Fazendo Bebês

Como criar a infância feliz perfeita.

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15 abril 2015, 10:00am

Arte de Koren Shadmi

Annie desceu as escadas vestindo um belo mau humor, um roupão grande demais e carregando Tommy nos braços. "Eu vou fazer o café", ela disse. "A gente precisa conversar sobre aquilo."

"Deixa que eu faço o café". Simon se levantou e começou a lutar contra a máquina que ele sempre achou complexa demais. Como todo o resto, a máquina parecia ficar mais complicada com o tempo.

Annie amava cafés caros, e foi por isso que ele comprou a máquina, um presente de aniversário de casamento, tão logo seu salário o permitiu. Ela era prateada, brilhante e duas vezes maior do que um microondas, e Annie a amava. Mas ainda não era o suficiente. Ela não parava de aperfeiçoar a máquina. Um peça para aquecer o creme em mais três graus. Uma válvula para resfriar o moedor e evitar que os grãos torrassem antes da hora. Um dos problemas de se viver com uma engenheira mecatrônica: Annie nunca parava quieta. Nada nunca estava pronto. Nada era bom o suficiente.

A cafeteira agora vivia sobre um emaranhado de fios e cabos, e independente de quantas vezes ela o ensinasse — olha, é fácil, é só apertar o botão azul por 17 segundos, assim — Simon nunca conseguia acertar.

Ele cumpriu quase todas as etapas enquanto Annie prendia o bebê na cadeirinha. Ela dizia pequenas palavras de agrado, do tipo que ela costumava dirigir a Simon naqueles meses mágicos entre o primeiro encontro e o começo de sua dissertação.

Da parte de trás da cafeteria veio um assobio alarmante. Annie o olhou com um ar de desapontamento, um olhar que daríamos para um cachorrinho que se cagou no meio do carpete da sala, e veio lidar com a máquina. De novo.

Quando a máquina parou, ele a entregou uma xícara de café fervente, escuro e adocicado com a quantidade exata de açúcar mascavo. "Obrigada", ela disse, como se não tivesse feito o café praticamente sozinha. Ele respondeu com um sorriso, aquele sorriso largo de menino do interior e com as duas covinhas, uma na bochecha e outra no queixo, que ela tanto amava. Amara. Ainda amava.

"Agora", disse Annie, "eu quero conversar sobre o que aconteceu ontem".

Ele costumava amar o jeito como ela ia direto ao ponto. Esses dias, o ponto parecia ser sempre algo que ele não havia feito. Ou algo que ele havia feito para decepcioná-la.

Tommy continuava em sua cadeirinha, batendo sua mamadeira vazia contra seu prato sem comida. Havia um pequeno arranhão na sua têmpora esquerda, mas isso não parecia o incomodar.

"Por favor, me explique por que você deixou a cadeirinha em cima do Plop."

Plop era o carro deles, um Honda usado comprado no início do casamento e que ainda funcionava graças à engenhosidade de Annie. As três últimas letras da placa eram PLP. Eles tiveram bons momentos naquele carro — na verdade, eles haviam vivido coisas fantásticas. Até que ontem…

"Eu estava colocando as compras no porta-malas", disse Simon, lentamente. Ele olhava para o rosto magro e inteligente de Annie, seus olhos cinzentos o fitando sem perder nenhum detalhe. "Eu coloquei o bebê no teto enquanto eu arrumava as sacolas. Eu entrei no carro. Liguei a ignição. Eu esqueci —"

"Você esqueceu que havia deixado o bebê no teto". Ele desejou que ela não soasse tão compreensiva, como um padre recebendo uma confissão.

"Eu liguei o carro, e a cadeirinha voou do teto e caiu no asfalto."

O mais assustador, pensou Simon, foi que o bebê não chorou. Ele não soltou nenhum pio. Simon parou o carro bruscamente, e lá estava Tommy, de cabeça para baixo em sua cadeirinha azul-bebê, balançando suas perninhas e bracinhos gorduchos. Ele checou se havia algo quebrado, se o bebê estava em choque. Mas não havia nada, só um pequeno arranhão onde a testa do bebê encontrou o asfalto. Sem inchaço ou sangue.

É claro. Isso era impossível.

"Não foi minha intenção. Eu não estava prestando atenção."

"Eu sei que você não estava prestando atenção. Sua falta de atenção é justamente o problema", murmurou Annie.

