uma mini-mansão-modelo-de-luxo de dois andares. Você limpa o terreno — cheio de insetos, encrustado de fezes de animais — e retira raízes retorcidas de carvalho e pinheiro, enfeitando a nova casa de Ártemis com uma jacuzzi, uma varanda, uma privada que canta e cortinas de linho que dançam na brisa misteriosa. Satisfeito com seu exagero, você senta e espera Ártemis levantar os braços ao céu em gratidão.

Mas Ártemis se recusa a entrar. Ao invés disso, ela joga pedras nas janelas e se esconde na cerca viva. Eventualmente, movida pela fome, Ártemis entra na casa. Ela encontra uma caixa de cereal e a devora com papelão e tudo. Para facilitar o processo de assimilação, você gasta seus últimos centavos em um buldogue francês, uma companhia para sua criação solitária. Depois você dá a Ártemis um computador e a presenteia com a responsabilidade de cuidar das finanças. A ingrata ignora seus sacrifícios. Ela e o buldogue passam os dias correndo pela casa, olhando para o céu e cavando buracos no solo macio.

Você se distrai. Afinal, você tem seus próprios prêmios para ganhar, um gato para alimentar, e a água quente do seu apartamento se transformou, misteriosamente, em gelo. Quase um mês se passa antes que você volte para sua criação, e quando isso acontece: caos. A casa está queimada. Ártemis está desnutrida, com apenas alguns pixels de largura, enrolada no que parece ser a cortina de linho, seus olhos quadrados vermelho-sangue. Em uma das mãos ela segura a perna destroçada do buldogue, o resto de seus ossos espalhados nos escombros. Você se lembra da fragilidade da vida, cheio de culpa, e jura cuidar melhor da sua criação.

Ártemis recolhe as vigas queimadas da casa e ergue um círculo de tochas. Ela vasculha a terra e desenterra um computador: brilhante, reluzente, quadrado. Senta no meio do círculo de fogo, acima da terra devastada, e toca a tela. Você chega mais perto e vê que, assim como você, Ártemis está preenchendo o vazio com terra e água, criando vida nova.

De noite, após fechar seu computador e ir para a cama, você vislumbra um reflexo atravessando o vidro como a luz da lua, e você acena. Por via das dúvidas.


Esse conto faz parte da ​Terraform​, nossa casa de ficção futurística. Arte de Patrick Savile.

Tradução: Ananda Pieratti