"Se tudo tivesse acontecido diferente, Tommy poderia ter se machucado. Ele poderia ter morrido."

"Mas ele não é um bebê de verdade!" Simon se levantou.

Annie piscou.

Durante um segundo de horror, elanão disse nada.

"Talvez para você", ela disse eventualmente, "mas para mim, ele é um bebê de verdade. Ele é nosso filho".

"Ele não é nosso filho! Ele é seu filho! Você o fez, não eu!"

Ele iria se arrepender disso. Mas ele não conseguia se controlar. Seu estômago se contorceu, e ele sentiu as palavras subindo pela sua garganta como bile.

"Ele é uma máquina. Um eletrodoméstico."

Annie se levantou e pegou Tommy no colo. A mamadeira vazia caiu no chão com um baque.

"O papai não está falando sério", ela disse baixinho, enterrando seu rosto nos cachos castanhos de Tommy, cada um deles feito de fibra de vidro inquebrável. "Papai está cansado e estressado. Ele não quis dizer aquilo."

"Eu mantenho o que disse", sussurrou Simon. "Nós podíamos ter tido um filho normal, como pessoas normais, mas não tem nada de mim nesse, nesse — "

"Para", disse Annie, levantando a mão.

Simon se calou.

"Olha para ele, Simon", ela disse, sua voz carregada de lágrimas. "Só olha para ele."

Annie estendeu o bebê como uma oferenda. Tommy deu um sorriso desdentado. Duas covinhas apareceram em seu pequeno rostinho, uma na bochecha e a outra no queixo.

Annie nunca quis engravidar. Era uma bagunça, ela dizia, além de incômodo e doloroso, e se algo der errado? E isso era compreensível. Afinal, não era Simon que teria que carregar o bebê em sua barriga por nove meses, não era Simon que teria que lidar com o enjoo e as juntas inchadas, ou sentir a dor do parto. Mas ele sempre soube que esses não eram os únicos motivos.

Quando Annie nasceu, sua mãe mergulhou numa depressão profunda. A doença consumiu sua família por anos. Uma das memórias mais tenras de Annie é de tentar levantar sua mãe do amontoado de cobertores que não eram lavados há semanas, o cheiro quente de suor e do chá com leite apodrecido em xícaras abandonadas e cobertas com letras rosas que diziam "recém-mamãe".

Houve um ano de sol, um ano de passeios pelo zoológico, sanduíches de geléia no parque e a mãe de Annie se sentindo melhor e voltando a trabalhar, o trabalho que ela tanto amava na empresa de design gráfico, ou talvez na empresa de softwares — Simon nunca conseguia se lembrar. Mas aí veio a irmã de Annie, e com ela a tristeza, cobrindo tudo como um travesseiro denso e sufocante pressionado contra seu rosto — agora sem volta. Psicose pós-parto. Toda a luz e alegria e energia se esvaindo como se alguém tivesse apertado um botão secreto, e só lhe restasse se arrastar em busca desse botão antes que ele sugasse cada gota de sua alma.

Eu não quero que isso aconteça comigo, decretou Annie. E isso vai acontecer.

Simon a apoiou. As noites em que ela se deitava ao amanhecer, ou nem chegava a se deitar, consumida pela tarefa de soldar chip por chip, aperfeiçoando os mecanismos que iriam fazer os dentes do bebê nascerem na hora certa, que fariam seus olhos piscarem sem esforço, que o tornavam receptivo à padrões de fala e linguagem, para que ele pudesses crescer e aprender como um bebê normal. Mas ao contrário de um bebê normal, Tommy nunca ficaria doente. Diferente de um bebê normal, ele nunca deixaria Annie doente. Ele era seu maior projeto.

E quando se tem um projeto desta magnitude, a única opção é levá-lo a sério. Os bebês vêm ao mundo em hospitais, e foi isso que eles fizeram. Eles foram até a emergência numa sexta-feira à noite, lotada de corpos e gritos sob as luzes fluorescentes, carregando as peças de Tommy dentro de um cobertor. Os olhos de Annie brilhavam, seu rosto estava em chamas, e sua testa reluzia com gotas de suor enquanto ela apertava o último parafuso. O primeiro grito de Tommy fez um médico residente atravessar a sala de espera aos pulos. Eles o trouxeram para casa com muita pressa, com uma multa em seu cobertor fofinho ao invés de uma certidão de nascimento.

Todos ficaram muito felizes por eles. Todo mundo entrou na onda. Os amigos e colegas de laboratório de Annie trouxeram cestas de papinhas orgânicas que Tommy nunca comeria. Até a mãe de Annie, silenciosa como um esboço riscado em um papel desbotado, fez uma visita e permitiu que a criança mecânica sentasse em seu colo e brincasse como seu pesado colar.

Eles tiraram várias fotos de Tommy. Postaram fotos no Facebook e no Instagram. Em cada uma delas, a imagem de Tommy parece estourada, a pele de seu rosto macia demais, uma superfície desfavorável à incidência de sombras. Fotos de encontros com outros bebês e piquiniques e idas ao zoológico. Mas nada de fotos do bebê no banho. Tommy não era inteiramente impermeável.

Simon tentou se afeiçoar, e quando isso não aconteceu, ele tentou ser cuidadoso. Ele tinha medo de danificar Tommy. Ele não fazia ideia de como seus mecanismos funcionavam, então ele se mantinha fiel à cautela. O acidente de ontem havia sido uma anomalia. Annie perguntou por que ele havia largado o bebê em cima do carro como um saco de batatas. A verdade era que nem ele sabia. A verdade era que ele estava cansado. Cansado de fingir.

E cá estava Annie, entregando seu filho a ele. Simon obrigou seus braços a se mover, se forçando a segurar o bebê com ambas as mãos. O bebê soltou um soluço mecânico; os músculos de seu rosto se moviam com muita naturalidade, sem a estranheza dos movimentos de uma criança humana. O pequeno arranhão na sua pele perfeita de silício enquanto ele sorria.

"Papá", disse Tommy.

Simon olhou para o bebê.

"Papá", repetiu Tommy.

Simon olhou para Annie.

"Primeira palavra?"

"Ah, sim", disse Annie. "A primeira palavra mais comum, na verdade". Ela limpou a garganta e bagunçou seus cabelos com os dedos. "É muito mais fácil de falar do que 'mamãe'. Por causa da posição do palato mole. Pensei que deveria manter a autenticidade da coisa."

"Quando você programou isso?"

"Ontem à noite."

"Pensei que você estivesse brava comigo."

"Eu estava." Ela deu de ombros.

Em um movimento, Simon devolveu o bebê cuidadosamente à sua cadeirinha e segurou sua esposa com os dois braços. Ele a beijou, e sua boca se abriu para receber o beijo, e seus dedos se embaralharam em seu cabelo.

Uma movimentação desenfreada, respiração no pescoço, ele querendo,ela querendo. Ele segurou o rosto de Annie e a beijou novamente, um beijo profundo, como se ele quisesse a engolir.

Foi nesse momento que Tommy começou a chorar.

Ele batia suas pernas de silício rechonchudas contra a cadeirinha e gritava por atenção.

"Ele precisa arrotar", murmurou Simon, "Eu não sei porque você manteve essa função."

"É importante...mmm...manter a autenticidade..." Annie se distraía conforme Simon cobria seu pescoço e saboneteiras de beijos, mordendo delicadamente seu ombro.

Tommy gritou novamente.

"Eu cuido disso", suspirou Simon, retirando suas mãos de dentro das calças de sua mulher.

"Não", disse Annie, segurando suas mãos. "Espera— só."

"Mas o bebê está chorando."

"Só dessa vez", disse Annie, o olhando com malícia. Seus olhos brilhavam com maldade.

"Você disse que a gente nunca ia fazer isso", disse Simon.

"Eu sei", disse Annie, "mas é só dessa vez."

Ela se desvencilhou dos braços de seu marido e foi acalmar seu filho. Ela acariciou os cachos macios, sussurrando palavras gentis enquanto Tommy continuava a chorar.

Em seguida ela enfiou o dedo abaixo da cabeça do bebê e apertou um pequeno botão secreto.

Os olhos azuis de Tommy se enevoaram e tremeram até fechar. Seu rostinho se relaxou e ele se dobrou sobre a cadeirinha.

"Pronto", disse Annie. "Isso deve acalmá-lo por algumas horas".

Simon arrancou os botões da camisa de Annie.

"Eu não acredito", ele disse, tocando seu seio esquerdo com os lábios, "eu não acredito que você desligou o bebê".

"Cala a boca e me beija."


Esse conto faz parte da ​Terraform​, nosso lar de ficção futurística.

Tradução: Ananda Pieratti